TRANSFORMAÇÕES

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

muda-se o ser, muda-se a confiança;

todo o mundo é composto de mudança,

tomando sempre novas qualidades(…)”

Luís Vaz de Camões, (1524 – 1580), poeta português

Revi, há alguns dias, “Minha bela dama” (“My fair lady”), de George Cukor, ganhador de oito prêmios Oscar em 1964. O filme é baseado na peça “Pigmaleão” do irlandês George Bernard Shaw (Prêmio Nobel de 1925) e conta a história do envolvimento de Eliza Doolittle (Audrey Hepburn), uma florista, com o professor de fonética Henry Higgins (Rex Harrison), no início do século 20.

Ele é tão competente, que é capaz de descobrir muito sobre uma pessoa apenas pelo seu sotaque. Numa noite, vendendo flores, Eliza encontra o professor e fica admirada com a especialidade dele, além de sua classe e elegância. Higgins, contudo, é machista, arrogante, esnobe e um tanto cruel, características que Eliza, até então, desconhece.

A moça, ciente de que precisa mudar de vida, procura-o e pede que ele lhe dê aulas. Ao mesmo tempo, o professor faz uma aposta com um amigo, afirmando que, num prazo de seis meses, pode transformar a vendedora de flores numa dama da sociedade. Sua vaidade é maior do que tudo.

Bem, a peça de 1913 (que eu li na faculdade) e o filme são muito interessantes. Personagens bem construídos, ótimas atuações, bonitas músicas etc. Não foi à toa que ganhou a quantidade de prêmios que ganhou! Há, contudo, muito mais por trás da trama do que a simples aposta do professor.

Ao se deixar “educar” por Higgins, Eliza está embarcando numa jornada sem volta – passará por uma transformação profunda, vivendo em um mundo radicalmente diferente do seu, cheio de pompa, formalidades e costumes que lhe são estranhos e até ridículos. Como já escrevi, Higgins é hostil, cruel e arrogante. Não perde a chance de menosprezar e humilhar sua aluna, dando uma “lição” de como não se deve tratar alguém que se julgue inferior a nós – seja material ou intelectualmente falando.

A aventura de Eliza é espinhosa e faz lembrar a Jornada do Herói de que fala o mitólogo Joseph Campell. (Vale a pena conhecer essa teoria.) A moça passa por uma transformação tão intensa que, em certo ponto da história, tem de enfrentar uma situação muito familiar a muitas pessoas. Já educada, elegante, bem vestida, falando o chamado “inglês correto”, sendo aceita nos bailes e festas da alta sociedade, ela sente que esse não é o seu mundo, jamais o foi, não consegue ser feliz nele.

Por outro lado, desajustada, também sente que já não é mais um florista, não é mais a menina simples que vendia flores para ganhar alguns trocados. Se não faz parte do mundo no qual acabou de ingressar, também é uma estranha no mundo do qual acabou de sair.

Quantos de nós já passaram por isso! Costumo dizer que a escola vem a ser esse batismo de fogo, principalmente se o aluno/a vem de uma família humilde, na qual não houve oportunidade de instrução e de progresso nos estudos. Falo do “primeiro que se formou”, do “primeiro filho ou primeira filha, do primeiro neto ou primeira neta que fez uma faculdade”.

Há, sim, uma crise de identidade, apesar da alegria por ter alcançado a tão desejada profissão. Em minha tese de doutoramento, abordei, entre outras coisas, a situação do aluno de Medicina que, depois de muitas aulas na faculdade, chega à sua casa e encontra a avó receitando um chá para dor de barriga. Como não sentir o estranhamento diante de uma situação que lhe era tão familiar e corriqueira? Como convencer a avó de que o remédio comprado na farmácia, resultado de anos de pesquisa, é melhor que o chá de erva-doce colhida no fundo do quintal?

A crise de identidade de Eliza é mais real do que possamos imaginar. Ela tem a ver com valores, hábitos adquiridos, respeito pelo outro e tolerância pelo diferente.

Há momentos em que sentimos muita raiva do professor Higgins, exatamente por sua falta de tato e respeito para com a aluna humilde e carente de tanta coisa – não só de dinheiro. Ele não perde a oportunidade de deixar bem claro que está fazendo o que está fazendo apenas para ganhar uma aposta, nada mais! Eliza não lhe é importante, Eliza não lhe diz respeito, ainda que seja sua aluna e viva sob o teto do professor.

Há um momento específico, porém, em que nos sentimos vingados. Isso ocorre quando Eliza canta “Without you” para Higgins. Na letra, ouvimos versos como:

“Que tola eu fui!

Que tola dominada eu fui

Em pensar que você fosse a Terra e o Céu!

Você não é o começo e o fim.

Haverá primavera em todos os anos sem você.

A Inglaterra ainda estará aqui sem você.

Haverá frutas nas árvores

E uma praia à beira-mar.

Haverá pães e chá sem você.

A arte e a música vão florescer sem você (…)”

 

Bravo, Eliza! Os arrogantes precisam descer dos pedestais que eles mesmos construíram.

Não vou contar o fim da história, claro. Espero que o leitor se interesse por ler a peça ou por ver o filme. Nem todos gostam de musicais, mas é uma obra bonita e significativa.

No Brasil, a Rede Globo já adaptou a peça para duas telenovelas: em 1970, “Pigmaleão 70”, na qual houve uma inversão de personagens: ele é um feirante que ela, milionária, transforma em figura da sociedade; e, mais recentemente, em 2015/2016, “Totalmente Demais”. Nesta, Eliza é uma moça pobre que mora nas ruas e será transformada numa modelo, a “Garota totalmente demais”.

Tenho a tese de que o personagem Jonathan Higgins (John Hillerman), o guardião da mansão de Robin Masters no seriado “Magnum” (1980/1988), também tenha sido inspirado no professor da peça de Bernard Shaw. Na série passada no Havaí, Higgins é britânico, formal, e não perde a chance de criticar e espinafrar os hábitos “grosseiros e americanos” de Magnum (Tom Selleck). Os momentos mais engraçados são os embates entre os dois.

Como se vê, um clássico sempre sobrevive ao tempo.

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6 Comentários. Deixe novo

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    VERONICA M V ROCHA
    dezembro 5, 2020 11:14 am

    Uauuuu! Como sempre uma aula maravilhosa!

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    Angelo Antonio Pavone
    dezembro 5, 2020 1:51 pm

    Olá Prof Vitor
    Grande texto. Belos momentos de reflexão sobre gratidão, humildade e esperança. É emblemático o fato do primeiro filho a se formar em detrimento dos demais que jamais terão essa opção.
    Parabéns
    Grande abraço

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    Suzy Aparecida Colli
    dezembro 5, 2020 1:57 pm

    Concordo. Mas também acredito que há os que conseguem viver nos dois mundos…a sabedoria do que é simples, mágico, preenche o corpo e a alma. Todavia, é necessário ter aflorado os sentidos para transmutar.
    Pelo menos eu penso assim…

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  • Amei, como sempre, seus detalhes me encantam, e nada se cria tudo se copia, inclusive os clássicos, perfeito, obrigada.

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    Bernadete Freitas
    dezembro 6, 2020 5:58 pm

    Que texto lindo. Quero muito rever o filme!

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    Baltasar Pereira
    dezembro 10, 2020 12:43 am

    Muito,mas muito interessante esta Crônica. Bebi nas palavras escritas e fiquei lembrando de cenas do filme que na realidade nunca assisti inteiro e sim curtas cenas.
    Trata-se de um Estudo ,embora rápido, sobre o Ser Humano e as mudanças que quando ocorrem dentro de cada um de nós, nunca mais seremos os mesmos.
    A Vida ,justamente,é interessante por isto ,pelas mudanças nem sempre boas e nem sempre ruins e como as enfrentamos.

    Responder

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