
Justiça Comutativa
21/01/2025O conceito de “presidencialismo de coalizão” descreve um sistema de governo em que o presidente, frequentemente eleito em um cenário multipartidário, é obrigado a formar alianças para garantir a aprovação de suas políticas. Essa dinâmica é comum em países da América Latina, nos quais a fragmentação partidária impede que um único partido conquiste a maioria parlamentar.
Para viabilizar a governabilidade, o presidente negocia com diversos partidos, trocando cargos ministeriais e outros benefícios políticos pelo apoio legislativo (Spoon & West, 2013; Fetter, 2020). Esse processo é fundamental para a sobrevivência política em contextos marcados pela pluralidade partidária, como no caso brasileiro. O exemplo do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, após sua eleição em 2002, ilustra como a formação de coalizões ampliou a capacidade de aprovação de reformas importantes (Spoon & West, 2013; Power, 2009).
Entretanto, a dependência de alianças pode gerar custos elevados. O presidente costuma alocar recursos e cargos para manter a lealdade de aliados, sem a garantia de um apoio consistente (Bertholini & Pereira, 2017). Ademais, a diversidade ideológica dos partidos envolvidos pode dificultar a definição de uma agenda comum, criando instabilidade e riscos de dissolução das coalizões (Martínez-Gallardo, 2011; Batista, 2022).
A necessidade de coalizões não surge apenas da vontade política, mas também do desenho institucional e das regras eleitorais. Em geral, essas regras amplificam a fragmentação no Legislativo, criando cenários em que a formação de coalizões se torna quase inevitável para se alcançar a maioria parlamentar (EDWARDS, 2000; Hankla, 2013). Desse modo, o presidencialismo de coalizão funciona como uma estratégia adaptativa dos presidentes diante de sistemas partidários pulverizados.
Do ponto de vista operacional, a manutenção dessas coalizões muitas vezes requer a expansão do número de ministérios e a distribuição de cargos, tornando o governo “superdimensionado” (Meireles, 2016). Embora isso possa ampliar a estabilidade no curto prazo, cria obstáculos à coordenação e aumenta a complexidade na tomada de decisões.
Por outro lado, a formação de coalizões pré-eleitorais pode contribuir para a estabilidade governamental. Ao se organizar antes das eleições, os partidos definem compromissos e regras que mitigam a fragmentação, facilitando a governabilidade no período pós-eleitoral (Kellam, 2015; Albala et al., 2021). Ainda assim, esse mecanismo não está isento de desafios, pois as diferenças internas podem aflorar com o tempo.
Uma perspectiva crítica sobre o presidencialismo de coalizão no Brasil aponta para sua faceta de “sistema de governo do centrão”. Nesse arranjo, grupos políticos historicamente pragmáticos negociam apoio em troca de cargos e recursos, independentemente de uma coesão ideológica clara. Embora tal estratégia assegure governabilidade e a aprovação de políticas pontuais, ela tende a inviabilizar ou postergar reformas estruturais, na medida em que interesses imediatos e corporativos se sobrepõem a agendas de transformação profunda.
Em síntese, o presidencialismo de coalizão é um fenômeno complexo que resulta da interação entre instituições, dinâmica partidária e estratégias de poder. Por um lado, possibilita a formação de maiorias parlamentares em cenários marcados pela fragmentação. Por outro, acarreta elevados custos de negociação, além de potencializar instabilidades e limitar mudanças estruturais. Na América Latina, e especialmente no Brasil, a crítica de que esse modelo acaba fortalecendo o “centrão” evidencia a tensão entre viabilizar a governabilidade no curto prazo e promover transformações de longo alcance.
Referências
Albala, A., Borges, A., & Couto, L. (2021). Pre-electoral coalitions and cabinet stability in presidential systems. The British Journal of Politics and International Relations, 25(1), 64-82. https://doi.org/10.1177/13691481211056852
Batista, M. (2022). Power-sharing, presidential style: issue salience and portfolio allocation in multiparty presidential systems. Political Research Quarterly, 76(2), 915-930. https://doi.org/10.1177/10659129221119205
Bertholini, F. & Pereira, C. (2017). Pagando o preço de governar: custos de gerência de coalizão no presidencialismo brasileiro. Revista De Administração Pública, 51(4), 528-550. https://doi.org/10.1590/0034-7612154969
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Fetter, F. (2020). On the stability of the brazilian presidential regime: a statistical analysis. https://doi.org/10.48550/arxiv.2005.07999
Hankla, C. (2013). Fragmented legislatures and the budget: analyzing presidential democracies. Economics and Politics, 25(2), 200-228. https://doi.org/10.1111/ecpo.12010
Kellam, M. (2015). Why pre-electoral coalitions in presidential systems?. British Journal of Political Science, 47(2), 391-411. https://doi.org/10.1017/s0007123415000198
Martínez-Gallardo, C. (2011). Out of the cabinet. Comparative Political Studies, 45(1), 62-90. https://doi.org/10.1177/0010414011421306
Meireles, F. (2016). Oversized government coalitions in latin america. Brazilian Political Science Review, 10(3). https://doi.org/10.1590/1981-38212016000300001
Power, T. (2009). Optimism, pessimism, and coalitional presidentialism: debating the institutional design of brazilian democracy. Bulletin of Latin American Research, 29(1), 18-33. https://doi.org/10.1111/j.1470-9856.2009.00304.x
Spoon, J. & West, K. (2013). Alone or together? how institutions affect party entry in presidential elections in europe and south america. Party Politics, 21(3), 393-403. https://doi.org/10.1177/1354068812473870