Um advogado e o racismo

Gosto de filmes sobre advogados e tribunais, embora eles me deem uma certa angústia quanto ao veredito sempre deixado, obviamente, para o clímax da narrativa. Quando bem feitas, com grandes atores, grandes embates e ótimos diálogos, as cenas de julgamentos são envolventes e cativantes!

Há poucos dias, revi “O Sol é para todos” (“To kill a mockinbird”), filme de 1962, que valeu o Oscar de melhor ator a Gregory Peck, com direção de Robert Muligan e baseado no livro de Harper Lee. A história se passa em 1932, numa pequena cidade do estado do Alabama, no sul dos Estados Unidos, e só por isso já se sabe que, em termos de segregação racial, vem chumbo grosso. Contada sob a perspectiva de duas crianças – mais da menina do que do menino – o filme leva quase uma hora para efetivamente entrar no tema do preconceito e da perda da inocência. Até então, o que se vê são as aventuras de três crianças na pequena cidade poeirenta na qual, após a crise de 1929, os habitantes são pequenos agricultores e gente muito pobre.

Duas dessas crianças, Jean Louise Finch e Jem Finch, órfãs de mãe, são criadas pelo pai, Atticus Finch, advogado viúvo, íntegro e respeitado na cidadezinha, auxiliado pela empregada negra Calpurnia. Atticus procura ser um exemplo para os filhos, e logo no início fica-se sabendo que ele atende aos mais pobres aceitando o produto de suas plantações como pagamento. A figura séria, porém calma e tranquila de Finch, dará o tom de sua personagem generosa e enérgica ao mesmo tempo.

Tudo vai bem até que um negro(!) é acusado de ter estuprado a filha de um agricultor branco e, se estamos falando do sul dos Estados Unidos, o suposto crime tem um peso dez vezes maior do que em outras regiões do país. Por lá, diferentemente do que ocorre aqui, as diferenças de cor determinam mesmo uma tensão constante, um barril de pólvora sempre pronto a explodir na próxima esquina – tudo é muito declarado e não dissimulado como no Brasil. Lembro-me de uma aluna que foi fazer um intercâmbio no começo dos anos 2000. Ela me contava que foi morar com uma família no Texas e lá chegando recebeu as seguintes recomendações de sua “mãe americana”: “Se você encontrar algum negro na rua, vá para outra calçada; na hora do intervalo das aulas, não se sente com um negro no refeitório!”. A moça ficou chocada com tais palavras e percebeu logo as diferenças de comportamento de americanos e brasileiros quanto ao racismo.

Voltemos, contudo, à história. Tanto o livro quanto o filme abordam muitos temas importantes. No filme, para mim, o ponto principal, aquele que vai definir Atticus Finch, acontece quando ele se senta ao lado da filha e explica algumas coisas que ela não consegue entender com seus seis anos de idade. Voltando brava da escola, a menina diz para o pai que sofreu provocações das outras crianças porque Atticus iria defender um negro no tribunal. Ela quer saber por quê. “Você defende gente preta?” Atticus, sempre muito sereno e tranquilo responde: “Não diga gente preta (…) Estou apenas defendendo um negro, Tom Robinson. Há coisas que você não tem idade para entender. Estão falando pela cidade que eu não deveria defendê-lo..”.

A menina, confusa, indaga: “Se você não deveria defendê-lo, por que faz isso?”. O pai explica: “Por várias razões. A principal delas é que, se não o defendesse, eu não poderia andar de cabeça erguida. E não teria o direito de dizer a você ou ao seu irmão para fazerem ou não fazerem algo”. A cena é emblemática porque sintetiza o caráter da personagem como pai e como advogado. O espectador percebe claramente que um não existe sem o outro: o homem Atticus é formado pelo advogado ético e pelo pai zeloso e, se um deles falhar, o outro falhará também.

O tribunal é tenso, os argumentos de ambos os advogados entram em choque e é praticamente impossível não se envolver com tudo aquilo. Obviamente que não vou contar a história toda Há uma outra cena, porém, que havia mexido muito comigo e mexeu de novo quando revi o filme: ao fim do julgamento, no qual todos os negros tiveram de ficar à parte, meio empoleirados para acompanhar o desenrolar do tribunal, Atticus é um dos últimos a saírem do recinto. Quando começa a caminhar, todos os negros vão se levantando de seus lugares. A certa altura, um pastor, também negro, diz para a filha do advogado, que acompanhou o julgamento: “Levante-se, mocinha. O senhor Atticus está passando”. Linda cena! Atticus havia conquistado o respeito daquela gente humilde porque havia desafiado toda a cidade defendendo seus princípios e a ideia de que “todos são iguais perante a lei”. Afinal, não é a isso que se resume a prática do Direito?

O clima do filme é um tanto triste, e vários elementos contribuem para essa atmosfera. O primeiro deles, a pobreza da cidade, o resultado da quebra de Bolsa em 1929; depois, o fato de as crianças serem órfãs de mãe, elemento que confere à história uma certa melancolia – quem já perdeu a mãe sabe do que estou falando. Fico me perguntando se a autora optou por construir Finch viúvo para realçar-lhe as qualidades como educador solitário e homem dedicado aos filhos, um homem que teria de fazer as vezes de pai e mãe… Vale acrescentar que o filme foi produzido em preto e branco, e me apresso em fazer essa observação porque existem pessoas que absolutamente não gostam disso, enquanto há outras (entre as quais me incluo) que são apaixonadas por esse tipo de fotografia.

O caráter político da obra de Harper Lee é inegável. A autora publica seu livro e trata de assuntos bastante espinhosos em uma época intensamente complicada nos Estados Unidos – as décadas de 50 e 60, marcadas por profundos conflitos raciais.

Gregory Peck, a exemplo de James Stewart, encarnava o bom moço americano, um ator despido de escândalos em sua ficha pessoal e que, portanto, passava credibilidade em papéis com de Atticus Finch. Como diz o velho ditado hollywoodiano, “nem só de roteiro vive um grande filme”. Justiça seja feita: os atores estão muito bem. E é muito prazeroso ver um Robert Duvall ainda mocinho, começo de carreira, desempenhando um papel secundário mas decisivo para o desfecho da trama.

Penso que todo estudante de Direito deveria ver esse filme. Dizem que o que define um clássico é a sua atualidade. Ainda que a narrativa de “O sol é para todos” esteja muito longe no tempo e no espaço, os temas abordados são mais do que atuais: intolerância, racismo, armamento, ética, moral, integridade, miséria, educação dos filhos, perda da inocência, culpa e castigo. Gostaria que houvesse, no Brasil, grandes festivais de filmes clássicos com os quais estudantes de todas as áreas pudessem refletir sobre a profissão que escolheram para seu futuro. Será que eles se interessariam por assistir a essas obras?

Depois que acabei de rever o filme, uma canção não mais saiu de minha cabeça – “Strange Fruit”, de 1939, composta por Abel Meeropol. As “frutas estranhas” de que fala a música eram os negros condenados à morte, linchados, enforcados e deixados à mostra para quem quisesse ver.

Termino este texto com a fala de Maudie, a vizinha do advogado e de suas crianças. Depois do fim do tribunal e do veredito anunciado, ela se senta ao lado de Jem, filho de Atticus, e diz: “Não sei se ajuda, mas quero lhe dizer isto: alguns homens neste mundo nasceram para fazer todo o trabalho desagradável. Seu pai é um deles”.

O trabalho desagradável ao qual ela se refere é não pensar como a maioria. É ter coragem para mostrar o erro daquilo que, muitas vezes, é o senso comum – apesar de todo o absurdo.

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2 Comentários. Deixe novo

  • ANGELO ANTONIO PAVONE
    abril 11, 2019 6:51 pm

    Grande Professor Vítor
    Texto maravilhoso e atualíssimo. Infelizmente o preconceito em relação à cor da pele no Brasil está mais
    vivo que nunca. Independente da cor, somos todos da mesma espécie: Homo sapiens. “Sapiens”?????

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  • Pedro simoes
    abril 18, 2019 3:24 am

    Texto maravilhoso professor !!! Reflexões muito relevantes e profundas !

    Responder

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