REFORMAS ORTOGRÁFICAS

Passamos, há alguns anos, por (mais) uma reforma ortográfica do português – dessa vez, segundo seus defensores, para “uniformizar a escrita entre os países lusófonos”, isto é, falantes da língua portuguesa. E isso traz mais dor de cabeça do que facilidade para a vida de quem escreve e vive do idioma.

Em sala de aula, lá vão as professoras e os professores com a missão de fazer seus alunos aprenderem as novas regras, acrescentando acento a palavras que não o tinham e suprimindo o sinal gráfico de palavras que, eternamente, haviam sido acentuadas. Se a coisa já era difícil em um país onde se escreve tão mal (é só observar as redes sociais!), imaginem até as mudanças serem assimiladas e compreendidas e memorizadas pelas pessoas…

Entrei na escola em 1971, com sete anos de idade, e um reforma havia sido feita. Não raramente, víamos livros “antigos” que traziam palavras assim grafadas: “dôce”, “êste”, “govêrno”, “côr”, “sensìvelmente” etc. Para a garotada que estava aprendendo, era confuso, pois a professora ensinava de um jeito e a gente via a palavra escrita de outro nos livros da biblioteca da escola. Isso, sem falar nos adultos da família que, alfabetizados muito antes, também ficavam com muitas dúvidas na hora de escreverem uma carta, um documento ou coisa parecida.

Estamos falando de tempos pré-internet, pré-Google, pré-tudo o que facilita nossas vidas hoje – e que as pessoas não acessam de modo útil… mas essa é uma outra história. Meu avô trabalhava com placas, era letrista, e preocupava-se tremendamente em escrever tudo “certo”, de acordo com a reforma. E ele havia passado por mais de uma em sua vida: nascido em 1917, foi alfabetizado escrevendo “pharmacia”, “caza”, “portugueza” entre outros.

Por sua vez, meu pai, nascido em 1935, contava que havia aprendido a escrever “porisso”, “vegetaes” e “animaes”, além de “mez” e “bibliotheca”. O caso mais curioso era a ênclise: por exemplo, em “deixá-lo”, a letra “l” separava-se do pronome, ficando como verbo: “deixal-o”. Outros tempos!

A minha geração aprendeu a escrever “idéia”, “paranóia”, “freqüente”, “lingüiça”, “feiúra”, “heróico”, “lêem”, “vêem”, “vôo” e outras tantas cujas grafias foram modificadas. Na sala de aula, eu tinha que tomar muito cuidado para não dar um mau exemplo ao escrever a palavra na forma “antiga”. Muita, muita confusão por parte dos alunos. (É certo que houve um chamado “período de tolerância” para que os estudantes pudessem se familiarizar com as novas regras, e assim os vestibulares foram exigindo o emprego delas aos poucos, com o passar dos anos – mas a moçada se sentia insegura.)

A coisa piora quando a gente lembra dos hifens. Aí, é um desespero mesmo! Tal palavra tem hífen? O hífen de tal palavra caiu? Como esta palavra ficou depois das novas regras – com hífen ou sem hífen? Agora, escrevemos palavras como “contrarreforma”, “antissocial”, “suprarrenal”, “microrregião”, “antessala” entre outras…

Não sou favorável a essas mudanças. Acho que elas mais confundem do que uniformizam, trazendo dificuldades principalmente para as pessoas que estão longe da escola há muito tempo – o que, convenhamos, é muita gente. Claro que a leitura seria um remédio importante para a assimilação da “nova ortografia”, mas sejamos honestos e realistas: as pessoas pouco leem e, consequentemente, têm pouco contato com a palavra escrita em bons textos.

Vamos nos lembrar de que a principal diferença entre um país e outro – Brasil e Portugal, por exemplo – não é a escrita, mas a semântica. Por exemplo, uma “rapariga”, lá, continuará a ser uma “moça”, “uma jovem”, o feminino de “rapaz” para eles; enquanto isso, o mesmo termo, aqui no nordeste brasileiro, ainda será utilizado para designar uma “prostituta”. E não há regra que apague essa diferenciação.

Já li em muitos lugares que as novelas brasileiras estariam levando a Portugal o nosso modo de falar e de empregar as palavras, mas não creio que isso seja muito efetivo. A TV certamente tem um poder muito grande de disseminar coloquialismos, gírias e neologismos, mas não sei se chegaria ao ponto de transformar tanto uma língua de um país estrangeiro.

Fazem parte do folclore as diferenças entre o português de Portugal e o do Brasil. Isso não é novidade. São muitas as piadas, brincadeiras, pilhérias e chistes – como diriam nossos amigos lusitanos – sobre essas diferenças. Para ilustrar o que digo, cito uma brincadeira que recebi de um amigo, via Whatsapp. A ilustração dizia: “Bicha para tomar pica contra a Corona pode ser grande em Lisboa. Putos não terão prioridade”.

Obviamente, o humor é causado justamente pelo significado diferente que alguns vocábulos possuem lá, do outro lado do Atlântico. Se fôssemos “traduzir” para o “brasileiro”, teríamos: “Fila para tomar a vacina contra a Covid-19 pode ser grande em Lisboa. Crianças não terão prioridade”.

Logicamente, eles também devem ter suas piadas com o nosso modo de escolher as palavras e com o significado delas por aqui. Tudo isso, fora a pronúncia…

Não há reforma ortográfica que impeça o riso lá e cá.

Ainda bem!

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