DENTRE X ENTRE / POR MEIO DE X ATRAVÉS DE

Ultimamente, vários amigos e conhecidos têm me procurado com dúvidas sobre o uso das expressões que compõem o título deste texto. Tento explicar da melhor forma possível, mas a concorrência das redes sociais é muito forte, e algumas expressões “caem na vida” e ficam no uso corrente da língua.

Um dos princípios linguísticos mais comuns é o de que “o uso faz a regra, e não o contrário”, isto é, de tanto serem usadas e repetidas e divulgadas, certas expressões, por mais que sejam condenadas pela Gramática, acabam se popularizando e, finalmente, tornando-se “oficiais”, digamos assim. A respeito disso, lembro de ter lido uma vez que o escritor polonês Isaac Leib Peretz declarou: “A língua é viva, ela muda e progride. A Gramática e o dicionário que tratem de correr atrás dela”. E é isso mesmo!

Bem, façamos aqui as diferenciações cabíveis entre essas expressões para o caso da escrita, embora, no dia a dia, as distinções não existam mais na fala. Como sou um professor de português, procuro sempre explicar aos alunos o uso segundo a Gramática e pela via da Semântica, mas não tenho problemas quando alguém troca uma expressão por outra.

Devemos guardar o “dentre” (de + entre) para construções com verbos que peçam a preposição “de”. Assim, usaríamos o “dentre” em casos como estes:

a) Ela se destacou dentre os melhores. (nesse caso, “ela se destacou de”);

b) Os netos pegaram alguns livros dentre os milhares que o avô possuía. (“pegaram livros de” entre outros que estavam na estante);

c) Dentre os nossos grandes cronistas, Rubem Braga foi escolhido para a aula de hoje por causa de seu talento e de sua sensibilidade. (“Foi escolhido de” entre outros cronistas);

Usaremos o “entre” exatamente quando não houver a necessidade da preposição, isto é, quando o verbo não a exigir. Vejamos alguns exemplos:

a) Machado de Assis está entre os melhores escritores do mundo.

b) Entre quindins e brigadeiros, havia outros acepipes na festa.

c) Estou entre viajar à Austrália e viajar ao Canadá.

Cabe, aqui, uma outra dica. Usa-se “mim” e não “eu” em construções como : “Nada mais há entre ela e mim”, ou “Sempre houve muito respeito entre você e mim”.

No caso de “por meio de ” e “através de “, fazemos a seguinte distinção: a expressão “por meio de” equivale a “com a ajuda de”, “por intermédio de”, “com o auxílio de” etc. Traz a ideia de orientação, ensinamento ou instrução dependendo do caso. Alguns exemplos:

a) Consegui comprar um livro raro por meio de um vendedor que eu conheço há muitos anos. (O vendedor me orientou na compra.);

b) Pude conversar com o diretor da escola por meio de seu assessor.(O assessor encontrou uma data na agenda do diretor.);

c) Chegamos à festa por meio de antigos moradores do bairro. (Os antigos moradores nos deram informações sobre como encontrar o local.)

A história do “através de” é diferente. Vejam que o termo “através” nos remete ao verbo “atravessar”. Assim, temos a ideia de alguma coisa que “atravessa”, “passa por”, “transpõe”, “vai de um lado a outro”. Vejamos:

a) Através do vidro, a moça olhava o mar e os barcos no horizonte.

b) João e Maria chegaram à casa da bruxa através da floresta.

c) O Super-Homem enxerga através da parede – sua visão é de raio X.

Nos anos 70, o cantor americano Barry Manilow gravou uma bonita canção chamada “I made it through the rain”, título que, se traduzido ao pé da letra, fica meio sem sentido, mas a ideia é de “ter passado pela chuva”, uma metáfora para ter vencido as dificuldades e momentos difíceis da vida. O termo “through”, no título, equivale a “através”.

Aqui no Brasil, temos a bela música que projetou Milton Nascimento para o cenário nacional, “Travessia”. No início da canção, o eu lírico narra seu estado de total tristeza e desalento pelo fato de ter sido abandonado: “Quando você foi embora / fez-se noite em meu viver / forte eu sou, mas não tem jeito / Hoje eu tenho que chorar / Minha casa não é minha / e nem é meu este lugar (…)”. Mais adiante, “Meu caminho é de pedra, com posso sonhar? / Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar(…)”. A partir da terceira estrofe, ouvimos: ” Vou seguindo pela vida me esquecendo de você / Eu não quero mais a morte, tenho muito o que viver / Vou querer amar de novo e se não

der não vou sofrer / Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver (…)”. Isso, sim, é que é passar através da dor, da tristeza, do infortúnio, e sobreviver a tudo o que de ruim um amor mal sucedido pode nos provocar. A “travessia” de que fala o título é exatamente essa mudança de estado do “não querer mais viver” para “vou querer amar de novo e, se não der, não vou sofrer”, pois quem fala na canção “tem muito o que viver”. O eu lírico narra sua jornada através da dor até chegar à paz desejada. São versos quase épicos!

Como já expliquei acima, não tenho problemas com o uso desta ou daquela expressão, desde que a pessoa se faça entender. Penso, contudo, que uma oração como “Graciliano conheceu Cecília através de Clarice” sugere que Clarice seja transparente ou mesmo que Graciliano atravessou Clarice para chegar até Cecília! Não é esquisito?

Eu sei que alguns devem estar pensando que “a língua portuguesa é muito difícil”, que “não dá para decorar tantas regras”, que “é melhor cada um usar a expressão que quiser” etc. São afirmações que ouvi muito em sala de aula em meio a risos e caras desesperadas de alunos. O negócio é o seguinte: ler! Quanto mais tivermos contato com bons textos, mais familiaridade vamos desenvolver com o idioma. E, quanto mais familiaridade, mais segurança na hora de escrever.

Lembrem-se do antigo ditado: “Ler é pegar emprestado; escrever é pagar a dívida”.

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