Propagandas e Marcas

Mesmo brincando muito na rua, a garotada sempre arranjava tempo para ver televisão. Adorávamos desenhos, seriados e filmes. E, logicamente, éramos bombardeados por propagandas e comerciais que ficaram marcados em nossa memória para sempre. Mas não é sobre essas propagandas que quero escrever aqui. Estive pensando sobre as “descobertas” que fiz, entre meus seis e 10 anos, por causa dos nomes de alguns produtos muito, muito famosos.

Assim que comecei a ler, eu queria decifrar tudo o que me aparecia pela frente. Lembro que, no meu primeiro ano de escola, tínhamos que levar material para aula de artes. Fui à papelaria com minha mãe e ela comprou o material solicitado – cola, massinhas de modelar, pincel, aquarela, folhas de sulfite etc… E, durante algum tempo, acreditei que “Tenaz” era só o nome daquela cola. Jamais me passou pela cabeça que a palavra fosse um adjetivo e significasse algo que “prende com firmeza”, “adere fortemente a uma superfície”, como mostra qualquer dicionário. Não me lembro de quando descobri que essa palavra “existia”, mas fiquei surpreso. Aquelas surpresas que toda criança tem quando vai descobrindo o mundo. (E, até hoje, quando ouço esse termo, penso imediatamente na cola que a gente usava na escola e no álbum de figurinhas…)

A criançada adorava o chocolate Prestígio. Ele é um clássico da Nestlé e é quase impossível encontrar alguém que não o conheça. De uns tempos para cá, virou até nome de bolo do mesmo formato – massa de chocolate com recheio de coco. Bem, era perto da Copa do Mundo de 1970, e meu pai conversava com meu avô sobre os jogadores que deveriam ir ou não. Duvidava-se até que Pelé tivesse ainda condições de defender o Brasil. Meu pai, no meio da conversa, falou para seu sogro: “Seu João, o Pelé tem muito prestígio ainda. Duvido que ele não seja convocado”. Opa! Pelé tinha prestígio. Era a primeira vez que aquele garoto de seis anos (eu) ouvia essa palavra sem que alguém estivesse se referindo ao chocolate na padaria. Meu pai me explicou que “prestígio” era “a qualidade de alguém que as pessoas respeitam e admiram bastante”. Nunca que eu teria adivinhado isso naquela época! Pra mim, era só nome de chocolate mesmo!

Outro caso semelhante aconteceu quando a Ford lançou o Corcel, e a Chevrolet lançou o Opala. Para nós, crianças, eram apenas nomes de carros e assim ficaram associados por muito tempo. Um dos nossos vizinhos comprou um Corcel novinho, “zero” (como se diz até hoje), e só depois de muito tempo eu vim a descobrir que um “corcel” é “um cavalo muito veloz”. Foi numa aula, em 1972, em que lemos um texto e a professora esclareceu à sala que a indústria havia adotado o nome do animal, e não o contrário. Espanto da meninada!

O nome Opala estava ainda mais distante de nossa realidade. Qual o garoto de periferia que pudesse saber que “opala” é o nome de uma “pedra preciosa, de cor verde, vermelha e roxa”? Pra nós, era o carrão que aparecia na TV e pronto. (Saber o significado do nome já era difícil, conhecer alguém que tivesse um era ainda mais complicado pra nós…). Outros tempos, outros tempos…

Várias vezes, meus pais foram convidados para serem padrinhos de casamento. Numa delas, eu me lembro bem de ter ido com eles a uma loja no centro de São Paulo, porque meu pai precisava comprar um terno novo. Eu tinha uns oito anos de idade e a iluminação da loja ficou na minha memória. Era uma loja bonita, vendedores bem vestidos, atenciosos etc. O nome dela? Lojas Garbo. E toda vez que passávamos em frente a uma delas, eu me lembrava de que meu pai tinha um terno comprado lá. De novo, claro, “Garbo”, pra mim, era só o nome de um local onde homens compravam roupas. Não sei quando, mas descobrir que “garbo” significava “elegância, distinção e perfeição” foi uma outra surpresa. Era uma palavra que ninguém usava, e, talvez por isso mesmo, guardava seu mistério e sua “elegância”. Ainda hoje há lojas com nomes tão distintos? Creio que não…

Mais um caso de descoberta: tínhamos uma vizinha que, sempre que minha mãe me mandava à padaria, a mulher aproveitava e pedia para comprar-lhe cigarros. Sua marca preferida era “Continental”. Comprei muitos maços para aquela senhora que ficava sozinha o dia inteiro – o marido e os filhos saíam para trabalhar e ela, às vezes, ia lá em casa conversar com minha mãe. Claro que, quando menino, jamais fiz a associação de “continental” com “continente”. Pra mim e para meus amigos, “continental” era só a marca de um cigarro – “Continental, preferência nacional”. Era uma época em que a indústria tabagista podia fazer comerciais (alguns bem caros) em todos os meios de comunicação. Possivelmente, ficamos sabendo que “continental” não era só nome de cigarros em uma aula de Geografia – a Austrália era um “país insular”, enquanto o Brasil era “um país continental”. Muito bem!

O leite, por sua vez, era e é um elemento imprescindível no dia a dia de milhões de pessoas. Há algumas que são verdadeiros bezerros: não ficam sem leite de jeito algum. Muitas eram as marcas, algumas resistiram ao tempo e ainda podem ser encontradas nos supermercados; outras desapareceram. Lembro que consumíamos Mococa, Paulista, Leco… e tinha o leite “Vigor”. Pra mim, novamente, “vigor” era só a marca de leite, manteiga, queijo etc. Mais tarde, descobri a relação lógica que se fazia entre a marca e o produto – quem tomasse leite ficaria forte”, teria “vigor”, “robustez”, “energia física”. É que ninguém falava que “fulano tinha vigor”. Dizia-se que tinha saúde e pronto!

Na minha ingenuidade, a marca “Santista”, dos lençóis e fronhas, toalhas de banho e de rosto, e até massas de bolo – produtos que minha mãe sempre elogiou lá em casa – era só uma marca comercial mesmo. Foi na escola, talvez no nosso terceiro ano primário, estudando o estado de São Paulo, que a professora nos explicou: “Quem nasce em Campinas é campineiro; quem nasce em Piracicaba é piracicabano; quem nasce em Jundiaí e jundiaiense; quem nasce em Santos é santista”. E “santista”, pra mim, era a marca ou o torcedor do Santos. Meu Deus! Hoje, dou risada de tanta ignorância!

Estive pensando nisso tudo e me peguei com saudade da própria inocência e do encantamento da descoberta. As primeiras palavras lidas, as primeiras palavras escritas. Saber escrever o nome pela primeira vez…

Não sei se os meninos e as meninas de hoje prestam atenção a essas coisas… temo que estejam com os olhos muito grudados no celular, perdendo a própria infância.

Posts relacionados

TRANSFORMAÇÕES
DICIONÁRIOS

10 Comentários. Deixe novo

  • Avatar
    Delco g Gialorenco
    dezembro 20, 2020 3:39 am

    E a Farinha Láctea x a Via Láctea?!

    Responder
  • Texto ótimo com referências próximas do nosso cotidiano, muito bom para nos fazer pensar nas nossas escolhas, obrigada.

    Responder
  • Avatar
    Suzy Aparecida Colli
    dezembro 20, 2020 11:53 am

    Meu amigo, é muito bom voltar ao tempo com suas memórias…
    Me senti com a idade dos sonhos, relembrando momentos únicos!
    Obrigada querido.

    Responder
  • Avatar
    BERNADETE BOMENY DE FREITAS
    dezembro 20, 2020 12:18 pm

    Muito legal! Saudades também…

    Responder
  • Que lembrança gostosa da minha infância! Recordar é muito bom, meu amigo! Certamente essa nova geração não se apega a nada e não terá o que se recordar. Infância vazia e sem graça. Parabéns, Vitão!

    Responder
  • Avatar
    Angelo Antonio Pavone
    dezembro 20, 2020 6:54 pm

    Olá Prof Vitor
    Belo texto. Doces memórias
    Outros tempos, sem as terríveis preocupações de hoje.
    Parabéns

    Responder
  • Avatar
    Edilson Cardoso
    dezembro 20, 2020 9:59 pm

    Que delícia termos vivido tudo isso! Como você menciona, essa garotada está ligada ao celular para outras coisas.

    Responder
  • Avatar
    Marco Antônio Gonçalves
    dezembro 20, 2020 11:09 pm

    Belíssimo texto,muito bem engendrado, gostei demais é voltei a ser criança…..

    Responder
  • Avatar
    Guilherme Sardas
    dezembro 20, 2020 11:42 pm

    De forma leve e envolvente, o texto nos lembra a memória afetiva da descoberta dos nomes. Demais! E me lembro de ver a marca “Garbo” e passar bom tempo contemplando aquele nome até o dia que descobri! Tempos anteriores ao dicionário de celular! Abraço!

    Responder
  • Avatar
    Baltasar Pereira
    dezembro 22, 2020 1:04 am

    Muito interessante as descobertas que vamos fazendo ao decorrer da infância e adolescência.
    Muito Boa a Crônica, pois a mesma me remeteu ao passado e realmente as descobertas dos vários significados que uma palavra ou nome dado a um produto viriam a descortinar novos conhecimentos.
    A cola Tenaz me fez voltar ao tempo em que tanto a usava.
    Bela Crônica. Saudosista e Atual ao mesmo tempo.
    👏👏

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Preencha esse campo
Preencha esse campo
Digite um endereço de e-mail válido.

Menu