O QUE SÃO “VERBOS IMPESSOAIS”?

Já tive oportunidade de afirmar, neste espaço, que o estudo de verbos em português requer bastante cuidado. Essa classe gramatical apresenta divisões nem sempre muito claras para o falante, trazendo dificuldades e dúvidas até mesmo para os mais dedicados estudiosos da língua.

Uma dessas “divisões” ou classificações, como queiram, vem a ser a dos “Verbos Impessoais”. Frequentemente, constato alguns equívocos no seu uso – seja na escrita, seja na fala. Gostaria de deixar algumas dicas…

Bem, para início de conversa, esses verbos recebem o nome de “Impessoais” porque não possuem sujeito, isto é, vão aparecer em orações nas quais o sujeito é inexistente. Consequentemente, serão conjugados apenas na terceira pessoa do singular. É o caso dos verbos “haver” (com sentido de “existir”), “fazer” (com sentido de tempo decorrido) e os verbos que indicam fenômenos da natureza. Vamos a eles!

Quando eu digo “Infelizmente, existe injustiça no Brasil”, claro que  “injustiça” é o sujeito da oração. Assim, se esse sujeito for para o plural, o verbo deverá acompanhar essa flexão: “Infelizmente, existem injustiças no Brasil”. Até aí, penso que ninguém tem dúvidas. E se eu utilizasse o verbo “haver” no lugar de “existe”? Todos certamente diriam: “Infelizmente, injustiça(s) no Brasil” – sem flexionar o verbo “haver”, correto? O problema, porém, começa quando se utiliza esse verbo nas formas do passado ou do futuro, pois as pessoas têm uma tendência a flexioná-lo também. Não nos enganemos: se o verbo “haver”, com sentido de existir, permanece no singular no tempo presente, acontecerá o mesmo nos outros tempos: “Infelizmente, havia / houve / haverá / haveria injustiça(s) no Brasil”.

E se eu quiser utilizar um “verbo auxiliar” para dar a ideia de futuro, recurso muito utilizado na linguagem do dia a dia? A regra é a seguinte: o verbo auxiliar acompanha a impessoalidade do verbo principal. Assim, terei: “Infelizmente, vai haver injustiças no Brasil”. O verbo principal é “haver”; o verbo auxiliar, “ir”.

O verbo “fazer”, com sentido de tempo decorrido, passa pelo mesmo processo. Eu devo escrever (e dizer) “Faz um mês que cheguei de viagem”. Até aí, nenhum problema, mas, de novo, as pessoas se confundem um pouco quando esse tempo está no plural, digamos assim. Não se deve flexioná-lo em número, tentando fazer a concordância com o tempo decorrido. Lembrem-se: ele é impessoal, não está nem aí para o tempo que se passou. “Faz dois meses / faz três semanas /faz quatro anos / faz dois séculos que não a vejo”. “Fez dez dias, ontem, que comecei no novo emprego” ou “Daqui a pouco, fará duas horas que estou esperando o médico”… e por aí vai. O mesmo acontecendo se eu utilizar um verbo auxiliar: “Deve fazer uns dez minutos que ela saiu”.

O terceiro caso diz respeito aos verbos que indicam os fenômenos da natureza. Se prestarmos atenção, veremos que realmente não faz sentido algum conjugar em todas as pessoas verbos como “ventar”, “nevar”, garoar”, “gear” etc. Ninguém diz “Eu nevei ontem” ou “Nós garoamos na cidade”. Esses verbos também serão usados somente na terceira pessoa do singular – e seus auxiliares acompanharão esse processo. “Nevou muito em Moscou ontem”, “Ventava muito naquela praia”, “Geou na semana passada em Curitiba”, “Vai chover muito em São Paulo depois do Natal”.

Agora, é preciso que se faça uma observação. A linguagem conotativa, isto é, a linguagem figurada, aquela que explora as chamadas figuras de linguagem, e que é carregada de subjetividade,  criatividade, sentimentos e emoções por parte de quem escreve ou fala, essa pode apresentar algumas construções que fogem a todas as regras que expus acima. Observe a seguinte frase: “Choveram elogios ao seu trabalho na faculdade”. Logicamente, o verbo “chover”, aqui, não diz respeito ao fenômeno meteorológico, mas ao fato de que os elogios vieram em grande quantidade, os elogios foram abundantes. É sempre importante se observarem os recursos que um escritor utiliza na composição de seu texto – pensemos em Guimarães Rosa, por exemplo.

Lembro-me de um amigo de infância com quem eu trocava muitas cartas. Acabei me mudando do bairro onde morávamos e não tínhamos telefone, artigo de luxo naquela época (assunto para um futuro texto). Era um tempo pré-internet e pré-celular, lógico, e tínhamos o hábito de escrever bastante para contar o que estava acontecendo em nossas vidas no trabalho, no amor e na família. Invariavelmente, ele lamentava minha ausência na rua em que ele morava e onde eu conhecia todo o mundo. E, então, lá vinham coisas como: “Fazem uns cinco meses que você não aparece”, “Fazem dois anos que a gente não se vê”, “Vão fazer oito dias que cheguei de viagem” e por aí afora. Aquilo me incomodava, mas eu tinha muito medo de parecer pernóstico (tenho verdadeiro horror à gente arrogante!) e de magoar meu amigo ao corrigi-lo, pois deve-se tomar muito cuidado ao se corrigir uma pessoa – isso pode custar uma amizade!

Para minha felicidade, quando eu estava no segundo ou no terceiro ano da faculdade de Letras,  ele me mandou uma carta na qual dizia: “Vitão, posso lhe pedir um favor se não for muito abuso? Eu gostaria que você corrigisse minhas cartas… pode mandar bala! Eu não me importo. Eu escrevo alguma coisa errada?”.

Acho que o meu amigo, com sua humildade, permitiu que eu desse a primeira aula da minha vida…

 

DIREITO À TIMIDEZ
A ARTE DE ESCREVER CARTAS

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6 Comentários. Deixe novo

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    Baltasar Pereira
    julho 11, 2019 7:36 pm

    Erro recorrente e vou falar a verdade, cometo muitos destes erros. Grato pelas explicações. Texto esclarecedor.

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  • Avatar
    Suzy Aparecida Colli
    julho 11, 2019 7:57 pm

    Como sempre texto MARAVILHOSO!
    Gostaria de ter um amigo que me corrigisse também….pode ser ?

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  • Mais um excelente texto, de assunto muito difícil: verbos. Parabéns por mais essa pérola. Abraço

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    Otavio de Campos Dias
    julho 11, 2019 9:11 pm

    Parabéns pelo texto, muito leve e instrutivo, a muito não lia algo assim.

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  • Muito bom o texto. Afinal, a língua portuguesa não é nada simples e temo, algumas vezes “escorregar” nos erros de concordância. Vitão, pode mandar bala. Quem dera toda aula de português fosse assim. Parabéns!

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  • Texto maravilhoso e esclarecedor, como sempre!!

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