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Prof. Dr. Adriano de Assis Ferreira
16 de ago. de 2023 7 min de leitura
1. A Europa em 1880
Conforme o historiador Eric Hobsbawm descreve, a Europa do século XVIII era, paradoxalmente, menor e maior do que a que conhecemos hoje.a. Menor
A Europa de então possuía menos de um terço da população atual e estava geograficamente mais condensada. Naquela época, a população da França, por exemplo, era estimada em cerca de 28 milhões de habitantes, comparado aos mais de 65 milhões de hoje.b. Maior
Apesar de sua área geográfica relativamente menor, a Europa do século XVIII era "maior" em termos de como as pessoas a experimentavam. As dificuldades de comunicação e transporte eram imensas, tornando as distâncias muito mais significativas do que são hoje. Notícias circulavam graças a viajantes - sejam eles comerciantes, andarilhos, soldados ou peregrinos. O viajar era, então, uma empreitada arriscada e demorada, o que tornava os locais de nascimento e morte frequentemente os mesmos. Na França, por exemplo, em 1860, 9 de cada 10 pessoas nasciam e morriam no mesmo lugar.A Europa Também:
a. Era Rural
A Europa do século XVIII era predominantemente rural. O cenário urbano que conhecemos hoje estava longe de ser uma realidade. Na Inglaterra, por exemplo, a população urbana só ultrapassou a rural em 1851. As cidades, em sua maioria, eram muito menores do que são hoje. Londres, a maior delas, tinha uma população de aproximadamente 1 milhão de habitantes. Paris, a segunda maior, tinha cerca de 500 mil. Existiam apenas cerca de 20 cidades em toda a Europa com uma população de mais de 100 mil pessoas.b. Europa era Absolutista
No século XVIII, a maior parte da Europa estava sob regimes absolutistas, nos quais os monarcas detinham um poder quase ilimitado. A Inglaterra era uma notável exceção, tendo transitado para um sistema constitucional de monarquia após a Revolução Gloriosa de 1688. Esta revolução resultou no estabelecimento de uma monarquia parlamentar, que limitava significativamente os poderes do monarca e estabelecia o Parlamento como a principal instituição do governo. Enquanto isso, em lugares como a França, o rei Luís XIV, que reinou de 1643 a 1715, era um exemplo clássico de um monarca absolutista que acreditava na divindade de seu reinado, como refletido em seu famoso ditado: "L'État, c'est moi" ("O Estado sou eu").A Europa do século XVIII, portanto, estava a mundos de distância da que conhecemos hoje. Era uma terra de contrastes acentuados - geograficamente pequena, mas vasta em termos das experiências humanas que continha. Estava no limiar de mudanças revolucionárias que remodelariam profundamente sua geografia humana e política. Estas mudanças, em grande parte impulsionadas por revoluções políticas, teriam implicações profundas não só para o direito, mas para a concepção do que significa ser humano e ser cidadão.
2. Independência dos EUA e Revolução Francesa
Estes dois eventos marcantes do século XVIII não só mudaram o curso da história nos seus respectivos países, mas também enviaram ondas de choque através do continente europeu e do mundo, desafiando as estruturas absolutistas e estabelecendo novos paradigmas de governança e direitos humanos.
Independência dos Estados Unidos
A Independência dos Estados Unidos (1776) foi um evento seminal que inspirou movimentos democráticos em todo o mundo. Vejamos seus principais aspectos:
- Declaração de Independência (1776): Redigida principalmente por Thomas Jefferson, este é o primeiro documento a proclamar os princípios democráticos de soberania popular. A frase "We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal..." ("Consideramos estas verdades como autoevidentes, que todos os homens são criados iguais...") ressoa como um chamado universal para a igualdade e liberdade humanas.
- Direitos Humanos Universais: Pela primeira vez em um documento político, reconheceu-se a existência de direitos inerentes a todo ser humano, independentemente de raça, sexo, religião, cultura ou posição social. Isso inspirou futuros documentos de direitos humanos, incluindo a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão na França.
- Constituição dos Estados Unidos (1787): A Constituição dos EUA, e especialmente sua primeira emenda, estabeleceu novas normas para a proteção da liberdade de expressão e de religião.
- Supremacia da Constituição: Em 1803, o caso Marbury v. Madison marcou a primeira vez que a Suprema Corte dos Estados Unidos declarou uma lei inconstitucional, estabelecendo o precedente para a revisão judicial e solidificando a supremacia da Constituição.
Revolução Francesa
A Revolução Francesa (1789-1799), por outro lado, foi uma explosão de aspirações democráticas na Europa continental. Ela enviou ondas de choque através de uma Europa dominada por monarquias absolutistas. Aqui estão os seus marcos:
- Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789): Este documento, influenciado pela Declaração de Independência dos EUA, estabeleceu os fundamentos dos direitos humanos na França e em grande parte da Europa. O Artigo 1 afirma que os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos, e o Artigo 2 declara que a finalidade de toda associação política é a conservação desses direitos naturais.
- Fim do Absolutismo na França: A Revolução Francesa marcou o fim do absolutismo na França e estabeleceu um precedente para o desafio ao poder monárquico em outras partes da Europa.
- Disseminação de Ideais: A Revolução Francesa não foi apenas um evento francês. Seus ideais e seus debates, muitas vezes violentos, sobre como implementar esses ideais, influenciaram movimentos revolucionários e reformas políticas em todo o continente europeu e nas Américas.
Estes dois eventos, embora distintos em seus detalhes e contextos, contribuíram conjuntamente para uma ruptura significativa com a visão absolutista predominante na Europa continental. Eles também criaram um novo paradigma civilizacional que inspiraria movimentos democráticos e de independência em outras partes do globo, incluindo América Latina e Ásia, solidificando a ideia de que a governança deveria se basear no consentimento dos governados, e não na vontade divina de um monarca.
3. Marcos Jurídicos das Revoluções
As Revoluções Políticas do século XVIII, notadamente a Independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa, foram mais do que simples reviravoltas políticas; elas estabeleceram fundamentos jurídicos que influenciaram profundamente os sistemas legais ao redor do mundo. Vamos explorar os principais marcos jurídicos dessas revoluções:
Ideia de Soberania Nacional
- A Soberania Nacional é um princípio fundamental que significa que todo poder político reside no povo. Antes das revoluções, a soberania era vista como pertencente ao monarca. Após esses eventos, estabeleceu-se que a autoridade política é exercida em nome do povo.
- Exemplo: A Declaração de Independência dos Estados Unidos afirma o direito do povo de "alterar ou abolir" um governo que viole seus direitos inalienáveis.
Consolidação do Regime Representativo
- As revoluções consolidaram a ideia de que os governantes devem ser representantes do povo, e não suas autoridades absolutas.
- Exemplo: A Constituição dos Estados Unidos de 1787 estabeleceu um sistema de representação política, no qual os cidadãos elegem seus representantes.
Adoção da Separação de Poderes
- Este princípio, advogado por Montesquieu, tornou-se fundamental após as revoluções. Visa a evitar a concentração de poder, distribuindo-o entre diferentes órgãos (Legislativo, Executivo e Judiciário) que são independentes e co-iguais.
- Exemplo: A Constituição dos Estados Unidos incorporou a separação de poderes, limitando rigorosamente as funções de cada ramo do governo.
Valorização da Lei (Positivação dos Direitos Naturais)
- A lei escrita, clara e acessível passa a ser o pilar do sistema jurídico, em contraste com o poder arbitrário dos monarcas. Isso representa a positivação dos direitos naturais, ou seja, sua incorporação em normas jurídicas concretas.
- Exemplo: A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), na França, estabeleceu as liberdades fundamentais como direitos protegidos pela lei.
Supremacia da Constituição
- A Constituição é estabelecida como a lei suprema do país, à qual todas as outras leis devem conformar-se. Isso é crucial para limitar o poder do governo e proteger os direitos dos cidadãos.
- Exemplo: A decisão no caso Marbury v. Madison (1803) nos Estados Unidos estabeleceu o princípio de revisão judicial, que permite ao Judiciário invalidar leis que considere inconstitucionais.
Codificação
- A codificação do direito, inspirada nos ideais da Revolução Francesa, envolve a compilação e sistematização de todas as leis em um código escrito. Isso foi fundamental para a clareza, acessibilidade e aplicação uniforme da lei.
- Exemplo: O Código Napoleônico (1804), também conhecido como Código Civil Francês, foi um dos primeiros e mais influentes exemplos de codificação do direito civil. Ele inspirou a elaboração de códigos civis em vários outros países.
Estes marcos jurídicos não foram apenas teorias abstratas, mas princípios vivos que moldaram a estrutura dos estados modernos. Eles contribuíram para a transição de monarquias absolutistas, onde o poder estava concentrado nas mãos de um único indivíduo ou classe, para sistemas mais democráticos e representativos, onde o poder é exercido de acordo com leis claras e justas, emanadas da vontade do povo e com respeito aos seus direitos fundamentais.