UM CURSO DE INGLÊS E A MEMÓRIA

(…) Nossa linda juventude, página de um livro bom Canta, que te quero gás e calor Claro como o sol raiou, claro como o sol raiou (…)” “Linda Juventude” – Flavio Venturini, Márcio Borges

 

Entro no vagão do metrô, linha azul, na manhã de sábado, e me sento perto de dois jovens – um rapaz e uma moça. Eles têm cerca de 18 anos e conversam animadamente sobre a aula de inglês que acabaram de ter e sobre os exercícios que fizeram etc. O rapaz abre seu livro e mostra à amiga como resolveu determinado exercício de adjetivos; ela, por sua vez, presta atenção ao que o amigo diz e os dois vão assim, falando do curso matinal que frequentam aos sábados. Quando ele fecha o livro, vejo o nome em vermelho – “Fisk” – que me desperta muitas recordações.

Quando eu tinha a idade deles, as mais famosas escolas de inglês eram Yázigi e Fisk – as mais acessíveis para quem não podia pagar muito – e a União Cultural Brasil-Estados Unidos juntamente com a Cultura Inglesa, essas mais caras, para a moçada com mais grana. As outras vieram depois, pelo que me lembro. Lembro também que eu, então um office-boy (o equivalente ao motoboy, sem a moto!) ganhava uma salário bem mirrado e, recém saído do colégio, não possuía muitas perspectivas de estudo, pois fazer cursinho pré-vestibular estava fora de cogitação… como pagar? Tempos difíceis…

Um dia, tomei uma decisão e fui me matricular no Fisk no bairro da Lapa. Eu saía do trabalho às 17h, corria até em casa, num bairro bem longe, tomava banho, jantava e ainda pegava o mesmo ônibus que estava voltando. Assistia à aula das 20h às 21h e voltava, descendo a rua 12 de Outubro com alguns poucos colegas que faziam o mesmo caminho. Esse ritual se repetia às terças e quintas-feiras. Foi no Fisk que aprendi bastante da língua inglesa – embora fosse um tempo em que a tecnologia de hoje não existia, e praticar o

“listening” se resumia a ver filmes em VHS que a professora passava em aula ou tentar “tirar a letra de uma música” que ela punha no toca-fitas. Meu Deus, quantas palavras desconhecidas pra moçada de hoje!

Foi a época em que tive um pequeno aumento de salário, então as mensalidades do curso não pesavam tanto na parte do dinheiro que ficava pra mim depois de ajudar em casa. Foi nessa época também que descobri a extinta Livraria Siciliano com suas revistas importadas e caras pra burro, pois o dólar estava lá em cima – muito mais lá em cima do que está hoje. O leitor mais jovem não faz ideia.

Foi inevitável ouvir a conversa daqueles jovens no metrô. Eles se sentaram ao meu lado e, por mais que eu não quisesse, acabei acompanhando o que falavam de sua aula de inglês. Eles desceram na estação seguinte, e eu prossegui ainda por mais três ou quatro. Olhei pela janela, caía uma garoa fina, dessas que os mais antigos dizem que caracterizava São Paulo, e fui pensando em tanta coisa!

Pensei na atenção que eu prestava à aula, porque, mais tarde, eu queria entender as letras das músicas que faziam sucesso naquela década de 80; eu queria ser capaz de me fazer entender por um estrangeiro; eu queria ver um filme e não depender da legenda para entender a história. Comecei a economizar (ainda mais) pra comprar aquelas revistas americanas e, com o dicionário do lado, eu tentava traduzir as matérias mais interessantes. Quando não conseguia, pedia ajuda à Giu, minha professora lá do Fisk.

Aqueles jovens no metrô me fizeram pensar em tempos de inflação alta, de dois dígitos ao mês, e me fizeram lembrar de uma época em que eu queria muito ir embora daqui para um país melhor – entenda-se, por “país melhor”, os Estados Unidos da América. Mas tudo era apenas sonho – eu mal podia pagar o curso de inglês, como comprar uma passagem de avião ganhando cerca de dois salários mínimos e meio por mês?

Lembrei dos folhetos de músicas traduzidas que a escola fornecia aos alunos. Eram uma delícia, e a gente ia pra casa ouvir nossas bandas prediletas entendendo o que estavam cantando. Muito do meu vocabulário, naquela época, foi adquirido dessa maneira.

Olhei a garoa lá fora e me lembrei de minha mãe que, às terças e quintas-feiras, preparava o jantar mais cedo, pois sabia que eu chegaria, tomaria banho, comeria rapidamente e sairia para pegar o ônibus que me levaria à escola. Lembrei do orgulho que ela sentia quando eu lhe traduzia alguma canção de Frank Sinatra ou Toni Bennett ou quando lhe dizia que o título em português de determinado filme não tinha nada a ver com o original. Lembrei de mim mesmo sentado à mesa da cozinha, estudando os “phrasal verbs” para a prova, enquanto meus pais e irmãos assistiam ao telejornal e à novela.

Mais tarde, dois anos depois, mudei de emprego. Fui trabalhar no jornal O Estado de S. Paulo, onde fiquei durante seis anos, embora eu não fosse nem seja jornalista. Com a mudança, passei a ganhar mais, e a possibilidade de uma faculdade de Letras tornou-se mais próxima. Prestei vestibular no Mackenzie, com a cara e a coragem, depois de cinco anos sem estudar, e passei.

A alegria da aprovação foi bastante grande, apesar de todas as dificuldades que, eu sabia, estavam à minha espera. E não foi fácil. Meu salário agora, ainda que melhor, não me permitia pagar a faculdade e o curso no Fisk. Eu tive de escolher … e escolhi a faculdade, obviamente.

Lembro-me do meu último dia, quando fui me despedir da professora e dos colegas de classe, dizendo que ou eu fazia o curso de inglês ou fazia a faculdade. Todos, claro, entenderam. Acho, porém, que minha professora ficou com o olho cheio d´água ao me abraçar.

Quanto a ela, tenho dúvidas. Quanto a mim, tenho certeza: chorei porque, na cabeça daquele jovem de periferia, a ideia de uma faculdade era grande demais.

Simplesmente grande demais…

ALGUMAS DIFERENCIAÇÕES
O QUE SÃO VERBOS DEFECTIVOS?

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6 Comentários. Deixe novo

  • Avatar
    Angelo Antonio Pavone
    novembro 13, 2019 10:29 pm

    Olá Prof Vitor
    Texto íntimo, sensível e belo
    Vida vivida.
    Parabéns

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  • Rua Doze de Outubro…muitas lembranças!

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  • Muito bom, dispensa comentários

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  • Avatar
    Edilson Cardoso
    novembro 14, 2019 10:18 pm

    Professor, me identifico 100% com o seu texto! No idioma inglês sou autodidata, não domino totalmente, mas não passo apuros. Tive o privilégio em conhecer uma senhora aqui na minha cidade que morou 40 anos nos EUA, fazia aulas ao sábados das 16 às 18 horas. Enfim, a história é longa, mas hoje consigo ler, escrever e principalmente acompanhar as músicas do idioma com alguma facilidade.

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  • Lindas recordações. Das que valem a pena a gente guardar para sempre no coração.

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  • Realmente o leitor mais jovem não tem ideia das dificuldades que passou, porém esse sacrifício valeu muito a pena. Sua bagagem cultural é enorme, meu amigo. Parabéns por mais essa crônica 👋

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