RESPOSTAS DISSERTATIVAS

“No Brasil, a gente pode escrever coisas bem audaciosas: isso não vem tanto da índole liberal do povo, quanto do fato de quase ninguém ler.” – Adelino Magalhães, escritor (1887-1969).

Ano Novo e, com ele, as segundas fases de alguns dos mais importantes vestibulares do país – Fuvest e Unicamp. Essas provas, como se sabe, são aquelas em que os candidatos terão que redigir suas respostas, isto é, as questões de múltipla escolha ficaram pra trás, lá nos exames de novembro.

Leio no Estadão uma matéria com o título “Apenas 4 em 10 entram na USP na 1ª tentativa – entre os aprovados no ano passado, na Fuvest, 31,5% já haviam feito a prova uma vez, e 28,7% tinham tentado mais de duas vezes”. Bem, consideradas a concorrência para algumas carreiras – a tradicional disputa por Medicina e Direito, por exemplo – e o nervosismo que toma conta da moçada, posso acrescentar aí a dificuldade que muitos vestibulandos enfrentam na hora de redigirem as respostas para as questões apresentadas. Isso, sem falar da Redação, um monstro de sete cabeças para muita gente!

Ao longo dos anos, tenho encontrado muitos e muitos jovens com grande dificuldade para redigirem respostas com os quatro “Cs” que se esperam nesse tipo de prova: respostas concisas, claras, coesas e coerentes. O tempo é exíguo, o aluno precisa ser um tanto rápido na passagem de uma questão para a outra, ao mesmo tempo em que não deve, lógico, deixar que a pressa interfira na qualidade da resposta. Assim, ele tem de buscar a concisão e a clareza em poucas linhas, precisa ser direto e objetivo, procurando mostrar ao examinador que entendeu a pergunta e que sabe a resposta.

O problema é que, muitas vezes, essa dificuldade se estende para sua vida acadêmica. Mesmo sendo aprovado em um exame exigente e concorrido como os citados acima, encontramos muitos jovens que, na graduação, demonstram uma dificuldade enorme na redação de resumos, resenhas ou qualquer outro tipo de avaliação mais complexa que o professor solicite.

Tenho um grande amigo, já professor de Português formado, que hoje faz Direito em uma faculdade particular em São Paulo. Seus professores e colegas não sabem de sua formação prévia, ele prefere manter sua “identidade secreta” em sigilo, e nós nos divertimos muito com isso. Os casos que esse amigo me conta de sala de aula são tristes e preocupantes: jovens que absolutamente não conseguem redigir uma resposta de mais de duas linhas na prova. Moças e rapazes que não conseguem se expressar por meio da escrita, muito porque, nas redes sociais, ou redigem mal o que querem exprimir, ou redigem coisas incompreensíveis para o leitor – e acabam procedendo da mesma forma nas provas e relatórios para a faculdade.

Isso, porém, não acontece somente nas faculdades particulares, não. Um outro amigo meu, professor de uma federal, conta que as provas dissertativas dos alunos do primeiro ano de Direito são terríveis nos quesitos clareza e coerência.

Pergunto a ele como esses moços vão se sair no exame da OAB e, depois, se aprovados, como conseguirão um bom desempenho na carreira de advogados. Ele levanta os ombros e me faz aquela cara de “não tenho a mínima ideia, meu caro!”.

Rodamos, rodamos e acabamos caindo no mesmo lugar: a importância do hábito da leitura para que se possa escrever bem. Repito aqui o conhecido aforismo de Monteiro Lobato: “Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê” – e mal escreve também!

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5 Comentários. Deixe novo

  • Angelo Antonio Pavone
    janeiro 8, 2020 9:13 pm

    Olá Prof Vitor
    Belo texto. Claro e oportuno. Nunca é demais lembrar aos jovens e a todos de modo geral a necessidade da leitura.

    Responder
  • Triste nossa realidade.. 😏
    Muito bom o texto.
    O que esperar dessas crianças cada vez mais
    tecnológicas??? Falta equilíbrio.

    Responder
  • Sempre interessante seus temas. Lamentável que a juventude esteja tomando esse rumo.

    Responder
  • Suzy Aparecida Colli
    janeiro 8, 2020 9:39 pm

    Querido professor e amigo.
    É por estas e outras que LUTO com a alfabetização das criancas que passam por minhas mãos. E muitas vezes me frustro por ver que alguns não vão ” vingar “…

    Responder
  • Esse texto reflete a sua grande experiência em orientar essa juventude desinteressada. Descobri que amigo foi citado 😜. Parabéns mais uma vez, Vitão. Abraço

    Responder

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