AS CORES DA NOSSA LÍNGUA PORTUGUESA

Já tive a oportunidade de escrever que, quando  estudamos a linguagem coloquial (aquela do dia a dia), podemos encontrar expressões muito interessantes e ricas do ponto de vista semântico. Nossas conversas diárias estão repletas de construções divertidas, inteligentes, criativas e interessantes.

Prestemos atenção a algumas expressões que utilizam cores. Certamente, o leitor já fez e faz uso delas no seu quotidiano…

O Brasil é um país no qual, infelizmente, a desfaçatez das autoridades deixa as pessoas honestas cada vez mais indignadas. Isto aqui é um show permanente de abuso de poder, corrupção, desrespeito à lei, privilégios ilícitos e por aí vai. E, no meio disso tudo, essas pessoas, quando são flagradas em delito, sequer ficam “vermelhas de vergonha”. Se foi pego com dinheiro na cueca, vida que segue. Se desviou verba da Saúde e da Educação, o sujeito se afasta do cenário público, deixa a poeira baixar e volta dali a alguns anos como se nada tivesse acontecido. Ficar “vermelho de vergonha” não é para os poderosos.

Parece que o eleitor brasileiro faz questão de não se lembrar dessa gente espúria nas eleições seguintes, e o que temos são os mesmos pilantras de volta ao poder. Tenho a impressão de que, na hora do voto, “dá um branco”, e as pessoas não se lembram do que ocorreu e foi noticiado em todas as mídias. “Dar um branco” significa esquecer, não se lembrar, não ter memória do que aconteceu. Isso não ocorre somente com estudantes na hora da prova, ou quando queremos nos lembrar de alguma coisa – parece uma sina que vai perpetuando algumas figuras no poder.

Mudando um pouco de assunto, saindo do triste cenário político brasileiro, temos a expressão “passar em branco”: ela significa “não ser notado”, “não ter recebido a devida importância”. “Como ele era desligado, o Dia dos Namorados passou em branco, e a namorada o mandou às favas”.

Quando dizemos que alguém é muito jovem, dizemos que essa pessoa está “verde”, isto é, não “amadureceu” para a vida, ainda não aprendeu o que precisa aprender, não adquiriu a experiência da maturidade – e “maturidade”, claro, faz também uma alusão ao fruto que “amadurece” e deixa de ser “verde”, impróprio para o consumo. Metáfora bastante rica!

Outra expressão interessante vem a ser “jogar verde para se colher maduro”. Utilizada frequentemente para designar uma situação na qual testamos alguém, ela funciona como um conjunto de perguntas com a finalidade de se conseguir descobrir uma informação sigilosa. É uma forma de se desvendar um segredo com malícia, sem que se vá diretamente ao assunto. De novo, a metáfora com frutas.

Se alguém se acovardou diante de alguma situação ou problema, dizemos que essa pessoa “amarelou”. Por que será? Já tentei encontrar a origem dessa expressão: por que a covardia está relacionada à cor amarela? Não encontrei resposta até agora…

Antigamente, costumava-se dizer que, quando estava tudo bem, estava “tudo azul”. De fato, essa cor goza de um significado bastante positivo: o mar é azul, a Terra é azul, o céu é azul (quando não dá sinais de chuva). Conheço muitas pessoas cuja cor predileta é algum tom de azul – e eles são muitos. Tenho para mim que a expressão do russo Yuri Gagarin (“A Terra é azul”), em 1961, deve ter colaborado para que a cor fosse ainda mais bem vista pelos seres humanos. Wilson Simonal cantava a música de Nonato Buzar:

“Estava na tristeza que dava dó
Vivia vagamente e andava só
Mas eis que de repente me apareceu
Um brotinho lindo que me convenceu

Dizendo que eu devia vestir azul
Que azul é cor do céu e seu olhar também
Então o seu pedido me incentivou

Vesti Azul!
Minha sorte então mudou (…)”

Enquanto a maioria das pessoas tem sangue vermelho correndo pelo corpo, os nobres têm “sangue azul”. Bem, existem algumas explicações para essa expressão. Uma delas diz respeito ao fato de que os nobres, por terem pele muito clara, acabavam exibindo suas “veias azuis”, vindo daí a expressão de que “a nobreza tinha sangue azul”. Obviamente, os servos, com pele mais escura, eram considerados inferiores e, assim, a expressão foi utilizada para a segregação e o preconceito. Ainda hoje, é utilizada para reis, rainhas, príncipes e princesas nas monarquias que resistem ao tempo.

Se quisermos deixar uma situação, um desejo, um combinado bem claros, é recomendável que deixemos tudo por escrito. É sempre mais seguro que botemos “o preto no branco”. Em um país como o Brasil, onde é sempre “importante levar vantagem em tudo”, temos de tomar cuidado para não sermos passados pra trás. Uma vez documentado, o acordo goza de maior respeito… infelizmente, no país da “esperteza”, nem sempre as pessoas honram o que prometem. Triste!

Outra expressão interessante diz respeito ao fanático por futebol – quando alguém perde o senso e o limite e faz loucuras pelo seu time, dizemos que essa pessoa é um “torcedor roxo”. Já ouvi e li as explicações mais inusitadas sobre a origem dessa expressão. Uma delas me foi dada por um professor que dizia que isso vinha do fato de a pessoa “ficar roxa” de tanto gritar e vibrar na hora do jogo. Será?

Finalizando, aproveito que estou escrevendo sobre cores para dar algumas dicas de concordância. Não têm a ver com o texto acima, mas acho que valem a pena: se o adjetivo for realmente o nome de uma “cor”, haverá a concordância de número (singular ou plural) e gênero (masculino ou feminino). Vamos lá:

Saia branca/Saias brancas. Sapato preto/Sapatos pretos.

Mas, se essa “cor” for um substantivo, ela ficará no singular sempre, mesmo que o outro substantivo esteja no plural:

a) Ela comprou duas blusas laranja = Ela comprou duas blusas (cor de) laranja. (“laranja” não é cor; é fruta)

b) O professor mandou fazer dois ternos cinza = O professor mandou fazer dois ternos (cor de) cinza. (“cinza” não é cor; é um resíduo de uma combustão completa, como ensinam nossos professores de Química)

c) O milionário possuía cinco carros prata na garagem = O milionário possuía cinco carros (cor de) prata na garagem. (“prata” não é cor; é um elemento químico)

d) Minha irmã ganhou duas camisetas rosa = Minha irmã ganhou duas camisetas (cor de) rosa. (“rosa” não é cor; é uma flor)

 

Fui claro? Tudo azul?

 

 

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4 Comentários. Deixe novo

  • Avatar
    Edilson Cardoso
    janeiro 21, 2021 11:04 pm

    Minha cor predileta é azul! Adorei as cores da nossa língua portuguesa. Eu não “amarelei, ficou tudo “preto no branco”.

    Responder
  • Ótimo texto, esclarecedor, não prestamos atenção em quantas figuras de linguagem usamos , muito bom saber.

    Responder
  • Avatar
    Angelo Antonio Pavone
    janeiro 22, 2021 9:16 pm

    Olá Prof Vitor
    Belo texto
    Uma abordagem criativa e instrutiva dos meandros da nossa língua.
    Parabéns

    Responder
  • Avatar
    BERNADETE BOMENY DE FREITAS
    janeiro 27, 2021 2:27 pm

    Adorei! Muito criativo e divertido! Da minha janela, vejo o céu azul. Acho que hoje, eu também vou vestir azul! Quem sabe…

    Responder

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