TRÊS FIGURAS DE LINGUAGEM

Quando estudamos o Romantismo na Literatura Brasileira, ficamos sabendo que o movimento é dividido em três fases, sendo a segunda chamada de “Ultrarromântica” ou “Geração do Mal do Século”.

Os poetas dessa geração, influenciados pelos escritos do poeta inglês George Byron, são conhecidos por versos que trazem como temas a solidão, um profundo pessimismo, a morte como solução para os problemas da vida, além do egocentrismo, da desilusão amorosa, da vida boêmia e da fuga da realidade. Como se fosse um desajustado, o poeta dessa geração precisa “escapar”, ele não suporta o mundo que o rodeia. Essa “fuga” se dará por meio da morte, do sonho, da loucura ou da arte.

O principal nome dessa fase foi Álvares de Azevedo. Alguns de seus versos, tenho certeza, são mais conhecidos pelo leitor do que se possa imaginar. Além da temática da morte, encontramos a realização amorosa como algo inatingível. Seus versos exalam sentimentalismo. Vejamos alguns deles:

 Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! na escuma fria
Pela maré das águas embalada…
— Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando…
Negros olhos as pálpebras abrindo…
Formas nuas no leito resvalando…

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti — as noites eu velei chorando
Por ti — nos sonhos morrerei sorrindo!

        Nota-se claramente um sentimentalismo exagerado, exacerbado, que “escorre” pelos versos do soneto. A mulher é comparada a um anjo, ao mesmo tempo em que desperta um certo erotismo, pois seu seio “palpita” e suas formas nuas resvalam no leito. O eu lírico diz que passou as noites chorando por sua amada e que morrerá sorrindo por ela.

Bem, podemos dizer que Álvares de Azevedo e seus contemporâneos produziram versos bastante “hiperbólicos”, carregando nas tintas do amor, da idealização e do sentimentalismo.

Assim, a hipérbole vem a ser uma figura de estilo (ou de linguagem) que se caracteriza pelo exagero. Quando queremos dar ênfase ao que falamos, lançamos mão desse recurso. Declarações como “estou morrendo de fome”, “rodei a cidade inteira para achar sua casa” ou “tenho um milhão de coisas para fazer hoje” são hipérboles que utilizamos no dia a dia.

Uma pessoa hiperbólica, portanto, vem a ser uma pessoa exagerada.

Muita gente reclama porque “o Hino Nacional, além de ser muito longo, é muito difícil”, isto é, “não se consegue entender direito o que a letra diz”. Ouvi muito isso dos meus alunos e, nas aulas de Gramática, eu os poupava de terem que fazer análise sintática da letra escrita por Joaquim Osório Duque Estrada. Para eles, era mesmo muito complicado.

Podemos pensar nos dois primeiros versos do hino para que tenhamos uma ideia do que acontece na letra de um dos chamados Símbolos Nacionais:

3                                  2                                      1

“Ouviram / do Ipiranga / as margens plácidas /

5                                                                        4

de um povo heroico / o brado retumbante (…)”,

trecho do qual, se seguirmos a numeração, podemos entender: “As margens plácidas (calmas) do Ipiranga ouviram o brado retumbante (grito ecoante) de um povo heroico”. Ficou mais simples?

Um dos problemas para o entendimento do nosso hino vêm a ser exatamente as constantes inversões feitas por Duque Estrada, obviamente para que ele conseguisse adequar a letra ao ritmo, à rima etc. A essas inversões, damos o nome de hipérbatos!

Frequentemente, construímos frases com essa figura de estilo, dependendo do que queremos enfatizar. Se eu digo: “Fui ao cinema ontem”, dou ênfase ao meu ato de “ter ido”; mas, se eu digo “Ontem, fui ao cinema”, realço o advérbio indicador de tempo “ontem”. Mais uma: se eu digo “Ao cinema, fui ontem”, enfatizo o lugar aonde fui, e assim por diante.

O único problema do hipérbato diz respeito à concordância. Quando construímos frases iniciadas pelo verbo, muitas vezes não fazemos a concordância com o sujeito. É comum lermos ou ouvirmos coisas assim, por exemplo: “Existe muito político corrupto e muita gente desinformada no Brasil”. Aqui, o verbo deve ir para o plural, pois o sujeito é composto. Na ordem direta: “Muito político corrupto e muita gente desinformada existem no Brasil”. Atenção, portanto, para as orações assim construídas.

Vamos a mais uma figura?

Lembram-se de quando a mãe mandava que a gente fosse à venda do seu João e comprasse “Cândida”, ou quando o pai fazia a barba com “Gillette”? Pois bem, nesses dois casos, eles estavam usando “a marca no lugar do produto” – “Cândida” no lugar de “água sanitária” e “Gillette” no lugar de “lâmina de barbear”. Se formos dar um nome para esse recurso, diremos que eles estavam usando metonímias!

A metonímia é exatamente isto – uma espécie de substituição que eu faço com uma relação de contiguidade entre os elementos. A “marca no lugar do produto”, porém, não é o único tipo de metonímia existente.

Quando eu digo, por exemplo, que “ontem, li Machado de Assis”, estou citando “o autor no lugar da obra” e isso também é uma metonímia. Outro exemplo: “Ele bebeu uma garrafa inteira” – aqui, estou citando o continente (garrafa) no lugar do conteúdo (vinho, cerveja etc.).

Na passagem bíblica, quando Deus expulsa Adão e Eva do Jardim do Éden, o Criador diz que eles terão que sustentar suas vidas com “o suor de seus rostos”. Nesse caso, temos o efeito (suor) pela causa (trabalho).

Mais um exemplo: se eu digo que “o homem precisa parar com seus atos de destruição” – não é um homem que precisa parar, mas toda a humanidade, todas as pessoas. Assim, temos uma metonímia que se caracteriza pela utilização do “singular no lugar do plural”.

O bacana das figuras de linguagem (elas são muitas, não somente essas três!) é que nós as utilizamos constantemente.

Saber os seus nomes pode ser interessante também.

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