SOBRE VERBOS E PREPOSIÇÕES

Aqueles que estudam o inglês sabem das dificuldades enfrentadas quando dão de cara com os chamados “phrasal verbs”. “Phrasal verbs” são “combinações idiomáticas de um verbo e um advérbio ou um verbo e uma preposição ou até mesmo um verbo com o advérbio e a preposição juntos”, segundo Rosemary Courtney, em seu “Longman Dictionary of Phrasal Verbs”.  Dessas combinações, nascem novos significados, o que passa a ser uma dificuldade para quem se presta a estudar a língua de Shakespeare.

Vamos a alguns exemplos, Peguemos o verbo “to look” – “to look at” significa “olhar para”, enquanto “to look after” significa “cuidar de “; já “to look like” significa “parecer-se com” e “to look forward to” pode ser traduzido por “aguardar ansiosamente”, além de “to look for”, “procurar”, entre outras combinações. Esse é um processo que acontece com muitos, muitos verbos em inglês – e também com vários em português!

Raramente, as pessoas percebem o mesmo processo em nossa língua. E é muito interessante estudar alguns verbos e notar que a utilização ou não da preposição fará total diferença no significado deles.

Peguemos o verbo “atentar”, por exemplo. Quando falo que “O aluno atentou para a explicação do professor”, estou dizendo que esse aluno “prestou atenção” ao que o mestre explicou; ao dizer, porém, “Os rebeldes atentaram contra a embaixada americana em Paris”, quero dizer que houve um atentado, um ato ofensivo – é o mesmo verbo, mas com acepções bem diferentes por causa das preposições utilizadas: “para” e “contra”.

Outro verbo muito matreiro é o verbo “assistir”. Esse cai em tudo o que é concurso público e em tudo o que é vestibular por causa da utilização ou não da preposição. Vamos lá! Ao dizer “O médico assistiu o paciente” (sem preposição), eu afirmo que “o médico ajudou, auxiliou, socorreu o paciente”; ao dizer, contudo, “Ela assistiu ao filme chorando”, a presença da simples preposição “a” muda o significado do verbo e, agora, afirmo que “Ela viu o filme chorando” – sempre lembrando que, ao menos na escrita, o verbo “assistir” deve vir obrigatoriamente acompanhado da preposição quando se quer dar a ideia de “observação” e “olhar atento”.

E a coisa não para aí! Em um outro caso do mesmo verbo , podemos ter ainda uma outra acepção: “morar”, “residir”. “A testemunha trabalha e assiste em São Paulo desde 1984″, embora seja uso não muito frequente no dia a dia. Mais uma? “Aos políticos, não lhes assiste o direito de roubar o eleitor”, isto é, “os políticos não têm o direito de enriquecer às nossas custas”.

Falemos agora do verbo “aspirar”. Esse é outro que mudará de acordo com a preposição ou ausência dela. “Pedro aspira a uma vaga no ITA”, quer dizer, “Pedro deseja uma vaga no ITA”; na construção “Aspiramos o ar poluído de São Paulo”, todavia, o mesmo verbo deve ser entendido como “sorver”, “inalar” – por causa da ausência da preposição.

Ao utilizar o verbo “lembrar”, tenho duas opções: “Lembrei-me do nome dela” (quem se lembra se lembra de) ou “Lembrei o nome dela” (quem lembra lembra alguma coisa) – mas aqui não há qualquer mudança de sentido.

As gramáticas mais tradicionais fazem uma diferenciação entre a expressão “ir a” e “ir para”. Segundo seus autores, “ir a” significa “deslocamento e retorno”: “Irei aos Estados Unidos nas férias” (irei e retornarei ao Brasil); por sua vez, “ir para” significa “deslocamento e permanência”: “Irei para a Europa” (não volto mais, vou ficar por lá mesmo).

O verbo “implicar” é outro que merece um pouco de nossa atenção. Sem preposição, “implicar” significa “acarretar”, “provocar”: “O corte de verba implicou o cancelamento da reforma na escola”. Se eu quiser afirmar que uma pessoa não simpatiza ou tem implicância com outra, usarei o mesmo verbo e a preposição “com”: ” A professora implicava com o aluno desleixado”.

Vejamos o verbo “visar”. Esse é outro que sofrerá mudança, dependendo da presença ou ausência de preposição. “O sócio visou todas as páginas do contrato” (pôs um visto). Em “A mãe visava a um futuro melhor para seus filhos pequenos”, o verbo tem a acepção de “desejar”, “querer”, “pretender”.

A lista é longa, e não quero me estender demais. Vale, contudo, lembrar alguns verbos que, no dia a dia, “ganharam” preposições as quais, na verdade, não devem ser reproduzidas na escrita, numa situação mais formal. Vamos ver alguns…

O verbo “namorar” não pede a preposição “com”. “Minha irmã namora meu melhor amigo”.

O verbo “esperar”, por sua vez, não exige a preposição “por”: “Esperei você durante duas horas”.

O verbo “chegar” pede a preposição “a” na linguagem escrita, embora o uso mais frequente seja com a preposição “em”: “Chegamos a Londres debaixo de neve”.

Por fim, há uma diferença entre “Ele se sentou na mesa” e “Ele se sentou à mesa”: na primeira, o sujeito está “sobre a mesa”; na segunda oração, o sujeito está “civilizadamente pronto para sua refeição”. Diferença sutil e significativa!

Evitei falar em “Regência Verbal” e “Transitividade dos Verbos”  – termos utilizados em sala de aula e que, aqui, não teriam grande utilidade.

Quero encerrar com os versos iniciais de “Rua Ramalhete”, uma das mais bonitas canções de Tavito (Luís Otávio de Melo Carvalho), lançada em 1979. Notem como o compositor mineiro trabalhou com habilidade o verbo “lembrar” ao invocar, com saudade e lirismo, os fatos de sua infância:

Sem querer fui me lembrar
De uma rua e seus ramalhetes,
O amor anotado em bilhetes,
Daquelas tardes

No muro do Sacré-Coeur,
De uniforme e olhar de rapina,
Nossos bailes no Clube da Esquina,
Quanta saudade! (…)”

 

Outros tempos da Música Popular Brasileira… quanta saudade!

 

Bibliografia:

BORBA, Francisco da Silva (coord.). Dicionário Gramatical de Verbos, São Paulo, Editora Unesp, 1997.

COURTNEY, Rosemary. Longman Dictionary of Phrasal Verbs, London, Longman Group UK Limited, 1990, p. 4.

 

 

DAS RELAÇÕES HUMANAS – I
SÍMBOLOS E HINOS

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