Quando a mudança de sentido vem com a mudança de gênero

Alguns substantivos em português apresentam mais de um sentido dependendo do gênero, isto é, seu significado está diretamente ligado ao fato de ser empregado como uma palavra masculina ou feminina. Vejamos alguns casos interessantes que podem não só esclarecer algumas dúvidas como também permitir que sejam utilizados corretamente.

Todo o mundo sabe o que significa o substantivo “lente”. Quando feminino (“a lente”), diz respeito àquela parte dos óculos que permite a passagem de luz e a refração – entre outras definições. A lente dos óculos, a lente de contato, a lente de aumento etc. Existe, porém, “o lente”. Informa-nos o Dicionário Houaiss que “o lente” tem sua origem no latim legens, entis, ou seja, aquele que lê”. Nos nossos dias, o “lente” designa “um professor de nível secundário e especialmente de nível superior”. Dificilmente, encontraremos nas conversações do dia a dia alguém utilizando esse substantivo no masculino, mas por que não utilizá-lo nos textos escritos e mais formais?

Certa vez, um aluno, filho de portugueses, trouxe-me um antigo livro de poemas de escritores daquele país. O rapaz havia encontrado o volume no fundo de uma gaveta e pensou que pudesse me interessar. E pensou corretamente. Eram poemas belíssimos, alguns de Florbela Espanca, outros de Antero de Quental e outros ainda de poetas sem a projeção dos primeiros, embora bastante talentosos. Lá pelas tantas, lia-se um verso mais ou menos assim: “Somente um piedoso cura poderia me recomendar a Deus”. O aluno ficou curioso e veio me perguntar o que era “o cura”. Bem, os leitores mais vividos como eu sabem que “cura”, no masculino, significa “pároco”, “padre”, “vigário de uma freguesia”. Dessa forma, “a cura” vem a ser a solução para um problema de saúde ou de qualquer ordem, enquanto “o cura” designa o religioso. Não sei se, ainda hoje, em Portugal, esse termo é utilizado pelas pessoas…

Outro caso interessante diz respeito ao termo “grama”. Pode parecer bastante trivial, mas são poucas as pessoas que sabem a diferença entre “a grama” e “o grama”. Quando empregada no feminino, “a grama” designa a relva, bastante comum nos jardins e nos campos de futebol. “O grama”, por outro lado, não tem nada a ver com isso. No masculino, significa “uma unidade de medida de massa”, segundo o dicionário. Assim, o correto seria que pedíssemos “duzentos gramas de presunto” no mercado ou na padaria – e não “duzentas gramas” como se ouve frequentemente.

Vamos à palavra “cisma”. Essa também apresenta a mesma variação das anteriores mencionadas neste texto. Se o leitor utilizar a palavra no feminino, “a cisma”, estará se referindo a uma mania, uma ideia fixa, ou até mesmo a uma certa prevenção e antipatia contra alguém, entre outros significados informados pelo dicionário. Daí que o sujeito cismado seja aquele indivíduo desconfiado, retraído, que teima em não aceitar o que vê sem provas concretas. “O cisma”  quer dizer outra coisa. Como substantivo masculino, significa “ruptura”, “separação”, “desacordo”. Termo bastante usado no cenário religioso, um dos cismas mais célebres aconteceu no ano de 1534, quando a Inglaterra se separou da Igreja Católica Romana por determinação do rei Henrique VIII.

Desde pequenos, aprendemos na escola que a cidade politicamente mais importante de uma nação vem a ser “a sua capital”, centro das grandes decisões, sede do governo, residência do presidente e por aí vai. No caso do Brasil, além de tudo isso, é o centro de onde emanam os grandes escândalos financeiros e, consequentemente, as grandes crises políticas e econômicas do país. Essa palavra, no entanto, pode ser empregada no masculino também: “o capital” designa, normalmente, “todo bem econômico aplicado à produção”, como nos ensina o Houaiss. Resumindo, você precisa de “um capital” para iniciar um negócio próprio, e viaja a “uma capital” quando está em férias.

A lista, como se vê, é extensa. Poderíamos falar aqui de “a cabeça” (parte do corpo) e “o cabeça” (líder), “o moral” (estado de ânimo) e “a moral” (costumes e regras de uma sociedade), “o rádio” (aparelho) e “a rádio” (emissora que transmite programas), “a caixa” (recipiente) e “o caixa” (quem trabalha recebendo dinheiro em um estabelecimento), “o estepe” (pneu sobressalente) e “a estepe” (planície com vegetação rasteira) etc.

Quero também aproveitar este texto para falar um pouco da gíria, esse aspecto da linguagem coloquial visto com um certo preconceito, mas que faz parte do vocabulário de muita gente. Abordarei os aspectos da gíria em outra oportunidade, mas não quero perder a chance de incluir alguns termos que dizem respeito ao assunto de que estou tratando agora. Não há como negar que um dos aspectos mais marcantes da gíria vem a ser o seu caráter informal, descontraído e, por isso mesmo, irreverente – tão irreverente que não cabe em qualquer situação. Cuidado, moçada!

A palavra “cobra” é um substantivo epiceno, isto é, precisamos das designações macho/fêmea para diferenciarmos os gêneros. Até aí, nenhuma novidade… mas, quando queremos dizer que alguém é muito bom naquilo que faz – geralmente no esporte -, dizemos que fulano é “um cobra”! Se o animal em si é digno de todo o desprezo e medo por parte das pessoas comuns, ser chamado de “o cobra” é um elogio e tanto.

O substantivo “banana”, por sua vez, é feminino, designando o nome da fruta que todos conhecemos. O médico recomenda: “Se você gosta de correr, coma uma banana por dia – entre outros componentes, ela tem potássio e isso é ótimo para os músculos”. O mesmo substantivo, agora no masculino, também é utilizado na linguagem quotidiana quando se quer tachar pejorativamente um homem de palerma, de passivo, de inerte. “Este sujeito é um banana – aceita tudo sem reagir”. (Acho fascinante investigar como e onde essas expressões nascem…)

Vejamos um caso semelhante ao anterior: o do substantivo “pamonha”. A pamonha é uma iguaria saborosa feita com milho, sal e açúcar, muito popular nas festas juninas; quando empregado no masculino, o termo refere-se a um indivíduo tolo, preguiçoso, abobado – um banana!

Mais recentemente, tem chamado a atenção o emprego do vocábulo “cara”. “Cara”, como substantivo feminino, designa o rosto, a face de alguém, ou o nome de  um dos lados de uma moeda em oposição ao termo “coroa”. Na linguagem do dia a dia, a mesma palavra, agora no masculino, vem sendo usada para indicar alguém cuja ação, trabalho ou comportamento têm se mostrado dignos de admiração e respeito. Se antigamente se dizia que um homem era magnífico, excelente, imprescindível, hoje se diz que ele é “o cara”! Sinal dos tempos…

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