OS VERBOS DA ARROGÂNCIA

Um dos meus movimentos literários prediletos é o Arcadismo. Estética surgida no século XVIII, pregava a simplicidade contra os excessos e exageros do Barroco. Era influenciado pelos ideais iluministas franceses – liberdade, igualdade e fraternidade.

Foi uma escola que procurou pregar uma concepção mais amena e equilibrada do mundo. Seu nome fazia alusão à Arcádia, uma região da Grécia Antiga, o refúgio de pastores que exaltavam o paraíso bucólico no qual viviam. Por fazer um novo resgate clássico das artes – como havia acontecido no Renascimento -, ficou também conhecido como Neoclassicismo.

Alguns de seus princípios são bem bacanas, embora só funcionassem na teoria e no papel, enquanto sua prática já era uma outra história. Pregava-se a “fugere urbem”, isto é, a fuga da cidade e a valorização da vida no campo; a natureza era tida como um “locus amenus” (lugar calmo e agradável onde se podia desfrutar da paz e da tranquilidade). Ao mesmo tempo, fazia-se a apologia da “aurea mediocritas” (“mediocridade de ouro” – e “mediocridade”, aqui, com um sentido diferente do que empregamos hoje; mediocridade como o que é médio, bom, na medida certa).

Do Barroco, movimento anterior, conservou-se o princípio do “carpe diem” (aproveitar o dia), ou seja, a valorização do momento presente, pois a vida é breve e temos de gozá-la antes da velhice e da morte. Por fim, o “inutilia truncat” (cortar o inútil), isto é, a eliminação dos excessos, a valorização do que é extremamente necessário, deixando-se de lado o que for demasiado.

Bem, este texto não é uma aula sobre Arcadismo. Resolvi citar algumas de suas características porque sempre me lembro dele quando penso nos excessos e exageros de nossa sociedade no século XXI – a sociedade da ostentação, a sociedade dos bens materiais, a “sociedade líquida” do professor Zygmunt Bauman, segundo o qual as relações humanas, hoje, não têm consistência: “Esquecemos o amor, a amizade, os sentimentos, o trabalho bem feito. O que se consome, o que se compra, são apenas sedativos morais que tranquilizam seus escrúpulos éticos”, dizia o professor.

Além de as pessoas serem avaliadas e valorizadas (ou desprezadas) pelo que possuem de bens materiais, são também valorizadas ou não pelo que ostentam, por sua capacidade de compra e pelos excessos que podem(!) cometer e divulgar nas redes sociais. Verdadeiro campo de batalha contemporâneo, essas redes servem para que eu seja notado e para que eu busque a aprovação das outras pessoas, pois, como diz o próprio Bauman, “o amor próprio é construído a partir do amor que nos é oferecido por outros”, não importando se são conhecidos ou desconhecidos que “curtem” nossas postagens.

E, por falar em “importar”, talvez fosse útil prestarmos atenção à etimologia desse verbo: “im” (movimento para dentro) e “portar” (carregar, levar). Será que “carregamos para dentro” de nós aquilo que realmente vale a pena? Não estaríamos, hoje, exagerando a dose diante de tudo o que se nos apresenta em termos de bens materiais, relacionamentos virtuais e fachadas? Não estaríamos dando “importância” para o que não a merece?

Antes do tal do politicamente correto, eu gostava de brincar com os alunos ao dizer que o Arcadismo era o movimento no qual o poeta convidava a amada para ir pro mato… sem a maldade que eles estavam imaginando. Servia para descontrair a moçada tensa com os vestibulares. Logo em seguida, porém, eu perguntava: “Qual de vocês estaria disposto a viver longe da cidade e dos confortos que aqui vocês têm? Quem iria viver no campo, bem distante da metrópole, como queriam os árcades? Quem praticaria o “fugere urbem” e viveria sem a internet?”

Na sociedade da ostentação e do exagero, os verbos mais conjugados são “ter”, “comprar”, “possuir”, “mostrar”, “administrar”, “mandar”, “coordenar”, “competir”, “vencer”, “ultrapassar”… o problema é que, muitas vezes, esses mesmos verbos não vêm acompanhados pelo respeito à ética, à honestidade e à verdade. Tenho que vencer, possuir e mostrar sem escrúpulos. Danem-se os outros! O que interessa é o meu sucesso, ainda que eu seja um gigante de aço com pés de barro.

Todo esse exagero me leva a pensar na corrupção, na mesquinharia, na ambição desmedida (cadê a “aurea mediocritas”?), no acúmulo de riquezas e na vaidade que tudo isso alimenta. As pessoas não estão “nem aí” se vão magoar ou humilhar aqueles que não têm – ostentam e acabou! Mostram, e que se dane o resto. Acho que lhes faltam inteligência, sensibilidade e compaixão.

Isso me faz lembrar de uma crônica de Rubem Braga, muito bonita como sempre, na qual nosso cronista maior fala exatamente do cuidado que deveríamos e poderíamos ter num país tão desigual como este. Fico aqui pensando numa vizinha que tínhamos quando eu era criança – tudo na família e na casa da cidadã era perfeito, ao mesmo tempo em que ela não deixava nunca de desprezar o que os outros vizinhos tinham e não conseguia calar a boca diante da gente mais pobre que vivia lá na nossa vila. Hoje, sei que pobre era a alma daquela mulher – paupérrima, eu diria.

Deixo aqui a crônica citada. Ela é bonita, muito bonita, e eu gostaria de ter o dom de escrever histórias simples e bonitas assim.

                           O COMPADRE POBRE

O coronel, que então morava já na cidade, tinha um compadre sitiante que ele estimava muito. Quando um filho do compadre Zeferino ficava doente, ia para a casa do coronel, ficava morando ali até ficar bom, o coronel é que arranjava médico, remédio, tudo.

Quase todos os meses o compadre pobre mandava um caixote de ovos para o coronel. Seu sítio era retirado umas duas léguas de uma estaçãozinha da Leopoldina, e compadre Zeferino despachava o caixote de ovos de lá, frete a pagar. Sempre escrevia no caixote: CUIDADO É OVOS – e cada ovo era enrolado em sua palha de milho com todo carinho para não se quebrar na viagem. Mas, que o quê: a maior parte quebrava com os solavancos do trem.

Oe meninos filhos do coronel morriam de rir abrindo o caixote de presente do compadre Zeferino; a mulher dele abanava a cabeça como quem diz: qual… Os meninos, com as mãos lambuzadas de clara e gema, iam separando os ovos bons. O coronel, na cadeira de balanço, ficava sério; mas, reparando bem, a gente via que ele às vezes sorria das risadas dos meninos e das bobagens que eles diziam: por exemplo, um gritava para o outro – “Cuidado, é ovos”!

Quando os meninos acabavam o serviço, o coronel perguntava:

– Quantos salvaram?

Os meninos diziam. Então ele se voltava para a mulher: “Mulher, a quanto está a dúzia de ovos aqui no Cachoeiro (de Itapemirim)?”. A mulher dizia. Então ele fazia um cálculo do frete que pagara, mais do carreto da estação até a casa e coçava a cabeça com um ar engraçado:

– Até que os ovos do compadre Zeferino não estão me saindo muito caros desta vez.

Um dia, perguntei ao coronel se não era melhor avisar o compadre Zeferino para não mandar mais ovos; afinal, para ele, coitado, era um sacrifício se desfazer daqueles ovos, levar o caixote até a estação para despachar; e para nós ficava mais em conta comprar ovos na cidade.

O coronel me olhou nos olhos e falou sério:

– Não diga isso. O compadre Zeferino ia ficar muito sem graça. Ele é muito pobre. Com pobre, a gente tem que ser muito delicado, meu filho.

Rubem Braga, novembro de 1952.

Posts relacionados

O CACÓFATO

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Preencha esse campo
Preencha esse campo
Digite um endereço de e-mail válido.

Menu