Por que saber a norma padrão

Tempos estranhos estes em que estamos vivendo: um colega de profissão me relatou que foi chamado à diretoria da faculdade em que leciona porque, em sala de aula, corrigiu uma aluna diante da classe.

Ele me contou que a moça – já na casa dos seus 20 e poucos anos – levantou a mão e perguntou a ele: – Professor, quantos anos fazem que Clarice Lispector morreu?

Meu amigo, segundo me contou, informou à moça que nossa querida escritora morrera em 1977 e aproveitou para ensinar que, como se sabe, o verbo “fazer”, quando indica tempo decorrido, é classificado como verbo impessoal, isto é, não possui sujeito e, assim, aparece somente na terceira pessoa do singular, em todos os tempos. O correto seria “quantos anos faz que…”. Parece que a aluna ficou de cara feia na hora, sem dizer um simples “obrigado” ao meu colega. O desdobramento disso, como já foi dito no começo, foi uma reclamação na diretoria, pois “o professor expôs a aluna ao ridículo”.

Bem, chegamos aqui ao impasse que nos remete ao título deste texto: o que o professor deve e o que não deve fazer diante da classe quanto se trata de “corrigir” um aluno ou uma aluna? Tenho para mim que a sala de aula é o local ideal para que se percam as amarras tanto de um lado quanto de outro: o aluno tem o direito de perguntar sobre a aula, e o professor tem o dever de responder e, mais, tem o dever de corrigir, sim, alguma informação errada que estiver contida no discurso do estudante. Nunca entenderei o motivo de aquela moça se sentir ofendida com seu professor e procurar a direção da faculdade.

Mudando de pato pra ganso (uso a expressão de propósito e verão já por quê!), uma outra questão vem a ser o embate (inútil) entre a chamada “norma padrão” e a “linguagem coloquial”. A norma padrão da língua está ligada às regras da Gramática; é mais formal, goza de maior prestígio, diz respeito mais à escrita do que à fala.

A linguagem coloquial, por sua vez, é mais dinâmica, mais informal, diz respeito à conversação do dia a dia, quando se  procura maior rapidez e menor esforço; faz uso de certas construções próprias do quotidiano como abreviações, gírias, regionalismos e até palavrões, aspectos que abordarei em outra oportunidade.

A sala de aula é o lugar no qual se deve promover o contato do aluno com essa “norma padrão” – com suas regras gramaticais e exceções -, embora respeitando-se o vocabulário desse aluno e o modo como ele se comunica no seu quotidiano. Não se quer aqui impingir ao estudante que fale como se vivesse dois séculos atrás, mas ele não pode e não deve escrever como se estivesse todo o tempo com amigos em um estádio de futebol. A observação do contexto em que uma pessoa se encontra é fundamental para que ela escolha adequadamente seu vocabulário e seja compreendida e respeitada por aqueles a quem ela se dirija.

A leitura de bons textos – jornalísticos e literários –  é imprescindível para que se produzam outros bons textos. Como diz o antigo ditado: “Ler é pegar emprestado; escrever é pagar a dívida”. Infelizmente, esse é o momento em que se constatam as deficiências de alguém que não sabe regras de acentuação, regras de separação silábica, ortografia ou concordância, por exemplo.

Textos que se iniciam por “então”, “pois”, “por outro lado” e outros termos e expressões que supõem uma ideia anterior são muito comuns por parte dos alunos de todos os níveis. Seja porque não leem, seja porque não lhes foi ensinada a formação de um período composto, apresentam com frequência textos sem pé nem cabeça, como se dizia antigamente. E muitos alunos continuam se sentindo ofendidos quando o professor tenta lhes apresentar um outro modo de utilizarem o idioma. Dei muita aula de Gramática e de Redação para alunos de cara feia…

Sinto pena sincera desses jovens que não sabem separar as sílabas de uma palavra, que não sabem se devem ou não acentuá-la graficamente. Triste que confundam “mas” com “mais”, “a fim” com “afim”, “a gente” com “agente”, “caçar” com “cassar”, “comprimento” com “cumprimento”, “senso” com “censo” e insistam em usar “menas” em seus textos. Estudantes que não sabem conjugar um simples verbo impessoal e têm ódio do professor que tenta lhes ensinar…

A vida cobrará mais tarde!

Não tenho e jamais tive problema com o aluno que parece uma metralhadora de “tipo assim” (embora ouvir isso o tempo todo seja uma tortura!), mas quero que ele também tenha a opção de utilizar a expressão “por exemplo” em seu texto. O verbo “ter” com sentido de “existir” é extremamente comum, e não vejo mal algum em sua utilização nas conversas do dia a dia – mas quero que meu aluno saiba utilizar o verbo “haver” na hora de redigir uma monografia ou uma tese.

Repito: o importante é ser uma espécie de poliglota na própria língua, adequando-se à situação em que a pessoa se encontre. Não nos esqueçamos de que todos aqueles que utilizam o coloquial com inteligência fazem-no porque dominam a norma padrão também – basta que se leiam os contos de escritores como os paulistas Mário de Andrade (1893 – 1945) e João Antônio (1937 – 1966) ou os versos do pernambucano Manuel Bandeira (1886 – 1968), todos mestres em ambos os níveis de linguagem.

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4 Comentários. Deixe novo

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    Edilson Cardoso
    março 9, 2019 7:08 pm

    Como disse, ou melhor, escreveu o professor Vitor , “sinto pena desses jovens que não sabem separar as sílabas “! Eu também sinto. Parabéns e agradeço por poder ler essa “coluna “. Não estudo e não estudei Direto, porém, procuro utilizar a gramática correto.

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    Edilson Cardoso
    março 9, 2019 7:10 pm

    Corrigindo, utilizar a gramática CORRETA e não correto como escrevi

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  • Parabéns! Ótimo texto sobre um assunto tão difícil.

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    ANGELO ANTONIO PAVONE
    março 14, 2019 6:02 pm

    Grande Professor Vítor França
    Fantástica essa crônica. Escola é fundamental. Diante de tantos ataques que sofremos diuturnamente de “tipo assim”, “né”, “viu?” “ói”, etc. Acho que é melhor tapar os ouvidos e não ouvir mais nada.
    Parabéns!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Responder

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