PONTES E SUAS METÁFORAS

Fazendo referência à brevidade da vida e à efemeridade das coisas mundanas, existe um antigo provérbio budista que diz: “Vê que a vida é uma grande ponte. Não constrói nela tua casa. Atravessa-a somente.” A metáfora aqui é clara – a vida seria a ligação entre esta vida material, concreta, e a outra, espiritual, de outro mundo que não este em que vivemos.

Independentemente de acreditarmos em vida após a morte ou não, a imagem é bonita e nos fala para aceitarmos que tudo é extremamente frágil, por mais que desejemos reter o momento presente de uma vida prazerosa, agradável e bonita. Por outro lado, se estamos passando por uma fase ruim, é um consolo saber que isso também terminará.

A simbologia da ponte – como algo que nos leva “ao outro lado”, que nos permite “chegar à margem oposta” – é bastante forte na mitologia de diversos povos. Não tenho tempo, nem espaço para, aqui, citar todos os significados e interpretações de um dicionário, mas é muito interessante como ela se faz presente nas mais variadas culturas.

Vamos a uma amostra: em seu “Dicionário de Símbolos”, os autores Jean Chevalier e Alain Gheerbrant apontam que “a ponte Chinvat, o divisor, da tradição iraniana, é uma passagem difícil, larga para os justos, estreita como uma lâmina de barbear para os ímpios”. Assim, afirmam os autores, “notam-se, portanto, dois elementos: o simbolismo da passagem e o caráter frequentemente perigoso dessa travessia” para quem não for correto e digno.

Ainda segundo o mesmo dicionário, um conto relata que os galeses invadem a Irlanda para vingar a infelicidade de Branwen nas mãos do marido Matholwch, rei da Irlanda, mas são detidos por Shannon, rio mágico sobre o qual não existe nenhuma ponte e que nenhum navio pode atravessar. O rei Bran se deita, então, ao longo do rio, de uma margem à outra, e os exércitos passam sobre o seu corpo. O conto galês vê nesse episódio mítico a origem do aforismo: “Aquele que pretende ser um líder deve transformar-se em ponte”.

Uma coisa leva à outra, e a gente chega ao termo latino “pontifex”, o construtor de pontes. O título era anteriormente atribuído aos imperadores romanos; hoje, é o Papa que o detém – nesse caso, ele seria “o construtor e a própria ponte”, o mediador entre os homens e o Criador. Enquanto está no comando da Igreja Católica, o Papa está exercendo o seu “pontificado”, é um “pontificante” ou um “pontífice”.

Na bonita mitologia nórdica, por sua vez, o arco-íris é a “ponte” entre a Terra e Asgard, a morada dos deuses (“Ases”)  Thor, Odin, Balder etc.

Como se vê, a ponte vai adquirindo diversos aspectos à medida que vamos mergulhando nas diversas culturas dos diversos povos do planeta, mas sempre guardando o significado de “ligação”, “união entre partes opostas”.

São vários também os provérbios que se utilizam dessa simbologia. Como um convite à aventura e para que se evite a estagnação, os chineses costumam dizer: “Pelo menos uma vez na vida, arrisque-se numa ponte perigosa”. Já os indianos recomendam a sabedoria e a cautela, visando aos tempos difíceis que virão, com o seguinte provérbio: “Lembre-se de construir a ponte antes de precisar atravessar para a outra margem”. Um outro provérbio bonito, este de ordem espiritualista, indica: “Aquele que não perdoa destrói a ponte sobre a qual ele mesmo deve passar”.

Muito comum entre nós, para falarmos da passagem do tempo, vem a ser a expressão “Muita água já passou embaixo daquela ponte”, isto é, muita coisa já aconteceu, muitos fatos já se sucederam.

Nas artes, temos também alusão à ponte. Sem pensar muito enquanto escrevo este texto, vêm à minha mente títulos de (ótimos) filmes como “A Ponte de Waterloo” (com Robert Taylor e Vivien Leigh), “A Ponte do Rio Kwai” (com William Holden e Alec Guinness), “As Pontes de Toko-Ri (com William Holden e Grace Kelly) ou ainda “As Pontes de Madison” (com Meryl Streep e Clint Eastwood), entre outros.

Em 1970, a dupla Simon & Garfunkel fez muito sucesso com “Bridge over troubled water” (“Ponte sobre águas turbulentas”), música na qual o eu lírico afirma para seu interlocutor ou interlocutora: “Quando você estiver cansado, sentindo-se pequeno / quando lágrimas estiverem nos seus olhos / eu as secarei todas / Estou do seu lado / E quando os tempos ficarem difíceis / e amigos não puderem ser encontrados / Como uma ponte sobre águas turbulentas / eu vou me estender (…) / Eu vou deixar você tranquilo (…)”. Bonita metáfora para a amizade – a ajuda para “atravessarmos” os tempos árduos. Não é isso que se espera de um grande amigo, afinal?

Saindo do campo metafórico, quero fazer alusão àquela que, para mim, é a ponte mais bonita que já vi e pela qual tenho paixão – a Golden Gate, na Califórnia. Ligando a linda San Francisco até Sausalito, a ponte, construída entre 1933 e 1937, tem mais de 2,5 quilômetros de extensão e uma altura de 227 metros. Não raramente, está envolta pela névoa que lhe dá um charme especial sobre o Oceano Pacífico. Acho que minha mãe lhe deu a melhor definição quando lá estivemos juntos. “Ela é linda, mas é misteriosa de um jeito que não sei explicar”.

Exatamente!

 

Bibliografia:

CHEVALIER, Jean et GHEERBRANT, Alain – DICIONÁRIO DE SÍMBOLOS, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1997, pp. 729-730.

CUNHA, Antônio Geraldo da – DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO NOVA FRONTEIRA DA LÍNGUA PORTUGUESA, Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1992, p. 622.

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