Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) presenciou algumas das maiores transformações históricas da humanidade, como a Revolução Francesa e a consolidação do capitalismo na Europa Continental. Uma de suas grandes preocupações sempre foi compreender o presente, partindo do devir histórico.
Perplexo, constata que fatos e acontecimentos transformam-se em seus opostos, como é o caso da própria Revolução Francesa, transformada no Terror e na ditadura de Napoleão Bonaparte. Como uma situação poderia transformar-se em outra que não era? Como um ser pode vir a ser sua negação?
Percebe, assim, que a filosofia de seu tempo era incapaz de fornecer explicações satisfatórias para as mudanças e as transformações das coisas. Se conseguia abordar um objeto de modo estático, mostrando-o parado no tempo, não explicava sua existência no presente, enquanto um processo que se transforma. A filosofia, pois, explicava o antes e o depois da mudança, mas não a transformação em si. Por exemplo, compreendia a semente como um ser e a árvore como outro ser, mas não a metamorfose daquela nesta.
Hegel atesta que todos os seres estão em constante transformação e o presente nada mais é que um processo que conduz do passado para o futuro. Entender a realidade, então, torna-se entender esse processo e desvendar sua lógica própria, explicando-o.
Se uma coisa transforma-se em outra que não era, isso significa que o Ser "é" e "não-é" ao mesmo tempo. Ou seja, um objeto somente pode transformar-se em algo que já esteja, potencialmente, dentro de si. Essa transformação, contudo, é a negação do objeto original. Voltando à semente, ela contém em si, potencialmente, a árvore; ao transformar-se em árvore, nega-se, deixando de ser semente. Mas somente pôde negar-se porque continha essa negação em sua essência. Todas as coisas, para Hegel, "são" e "não-são", sendo internamente contraditórias, pois o Ser é mutável.
O problema estaria na lógica tradicional da filosofia, que explica o mundo de modo binário: o Ser, de um lado, e o Não-Ser, de outro. Aquilo o que "é", apenas "é"; o que "não-é" alguma coisa, simplesmente "não-é". Se o ser fosse imóvel, ela estaria adequada; dada sua mobilidade, está inadequada.
Devemos salientar que Hegel retoma concepções que remontam a Heráclito, que também considerava o movimento como uma característica essencial do Ser. Para explicar esse Ser, resgata a lógica de Sócrates e Platão, que faz do conhecimento um processo, uma busca dialogada constante. Essa lógica é a dialética.
Os objetos, na realidade, estão em constante transformação: primeiro, "são"; depois, "deixam de ser"; por fim, voltam a "ser", mas em um estágio diferenciado. No exemplo citado, a semente "foi", "deixou de ser" e "voltou a ser", transformada em árvore. O Ser, em sua essência, passaria por essas três fases:
- O Ser, a afirmação, a tese;
- O Não-Ser, a negação, a antítese;
- Voltar-a-Ser, a negação da negação, a síntese.