UMA VELA PARA O BRASIL

O escritor paranaense Dalton Trevisan (nascido em 1925) – famoso por seu talento e por seu comportamento reservado e avesso à exibição – produziu excelentes contos distribuídos por livros bastante famosos como “O Vampiro de Curitiba”, “Novelas nada exemplares” e “Em busca de Curitiba perdida” entre muitos outros. É deste último um conto (poderia ser classificado como crônica) que resume bem o Brasil.

Em “Uma vela para Dario”, o homem do título é um senhor que sofre um ataque epiléptico na rua, no meio da multidão desconhecida. O texto começa com o mal-estar da personagem e evolui até a sua morte. O que se passa entre um estágio e outro, contudo, é o que interessa na história.

Dario vem apressado, carrega um guarda-chuva no braço esquerdo e fuma um cachimbo quando se sente mal. Encosta-se a uma pedra, alguns passantes perguntam-lhe se ele está bem. Dario não consegue responder. Estendido na calçada, um rapaz “abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta”. Assim que lhe tiram os sapatos, “bolhas de espuma surgem no canto da boca”. A multidão se forma; curiosos querem ver o homem deitado na calçada; muita gente sai à janela para ver o que está acontecendo.

Em meio a tudo isso, informa o narrador, o cachimbo e o guarda-chuva já sumiram. Dario é arrastado para o táxi, mas o motorista pergunta quem pagará a conta até o hospital. Resolvem chamar uma ambulância, e o homem é reconduzido até a calçada e lá é depositado. Não o levam para a farmácia, que é longe – além disso, Dario é muito pesado. O homem é deixado no degrau de uma peixaria, agora sem o relógio de pulso. Alguém lhe examina os documentos e fica-se sabendo que Dario é de outra cidade. A esta altura, chega a polícia, algumas pessoas se retiram apressadamente e o corpo de Dario é pisoteado “dezessete vezes”.

A identificação por parte do policial é impossível, pois os bolsos de Dario estão vazios. Melhor chamar o “rabecão”. Resta-lhe apenas “na mão esquerda a aliança de ouro que ele próprio – quando vivo – só destacava molhando com sabonete”. O narrador informa que “um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça” e um “menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver”. Começa a chover, a vela se apaga, Dario espera pelo rabecão – agora, a cabeça na pedra, sem o paletó. “E o dedo sem a aliança”.

Tive contato com esse texto, pela primeira vez, quando eu era adolescente, no primeiro ano do Ensino Médio. Lá se vão mais de 40 anos. Lembro bem do impacto que a breve história teve sobre mim e nunca mais me esqueci dela. Dizem que os clássicos não envelhecem – e esse texto não envelheceu um segundo desde que foi escrito, em 1964.

Toda as vezes em que voltei a ele, a imagem do Brasil me veio à mente com muita força. O texto fala do comportamento humano, oscilando entre a solidariedade e o egoísmo, esse eixo sobre o qual nossa sociedade parece se estruturar desde seus primórdios. É claro que isso caberia à análise de outros países do mundo, mas falo de Brasil porque aqui vivo e aqui sinto todos os efeitos desse jogo entre “eu me preocupo com você” versus “tô nem aí, meu amigo!”.

A força do belo e triste conto de Dalton Trevisan não perde sua atualidade na medida em que analisamos um Brasil que atravessa um momento terrível de pandemia – como o mundo todo o faz – e no qual, ainda assim, pessoas encontram motivos e caminhos para o lucro vergonhoso, para a obtenção da vantagem infame, para o egoísmo que prejudica e mata.

Do lado do “eu me preocupo com você” – aqueles que tentariam salvar Dario –, estão os que se isolam, fazem a sua parte para evitarem a (ainda maior) disseminação do vírus que já tirou tantas vidas. São aqueles que, com sacrifício, aguentam firmes, usam máscaras, cuidam de sua saúde e da saúde dos outros – uma coisa está intimamente ligada à outra na situação em que nos encontramos. São velhinhos que “se contentam” em ver seus familiares pela tela do celular e/ou do computador (“O que se pode fazer?”, perguntam, resignados e tristes); são jovens que, conscientes do perigo das aglomerações, não as frequentam, pois, embora possam não desenvolver a doença, sabem que podem perfeitamente transmitir o vírus para seus pais, tios e avós. E por aí vai.

Do lado do “tô nem aí, meu amigo!”, aquela galerinha que se acha invulnerável feito Super-Homem e que não está preocupada com o bem-estar de ninguém. O que importa é “viver a vida” apesar da pandemia. “Já estamos cansados de ficar em casa; queremos o boteco, o churrasco, a praia, a balada, a festa de aniversário, o casamento… chega de isolamento. Já deu!”. Eles querem o “aqui e o agora”. Dia desses, no supermercado, ouvi uma mulher dizer ao caixa: “Meu filho não está nem aí comigo. Não parou em casa um dia sequer. Meus patrões foram muito mais dignos: me pagaram para eu ficar cinco meses em casa e não me expor nos ônibus e no metrô. Estou apavorada com o comportamento daquele moleque…”.

Por outros motivos tão terríveis como esse, o Brasil – enquanto escrevo este texto – ultrapassa os 250 mil mortos pela Covid-19. É a vacina que tardou a chegar e que, quando chegou, não foi (não tem sido) suficiente para todos; é um governo desgovernado, desorientado, atarantado, perdido mesmo! Negligente! São os furadores de fila que passam na frente de quem tem mais urgência na vacinação (como idosos e profissionais da saúde). São as pessoas irresponsáveis que “estão cansadas” do isolamento – e que, com seu comportamento mimado, parecem crianças birrentas.

Ninguém me tira da cabeça que elas seriam, se oportunidade houvesse, as mesmas pessoas que deixariam Dario morrer na calçada – sem seu relógio, sua carteira, seu cachimbo, seu paletó ou sua aliança.

Apenas com uma vela apagada pela chuva. A mesma vela que parece se apagar na escuridão do Brasil.

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2 Comentários. Deixe novo

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    Angelo Antonio Pavone
    março 12, 2021 1:30 pm

    Olá Prof Vitor
    Texto simplesmente maravilhoso
    Tudo foi dito: nossas dúvidas, nossas esperanças, nossos anseios. O capital humano se esgarça neste país. E as vacinas. …
    O que deveria ser um direito se transformou em mendicância
    Parabéns pelo texto

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  • Que texto brilhante. Parabéns, Vitor!

    Responder

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