POR QUE, POR QUÊ, PORQUE OU PORQUÊ?

“Professor, em inglês é muito mais fácil – why e because. Fim de papo!”. Nos meus tempos de cursinho, cansei de ouvir, por parte de alunos, reclamações assim sempre que eu apontava algum erro referente ao emprego das formas do “por que” em alguma redação. Bem,  para quem não está muito familiarizado com essas variações, a coisa pode parecer difícil. Vamos tentar simplificá-la!

Em 1980, Toquinho, Vinicius de Moraes e Carlinhos Vergueiro lançaram uma linda canção intitulada “Por que será?”. Nela, o eu lírico vai se perguntando as razões do fim do caso de amor que, até então, parecia ser perfeito, feliz e prazeroso. Utilizando-se de uma figura de linguagem chamada “anáfora” (recurso com o qual se começa cada verso com a mesma expressão), a canção vai se estruturando com perguntas que, ao mesmo tempo, mostram a perplexidade do eu lírico e o levam à constatação de que não há mais razão para continuar ao lado da pessoa amada.

Por que será que eu ando triste por te adorar?

Por que será que a vida insiste em se mostrar mais distraída
Dentro de um bar?

Por que será?
Por que será que o nosso assunto já se acabou?

Por que será que o que era junto se separou
E o que era muito se definhou?

Por que será? (…)”

O emprego da forma “por que”, nos versos acima, justifica-se por se tratar de perguntas, interrogações, e pelo fato de esse “por que”  (separado e sem acento) se encontrar no  começo de perguntas. Equivale a “por qual motivo” ou “por qual razão”.

 

Um outro uso dessa mesma forma se verifica, por exemplo, no bonita canção de Djavan – “Esquinas”. Os versos dizem:

“Só eu sei / As esquinas por que passei / Só eu sei / Sabe lá / O que é morrer de sede em frente ao mar? Sabe lá?(…)”. No segundo verso, a expressão pode ser substituída por “pela quais”.

Já “por quê” (separado e com acento) aparecerá no fim de uma oração: “Você não veio ontem por quê?” ou “Você não veio ontem. Diga por quê“.

Em 1979, Maria Bethânia também gravou uma bonita canção intitulada “Cheiro de Amor”. A estrofe inicial dizia o seguinte:

” De repente fico rindo à toa sem saber por quê / E vem a vontade de sonhar / De novo te encontrar / Foi tudo tão de repente /
Eu não consigo esquecer / E confesso, tive medo / Quase disse não (…)”.

Vamos dar uma olhada, agora, no “porque” (junto e sem acento). Primeiro, a forma pode ser equivalente a “pois”, “uma vez que”, “já que”. Lembrei agora da bonita música “Bem que se quis”, versão de Nelson Motta para a canção de Pino Daniele (“E Po´ Che Fa´”) na voz de Marisa Monte, de 1988. A certa altura, a letra diz:

“Bem que se quis / depois de tudo ainda ser feliz / mas já não há caminhos pra voltar (…) / Mas tanto faz / Já me esqueci de te esquecer porque (pois) / o teu desejo é meu melhor prazer (…)”.

Por sua vez, “porquê” (junto e com acento), equivale a um substantivo, isto é, pode ser substituído por “o motivo”, “a razão” e, sendo um substantivo, admite variação de número (singular e plural) e o uso de artigo definido (“o” / “os”) ou indefinido (“um” / “uns”).

O exemplo que me ocorre agora é uma música muito romântica de Luiz Ayrão , gravada por Roberto Carlos há muito anos, ainda na década de 60. Os versos dizem: “Veja bem, foi você / A razão e o porquê / De nascer esta canção assim / Pois você é o amor / Que existe em mim…”. Aqui, o compositor carioca põe lado a lado formas sinônimas: “A razão e o porquê”. Se fosse no plural, “As razões e os porquês”.

Termino com as mesmas palavras que eu dizia para meus alunos desesperados diante desse assunto: mais do que a “decoreba”, ajuda (e muito!) ler bons textos em prosa ou em verso (como os exemplos que citei) para que se aprenda o emprego correto de cada uma dessas formas.

E uma última coisa: sempre que me lembro de antigas canções, constato que nossa música perdeu muito em  lirismo, engenho e beleza. Por que será?

CANÇÕES CITADAS

“Por que será?” – Toquinho, Vinicius e Carlinhos Vergueiro, 1980.

“Esquinas” – Djavan, 1985.

“Cheiro de Amor” – Paulo Sérgio Valle, José Francisco Ribeiro, José Eduardo Mendonça, João Pontes, 1979.

“Bem que se quis” – versão de Nelson Motta, 1988.

“Nossa Canção” – Luiz Ayrão, 1966.

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