SÉRIES

Para muitas pessoas, o tradicional formato de nossas telenovelas já está ultrapassado. Muita gente não tem mais paciência de acompanhar uma trama – muitas vezes fraca – durante seis, sete meses. Isso talvez explique um pouco da febre que as séries por “streaming” acabaram virando. Não vou abordar aqui a qualidade desta ou daquela produção, nem quero polemizar sobre se as melhores séries vêm da Europa, dos Estados Unidos ou de outra parte do mundo. O fato é que tenho muitos conhecidos que adoram se sentar em seus sofás (ou camas) para assistirem a cinco, seis episódios seguidos de seus seriados favoritos.

E há para todos os gostos – séries de ficção científica, de terror, de suspense, de ação; séries românticas, dramáticas, policiais… além de excelentes documentários que também podem ser vistos nos canais por assinatura ou em outras opções como Netflix, Amazon, Disney etc.

Por causa de minha profissão, interesso-me bastante por filmes, documentários e séries sobre escolas, professores, alunos e educação em geral. São muitos os bons filmes que já foram feitos sobre o tema – se formos lá pra trás, “Sementes da violência”, com Glenn Ford, de 1955; “Morangos Silvestres”, com Victor Sjostrom, de 1957; “Ao mestre com carinho”, com Sidney Poitier, de 1966; “Sociedade dos Poetas Mortos”, com Robin Williams, de 1989, para citar alguns mais famosos.

Bem, tenho acompanhado duas séries sobre professores e seu dia a dia nas respectivas escolas em que trabalham, seus relacionamentos com os alunos e com a direção, além de seus problemas pessoais, claro, pois há uma vida fora da sala de aula!

Uma dessas séries vem a ser a divertida “Merlí”, uma produção catalã sobre um professor de Filosofia, divorciado, pai de um rapaz homossexual (um tanto mal resolvido) e que,

despejado do apartamento em que morava, é abrigado pela mãe, uma atriz veterana e uma personagem deliciosa. Ele é um anti-herói, isto é, tem virtudes e defeitos como todos nós… na verdade, acho que seu egoísmo, sua falta de ética em alguns casos e sua sintonia com os jovens alunos dão o tempero certo à série. Estou acompanhando por indicação de amigos, e agradeço a eles pela dica. São três temporadas, todas na Netflix. Os atores são ótimos, sem exceção.

A outra série que comecei a ver é “Segunda Chamada”, produzida pela Rede Globo e que vai ao ar às terças-feiras, depois da novela(!). Como tenho o recurso da gravação, não perco tempo esperando o capítulo novelesco terminar, pois a Globo é famosa também por desrespeitar o telespectador no que diz respeito ao horário. Eles anunciam um programa para tal hora… e a atração só entra no ar 20, 25 minutos depois. Um absurdo. Por isso, gravo e vejo no dia seguinte.

Bem, independentemente disso, “Segunda Chamada” vale a pena ser vista. Os atores, aqui também, estão dando um show de interpretação. O destaque vai para a professora de Português, Lúcia, interpretada brilhantemente por Débora Bloch – mas eu seria injusto se não elogiasse todo o elenco. A diferença para a outra série é que a trama se passa numa escola pública da periferia de São Paulo, e os problemas, todos sabemos, não são leves, nem poucos.

Escrevo este texto não para comparar as duas séries – mesmo porque os problemas abordados por uma não têm ligação com os problemas da outra. Embora se trate de duas escolas públicas, são séries muito diferentes. O que eu gostaria de destacar aqui não é o conteúdo das duas produções, mas o “pano de fundo”.

Ambas se passam, como já escrevi, em escolas públicas. Ambas tratam do dia a dia de professore e alunos, além de outros funcionários etc. Isso à parte, chama a atenção a diferença entre as escolas no quesito estrutura.

Não é novidade para ninguém a condição precária em que se encontra a maioria de nossas escolas – paredes

pichadas; lousas caindo aos pedaços; janelas com vidros quebrados ou, principalmente, sem vidros; banheiros sem descarga e sem água em suas torneiras; telhados com goteiras, pátios em que falta iluminação adequada para os alunos do período noturno; cadeiras quebradas etc. Lembro muito bem de meus dias nas escolas estaduais em que fiz meu ensino fundamental e meu ensino médio. Todos esses problemas já existiam nos anos 70 e começo dos anos 80, mas parece que se agravaram de duas ou três décadas para cá.

Não vou falar do salário de professores. Nem preciso.

É que, assistindo à série catalã, a gente vê uma escola pública tão bem estruturada, que ficamos tristes quando lembramos do Brasil. Não tenho elementos para afirmar que todas as escolas públicas na Catalunha sejam como a da série – mas a gente fica um tanto deprimido quando compara os espaços das duas produções.

A escola de “Segunda Chamada” padece de todos os males que conhecemos há muito tempo. O drama vivido pelos professores e alunos é tema de matérias jornalísticas diariamente. Não é uma série que o grande público goste de ver, sobretudo porque fala de seu quotidiano, e muita gente procura a TV para tentar esquecer a realidade que está bem ali, na calçada de sua casa.

Vamos ver como se desenrolará a trama da Globo. Espero que não exagerem no drama, tornando a série pesada demais e afastando a audiência, obrigando, assim, a emissora a cancelar sua produção. Quanto a Merlí, vou continuar acompanhando suas aventuras e conquistas – ele é um sedutor de marca maior – nas duas temporadas que me faltam ver.

Se, para assistir à série catalã, o telespectador precisa de tempo e lugar para relaxar e embarcar numa história saborosa, para ver a série brasileira ele precisa de um pouco mais do que isso – precisa de estômago pra saber como anda a educação pública neste triste país…

Deus nos ajude!

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6 Comentários. Deixe novo

  • Vou assistir Merli. Mas não tenho mais estrutura para assistir à série brasileira, apesar de saber que é muito boa. A realidade já está barra pesada demais!

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  • Avatar
    Angelo Antonio Pavone
    novembro 27, 2019 7:00 pm

    Olá Prof Vitor
    Muito bom texto
    Um desabafo em relação ao sistema educacional brasileiro e com justíssima razão.
    E ao mesmo tempo um lembrete de que há bom entretenimento ao nosso alcance na TV.
    Parabéns
    Grande abraço

    Responder
  • Avatar
    Edilson Cardoso
    novembro 27, 2019 9:20 pm

    Há muito tempo não assisto canal aberto, raramente vejo! Já os noticiários acompanho pela internet. Devido aos custos abusivos das operadoras, cancelei nossa assinatura e hoje tenho Netflix pois acompanho séries e filmes, gosto muito. Por indicação do professor Vitor, estou me deliciando com a série Merlí , concordo em gênero, número e grau com sua colocação, e olha que não sou professor, nem precisa. Essa série além de mostrar as vertentes professor x aluno e vice versa, mostra o outro lado, a realidade da vida de cada um, há também aquela coisa psicológica que adoro. Irei pesquisar se há disponível a série da Globo para download. Já a educação pública em nosso país…….

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  • Excelente, meu amigo! Também tenho dúvidas quanto ao gosto por essas séries sobre educação, mas a vida de professor é muito complicada, principalmente em escolas públicas. Tivemos uma mistura de sorte com capacidade, porém passamos um bocado na rede particular de ensino. Não sou muito otimista com o futuro da educação no Brasil, todavia o seu texto é mais uma pérola. Parabéns, Vitão

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  • Maravilhoso seu comentário sobre a série Merli. Agradeço por me atualizar e fazer a comparação com a série da Globo. Infelizmente a nossa realidade é bem outra,
    a rede Globo tem o prazer de pegar pesado. Espero que até o final da série, não ocorra nenhum atentado provocado por algum aluno revoltado.

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  • Bem descrita as diferenças entre histórias e realidades, adorei

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