Um advogado de acusação, por Machado de Assis

“Para o bom ciumento, meia informação basta”

– ditado popular.

Em 1899, foi publicado um dos livros mais famosos de Machado de Assis: Dom Casmurro. Em seus 148 capítulos, o escritor carioca deu prosseguimento a um estilo que já se iniciara com Memórias Póstumas de Brás Cubas, sete anos antes – a observação inteligente e a crítica mordaz do comportamento humano, bem como a análise irônica da sociedade do século XIX. Acrescente-se a tudo isso a habilidade do Bruxo do Cosme Velho (como é carinhosamente chamado) em sondar a mente de suas personagens, valorizando seu comportamento e investigando seus desejos e aspirações.

Interessante notar que, com o passar dos anos, o tema central desse romance machadiano tenha se perdido de vista, isto é, seus leitores contemporâneos muitas vezes se esquecem de que o tema central da história vem a ser o ciúme e todos os estragos que ele pode causar a um relacionamento. É muito comum ouvirmos pessoas que indagam: “Você acha que Capitu traiu Bentinho?”. Ora, esse é um problema do narrador, não do leitor! Ao leitor, cabe a reflexão sobre “o monstro de olhos verdes que zomba da carne de que se alimenta”, como  Shakespeare definiu o ciúme.

A história é contada em primeira pessoa, e isso fará toda a diferença no romance. Por quê? Porque o leitor terá apenas a visão do narrador, uma visão impregnada por suas emoções, sensações e impressões. Além disso, logo nas primeiras páginas, encontramos esse narrador já velho, solitário, amargurado e “casmurro” com a vida por causa de sua frustração amorosa. E será nesse estado emocional que ele tentará reconstituir a própria trajetória. Machado utiliza o recurso de se dirigir ao leitor, como se estivéssemos mesmo no julgamento da esposa do narrador.

Bentinho é um ex-seminarista e um advogado formado. Seu propósito com o livro é “atar as duas pontas da vida e restaurar na velhice a adolescência”. Confessa que não obtém seu intento e, tomado de extrema amargura, põe-se a escrever suas reminiscências tendo como figura central seu amor de vida inteira: Capitolina, ou Capitu, a filha do vizinho, a menina e mulher “com olhos de cigana oblíqua e dissimulada”.

Machado nos mostra um narrador dotado de nenhum senso prático, ao contrário de sua amada, uma pessoa voluntariosa, inteligente, ambiciosa e até certo ponto atrevida. É nesse contraste que a figura de Escobar – seu amigo de seminário – acaba por se encaixar na obsessão de Bentinho. Tudo o que este pode observar é a identificação da personalidade da esposa com o temperamento do amigo: ambos práticos, sagazes e envolventes. Bentinho é mais retraído; Capitu e Escobar, mais extrovertidos.

O nascimento do filho é o gatilho para suas suspeitas. E o ciúme aflora! O garoto Ezequiel lembra em tudo o amigo do seminário, e essa constatação é terrível para Betinho.  Tomado pela desconfiança, nosso advogado progride em sua narração, reunindo provas de que os dois, segundo sua visão, acabaram por traí-lo, e isso é devastador para sua vida. Corroído pela insegurança e sentindo-se enganado pela única mulher que sempre amou e pelo amigo querido, Bentinho é tomado de um ciúme terrível, um ciúme que destruirá seu casamento. Daí em diante, o que se vê é a tortura digna de um Otelo, personagem shakesperiana citada neste livro de Machado. (No célebre capítulo CXXXV, Bentinho chega a assistir à peça do bardo inglês).

Como Bentinho é um ex-seminarista e um advogado, seus pontos fortes são a retórica e a oratória: esta entendida como a beleza na escolha das palavras, o estilo ; aquela, entendida como a “arte da persuasão”. Nosso narrador é um indivíduo com grande domínio da palavra, bem articulado, manipulador, até certo ponto convincente e extremamente hábil no jogo de se mostrar enganado por aqueles a quem diz ter sido fiel em seu coração.

Não se pode esquecer de uma de suas afirmações mais enigmáticas quando declara que “Capitu era mais mulher do que eu era homem”. Vemos um homem inseguro, dominado pela paixão que nutre pela menina (depois, mulher) e deixando-se dominar pelo fascínio que ela lhe causa. Um velho ditado português diz que “o ciúme sutil é desconfiança da pessoa amada; o ciúme doentio, desconfiança de si mesmo”. Bentinho se sente insuficiente para a própria esposa, e esse é o grande motivo de sua derrocada sentimental. Resta-lhe, agora, no fim da vida, provar que estava certo, que foi vítima da traição da pessoa que tanto amou.

Pelo fato de a narrativa ser conduzida única e exclusivamente por ele, as personagens começam a apresentar comportamentos comprometedores, e essas serão “as provas” que ele reunirá para incriminá-los. A passagem em que Bentinho descobre que a esposa secretamente economizou dez libras esterlinas com a orientação de Escobar ou o outro episódio quando, voltando mais cedo do teatro, encontra o amigo saindo de sua casa, vão dando forma à sua certeza de que foi enganado. Um narrador rancoroso, amargo, frustrado e infeliz tentará a todo custo provar a culpa de Capitu – cujo nome verdadeiro, “Capitolina”, remeterá o leitor ao verbo “capitular”: render-se, entregar-se, não resistir. Capitu rendeu-se à tentação do adultério? Para o marido, sim. Onde está, todavia, a grande prova que convenceria o júri, isto é, nós, os leitores do livro?

Em seu volume O Otelo brasileiro de Machado de Assis, a crítica americana Helen Caldwell faz uma análise interessante de Bentinho, identificando-o com Otelo do autor inglês – o homem que, na peça clássica, é ciumento e violento e mata sua esposa asfixiada; a autora americana, porém, afirma que dentro do próprio Bentinho estaria o invejoso e venenoso Iago, autor das intrigas que destroem o casamento de Otelo com Desdêmona. Bentinho chama-se Bento Santiago: Sant + Iago. Sob esse ponto de vista, em uma só pessoa conviveriam o Bem e o Mal torturando a personagem de Machado. Bentinho seria, então, o causador da própria infelicidade.

Assim, não é de se espantar que o “processo montado para incriminar Capitu” tenha deixado o ciúme do narrador em segundo plano. Como já foi dito, Bentinho é hábil na tentativa de incriminar a esposa perante o leitor. A certa altura, tomado de profundo desespero e ódio (sentimentos irmanados com o ciúme), planeja o assassinato do filho que Capitu teria tido com o suposto amante, o menino Ezequiel, além de arquitetar seu suicídio. Procura a todo custo levar o leitor a condenar os possíveis adúlteros, quer angariar a solidariedade por parte desse “júri”.

Quais são os recursos empregados pelo advogado Bentinho? Antes de tudo, não se pode negar que seu discurso é bastante persuasivo, uma vez que Capitu não tem chance de se defender (e menos ainda Escobar, morto por afogamento) diante do leitor. Depois, seu “ethos” também é um bom cartão de visitas: Bentinho tem uma formação religiosa, conferindo  ao seu texto seriedade e formalidade, além de ser um advogado cônscio de sua habilidade em argumentar e convencer quem o lê. Em seguida, vem seu “pathos”, isto é, a todo momento posiciona-se como vítima da desonestidade da mulher e do amigo, apelando para as emoções do leitor diante dessa vitimização. Bentinho quer a nossa compaixão. Por fim, utiliza-se do “logos” , o raciocínio indutivo, partindo de exemplos bíblicos e explorando o recurso da intertextualidade para  que concordemos com sua opinião. Um exemplo: “Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu cap. IX, vers. I: ‘Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti’”.

Já no fim do livro, Bentinho, sentindo-se derrotado e infeliz, levanta uma questão que nos serve para o dia a dia. Ele se pergunta (nos pergunta): “O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Mata-cavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente (…) Mas eu creio que não, e tu concordarás comigo; se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca”. A dúvida do narrador também pode ser a nossa quando alguém nos decepciona: essa pessoa mudou o modo como se relacionava conosco ou apenas revelou aquilo que não conhecíamos de sua personalidade?

Quanto à paternidade de Ezequiel, é claro que, hoje, tudo seria resolvido com um teste de DNA. O tema central, porém, não envelhece – o ciúme é universal, e todos, em maior ou menor grau, já o experimentaram.

Uma das lições do livro é que são necessárias provas sólidas para uma acusação: um único testemunho é muito pouco. Estudar Machado de Assis pode ser também uma aula de Direito!

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