Após apresentarmos os adjetivos que costumam acompanhar as palavras Capitalismo, Estado e Direito, convém situá-los em uma perspectiva um pouco mais integrada.
Durante o século XIX, no capitalismo concorrencial, o Estado é liberal e o direito, garantidor. Como há a crença de que a economia capitalista, funcionando em conformidade com a lei da oferta e da procura, pode resolver os problemas da sociedade, o Estado interfere pouco e o direito protege os contratos e a propriedade privada.
O Estado liberal estrutura-se de modo representativo, partindo do pressuposto de que os indivíduos que celebram contratos podem escolher seus representantes que governarão em nome de seus interesses. Ser cidadão significa, assim, possuir os direitos de primeira geração protegidos (as liberdades e a propriedade privada) e poder participar da formação da vontade política, escolhendo seus representantes ou sendo um deles.
Sua organização busca respeitar critérios da impessoalidade, estabelecendo-se um governo formado por cargos e não por pessoas, dirigido a cidadãos avaliados objetivamente, sem haver diferenciações por motivos de preferências pessoais. Os funcionários desse Estado são recrutados por meio de concursos públicos ou, excepcionalmente, são indicados para cargos de confiança, formando uma "massa" cada vez maior, chamada de burocracia estatal.
O poder político soberano é exercido dentro dos claros limites de um território nacional, de modo tripartido, respeitando-se o princípio da Separação de Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário). Em termos gerais, esse poder é criado pela Constituição e deve sempre ser exercido dentro dos limites traçados pela legislação, sendo qualquer abuso ou desvio suscetível de ser controlado por vias judiciais. Com isso, o Estado se transforma em uma pessoa jurídica de direito público.
Embora o Estado liberal não intervenha com frequência na economia capitalista concorrencial, isso não significa que ele não aja para promovê-la ou mantê-la em funcionamento. Entre as funções desse Estado, podemos elencar:
- Criação de condições necessárias para o desenvolvimento da atividade produtiva capitalista, conferindo-lhe uma infraestrutura indispensável. Alguns requisitos técnicos, como sistema de transporte, de comunicações, de fornecimento de energia e água e algumas padronizações (pesos, medidas, calendários...) são indispensáveis para que as trocas possam ocorrer e o capitalismo funcionar. Também podemos elencar requisitos sociais, como a delimitação do território e dos limites do mercado, bem como o estabelecimento de mecanismos para estabilizar a economia (sistemas bancário, financeiro e monetário). Cabe, pois, ao Estado liberal atuar no sentido de garantir a existência e o funcionamento dos requisitos acima, bem como cuidar da saúde pública, estimular a produção científica e gerir as crises cíclicas do capitalismo;
- Estabelecimento de forças militares e policiais para reprimir ameaças internas e externas ao capitalismo nacional;
- Integração ideológica das classes baixas à economia capitalista e ao sistema sociopolítico, por meio do incentivo ao estabelecimento de famílias no padrão burguês e pela disseminação da educação enquanto mecanismo disciplinar.