Quando foi que perdemos a capacidade do diálogo?

“Há criaturas que chegam aos 50 anos

sem nunca  passarem dos 15.”

Machado de Assis (1839 – 1908)

Leio, sem muita surpresa, a manchete “Polarização política no Brasil supera média de 27 países”, do jornal O Estado de S. Paulo. A matéria ainda informa que “para 32% dos brasileiros, não vale a pena tentar conversar com pessoas que tenham visões politicamente diferentes das suas”, depois que a pesquisa ouviu 19,7 mil pessoas. O que vem acontecendo?

Certamente, para o leitor, esses dados também não devem causar muita estranheza. No ano passado, tivemos as eleições para presidente da República e uma rivalidade desmedida tomou conta dos eleitores daquele e deste candidato, fazendo com que situações absurdas se tornassem quotidianas entre amigos, familiares, subordinantes e subordinados, velhos e jovens, velhos e velhos, jovens e jovens etc. A palavra de ordem parece ter sido “intolerância” e, com ela, a rispidez, a ofensa, a grosseria, o ódio e, por fim, o afastamento. O afastamento por causa da falta de diálogo!

Não foram raros os casos de conflitos nas redes sociais (as benditas redes sociais!) em que as pessoas não mediram esforços para firmarem suas opiniões aos mesmo tempo em que tudo faziam para solapar a posição alheia, aquela opinião que o outro “ousa expressar” e que, claro, “é abominável”. Parece que nossa capacidade de ouvir (ler) o que o outro fala (escreve) perdeu totalmente sua importância. Em um outro texto, comentei o problema enfrentado por muitos professores em sala de aula, cujo direito de explicar uma matéria tem sido rejeitado por alunos de pensamentos mais radicais e não dispostos a refletir sobre o que está sendo exposto. E professores da área das Ciências Humanas têm enfrentado isso diariamente. (Não apenas eles, contudo: tenho um amigo, professor de Biologia, que encontrou resistência por parte de alguns alunos quando o tema da aula foi “Darwinismo e Seleção Natural”: eles queriam um aula sobre “Criacionismo”… “Criacionismo” para o vestibular? Com assim? )

Lembro-me das vezes em que promovi debates de alguns temas de redação com meus alunos de cursinho. Naquela época, salas enormes, cerca de 200 alunos por classe (quando não matavam aula) e muitas pessoas com pensamentos diferentes sobre determinado assunto. Na

maioria das vezes, as aulas eram muito prazerosas, pois ver a moçada expressando seus sentimentos e reflexões era muito interessante. Claro que, com um público tão numeroso, ouvia-se de tudo: desde alunos muito bem preparados para uma debate até jovens sem qualquer embasamento para determinadas discussões.

No fim do ano de 2003, uma conceituada universidade aqui de São Paulo propôs, em seu vestibular, que os candidatos escrevessem sobre “casamento homossexual”. No ano seguinte, aqueles que não haviam conseguido a aprovação me procuraram para que eu explicasse o tema e mais: que eu promovesse debates em sala de aula etc. Fui à direção e consegui permissão para abordar um tema tão espinhoso numa sociedade religiosa e latina como a nossa. Permissão concedida, lá fui eu às 30 e tantas salas ouvir e falar um pouco sobre o tema.

Bem, para minha satisfação, vários alunos souberam expressar bem o que pensavam – com respeito às diferenças e ao comportamento das pessoas no mundo atual -, e eu sabia que, deles, viriam bons textos… como vieram! Outros alunos, porém, demonstraram uma resistência e um desconforto muito grandes diante de tal assunto, chegando até à agressividade na exposição de suas ideias. Lembro de uma aluna que disse, diante de todos, microfone em punho: “Professor, desculpe, mas acho que homossexual deveria nascer morto! Não acrescentam nada e ainda envergonham a família. Se eu tiver um filho veado (sic), mando para fora de casa!”. A classe, logicamente, veio abaixo. Vários alunos se revoltaram diante de tal postura. De uma hora para outra, eu estava intermediando não um debate, mas um combate!

Sempre me lembro disso quando se fala de intolerância e imaturidade. Em Semiótica, definimos a imaturidade como uma combinação de “criatividade” com “inexperiência”: os jovens são criativos, “pilhados” (como se diz na gíria), ligados o tempo todo no 220. Faltam-lhes, todavia, mais vivência, mais tempo, mais situações nas quais precisarão fazer concessões, precisarão ouvir o outro para que processem as informações e cheguem às suas conclusões – que poderão ser diferentes do que eles pensavam anteriormente. Na faculdade, minha professora de Linguística – professora Zélia Borges – dizia que “até os postes mudam de cara” (referindo-se aos anúncios que neles são colados), então “é natural que possamos mudar de opinião”. Ótima comparação da professora!

Quando o assunto é política, a coisa fica anda mais complicada. Ainda segundo a matéria do Estadão, uma publicitária de 42 anos não vê a mãe há cerca de um ano, “resultado de um rompimento por divergências políticas, associadas a ‘valores e princípios'(…). Nas eleições do ano passado, elas ficaram quase três meses sem se falar,

enquanto um estudante universitário de 27 anos diz ‘ter sido alvo de perseguições’ e “obrigado a cortar relações”, pois seu nome estava em cartazes colados em banheiros femininos indicando rapazes com quem as mulheres não deveriam se relacionar”. O que é isso? Como chegamos a esse ponto? E num ambiente acadêmico!

Como diz a reportagem, é claro que posições políticas estão ligadas a valores e princípios. Minha experiência em sala de aula com temas como “Quotas nas universidades públicas”, “Pena de morte”, “Corrupção”, “Liberdade de religião”, “Redução da Maioridade Penal” e “Sexualidade”, entre outros, foi sempre muito estressante, embora também fosse, como eu já escrevi, gratificante por encontrar alunos muito lúcidos e dispostos ao diálogo, apesar da pouca idade que tinham. As dificuldades começam quando o aluno chega à escola “armado” e já “resoluto”, pronto para ver no colega ou no professor alguém que deve ser combatido.

Pessoalmente, tenho um grande amigo com o qual procuro não falar de política. Embora eu não tenha uma preferência partidária – gostaria apenas que nossos governantes fossem competentes, honestos e éticos -, possuo algumas opiniões bem diferentes daquelas que essa pessoa querida tem. Ele não está aberto ao diálogo e parece sempre pronto para uma discussão mais exaltada. Não gosto de arriscar amizades sinceras por causa de gente que não vale nada como alguns de nossos políticos. Não tem nada a ver com alienação, mas prefiro evitar tais assuntos com ele – prefiro conversar sobre literatura, música, teatro, cinema etc. (Tudo isso acompanhado de uma bela fatia de um gostoso bolo de chocolate!)

Ironicamente, vivemos um avanço na tecnologia e, por consequência, um grande avanço nos meios de comunicação. Isso não tem sido suficiente, ao que parece, para que avancemos também como pessoas civilizadas que saibam usar igualmente a fala e a audição diante de outras pessoas. Ouvir para pensar; falar depois que se pensou. Haja maturidade!

Agora me veio à lembrança um texto que li há algum tempo. Quando o assunto é muito polêmico e os ânimos estão incendiados, o melhor remédio talvez seja mesmo o bom humor – nem sempre fácil de se alcançar. Em “Faíscas Verbais”, de Márcio Bueno, há a seguinte passagem: “Ainda jovem, por volta de 1900, Churchill concorria à Câmara dos Comuns. Um dia, quando fazia campanha eleitoral nas ruas, ao abordar um eleitor, ouve uma declaração muito franca: ‘Votar em você, nem pensar! Eu preferia votar no Diabo’. Churchill não desiste: ‘Compreendo… mas se o seu amigo não se candidatar, posso contar com o seu voto?'”.

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