UMA FLOR… BELA E CHEIA DE POESIA

Quando se estuda ou se fala de poesia portuguesa, é comum que imediatamente se pense em Camões, Antero de Quental, Bocage ou Fernando Pessoa. Esses são os nomes mais conhecidos (e estudados) pelo grande público apreciador da maravilhosa poesia daquele país. Poucos, hoje, no entanto, sabem quem foi Florbela Espanca.

Seus biógrafos dão conta de que Florbela d´Alma da Conceição Espanca nasceu em Vila Viçosa, aos 08 de dezembro de 1894, vindo a morrer em Matosinhos, aos 07 de dezembro de 1930, vítima de suicídio por overdose de calmante, horas antes de seu 36º aniversário.

A poetisa lusitana sempre foi marcada pelo signo da marginalidade e da melancolia. Filha de um caso entre um pequeno burguês – João Maria Espanca – e uma empregada doméstica – Antónia da Conceição Lobo -, trazia na certidão de batismo o registro de “filha de pai incógnito”. João Maria, ainda que a tenha recebido em casa desde seu nascimento, “só a perfilharia efetivamente em junho de 1949, quase 19 anos após a morte da filha”, segundo Renata Soares Junqueira, professora livre-docente em Literatura Portuguesa pela Unesp.

Passando em branco pelo Modernismo português, sem ser citada por poetas do movimento, como Fernando Pessoa, Florbela viveu quase sempre à margem de Lisboa. Hábil no lidar com as palavras, produziu sonetos muito bonitos, “um cenário em que sempre se apresentam cenas melodramáticas, contrastes artificiosos, exageros às vezes surpreendentes e máscaras frequentemente compostas com o auxílio oportuno de um pseudobiografismo”, de acordo com a professora.

Dessa forma, Florbela cria em torno de si um ambiente de mistério, de profundo pesar, de reflexões acerca da existência e do enfrentamento da vida. Ainda que sua maturidade poética seja marcada pela forma do soneto –

forma fixa composta por duas estrofes de quatro versos e duas estrofes de 3 versos, totalizando 14 -, a escritora produziu outra formas de poesia – como quadras e quintilhas.

Independentemente, porém, da forma que tenha utilizado, Florbela explora um eu poemático essencialmente feminino, assumindo ora a “persona” de uma princesa à espera de seu príncipe encantado, ora da mulher enclausurada, voltada para si mesma, e até mesmo adotando o papel de uma feiticeira apaixonada à procura de um amor ideal e igualmente encantado. São muitas as faces, e talvez, sob esse aspecto, ela se aproxime de Fernando Pessoa.

Um de seus sonetos mais bonitos – é difícil a escolha – é este que pode ser lido no “Livro de Mágoas”, de 1919:

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida

Eu sou a que na vida não tem norte

Sou a irmã do Sonho, e desta sorte

Sou a crucificada… a dolorida…

 

Sombra de névoa tênue e esvaecida

E que o destino amargo, triste e forte

Impele brutalmente para a morte!

Alma de luto sempre incompreendida!…

 

Sou aquela que passa e ninguém vê…

Sou a que chamam triste sem o ser…

Sou a que chora sem saber por quê…

 

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,

Alguém que veio ao mundo pra me ver

E que nunca na vida me encontrou.

 

Lembro-me bem do meu primeiro contato com os textos de Florbela Espanca na faculdade. Nosso professora de Literatura Portuguesa fez questão de que conhecêssemos a

autora, pois poucos livros didáticos faziam menção à sua obra. A professora Laís achava um absurdo que essa lacuna no ensino se perpetuasse – e acho que até hoje isso acontece pelo menos no Brasil.

A gente sempre lamenta que uma obra tão bonita caia no esquecimento, ou que não tenha o reconhecimento devido.

Vejamos, por exemplo, como a poetisa constrói as imagens de uma mulher tomada de uma paixão furiosa e “fanática”, tendo tanta certeza de seus sentimentos que desdenha daqueles que pregam a inconstância e a fugacidade das coisas do mundo. Por meio de hipérboles (exageros) e paradoxos, esse amor exacerbado toma ares de religiosidade, comparando o ser amado a Deus, o Deus de sua existência.

FANATISMO

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida!

Meus olhos andam cegos de te ver!

Não és sequer razão de meu viver,

Pois que tu és já toda a minha vida!

 

Não vejo nada assim enlouquecida…

Passo no mundo, meu Amor, a ler

No misterioso livro do teu ser

A mesma história tantas vezes lida!

 

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”

Quando me dizem isto, toda a graça

Duma boca divina fala em mim!

 

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:

“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,

Que tu és como Deus: Princípio e Fim!…”

 

Acho que o título de alguns poemas e a força dos versos de Florbela podem assustar aos mais comedidos, mas é inegável que sua obra contém uma expressividade e uma intensidade que traduzem o que deve ter sido o próprio temperamento da escritora.

Lembremos de Graciliano Ramos, que dizia, revelando muito sobre escritores e suas composições: “Só sei escrever o que sou”. Toda obra literária traz, em maior ou menor grau, um retrato confessional de seu autor.

BIBLIOGRAFIA:

JUNQUEIRA, Renata Soares. “A poética de Florbela”, in: Florbela – Antologia Poética, São Paulo, Martin Claret Ltda., 2015, pp. 7-12.

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5 Comentários. Deixe novo

  • Avatar
    Angelo Antonio Pavone
    dezembro 10, 2019 7:41 pm

    Olá Prof Vitor
    Belíssima e sensível homenagem a Florbela Espanca
    Parabéns

    Responder
  • Avatar
    Baltasar Pereira
    dezembro 10, 2019 8:25 pm

    “Só sei escrever o que sou” belas palavras de Graciliano Ramos. Florbela Espanca ,grande Poetisa e pouco conhecida no Brasil. Parabéns por nos trazer este belo texto que nos esclarece mais acerca de Floberla. E na verdade dá vontade de continuar pesquisando mais sobre a Grande Poetisa. 🤗🤗

    Responder
  • Linda homenagem

    Responder
  • Avatar
    Edilson Cardoso
    dezembro 11, 2019 6:25 pm

    Não sou profundo conhecedor em Poesia, mas procuro me familiarizar a cada texto que leio do professor Vitor e tantos outros que temos por ai. A cada texto lido é uma nova experiência pra mim.
    Obrigado por compartilhar.

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  • Obrigada Vitor, por me apresentar Florbela Espanca. – Tudo no mundo é frágil, tudo passa…

    Responder

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