OS TERMOS DO CASAMENTO

“Quem é casado há quarenta anos com dona Maria não entende de casamento – entende de dona Maria. De casamento entendo eu, que tive seis”

– Chico Anysio (1931-2012), humorista, escritor, apresentador, roteirista e produtor.

O sempre engraçado Barão de Itararé (Apparício Torelly) uma vez escreveu que “o casamento é uma tragédia em dois atos: civil e religioso”; já o escritor russo Anton Tcheckov dizia que “um casamento feliz pode existir apenas entre um marido surdo e uma mulher cega”.

Brincadeiras e exageros à parte, conheço pessoas que fogem do casamento e pessoas que sonham com essa união que lhes traria estabilidade, segurança, companheirismo, sexo seguro, uma família e, claro, amor. As opiniões divergem, as definições do casamento também.

Conheço pessoas cuja opinião sobre esse enlace mudaram com o passar do tempo e com as experiências que vivenciaram. É uma platitude, mas é verdade: quando se fala de relacionamento amoroso, cada um tem o seu histórico e as consequências dele.

O casamento, até mais ou menos os anos 50 do século passado, era a única maneira de uma moça sair honrosamente da casa dos pais e, mais do que isso, não “ficar para tia” e assim não passar vergonha diante das amigas. Com raras exceções, a moça solteira de antigamente se sentia humilhada. E mais: além da obrigação do casamento, havia a obrigação da maternidade. Tinha de se casar e tinha de ser mãe!

Para o homem, o casamento – que vinha um pouco mais tarde – era símbolo de prestígio também, não se pode negar. Um respeitável pai de família impunha-se mais do que o moço solteiro, um “pobre coitado que não era desejado por nenhuma moça”. A literatura, o cinema e a música muitas vezes confirmam isso. Basta que olhemos pra trás.

Outra, porém, é a nossa realidade hoje: se ainda há aqueles que gostam do casamento no “the old fashioned way” (e realmente há!), mais comumente encontramos pessoas que optam pela união informal, baseada no sentimento e não no consentimento da Igreja, do Estado e da sociedade. Depois da revolução sexual dos anos 1960, do feminismo e de outras mudanças nos costumes, o casamento acabou tendo “outras caras”. Por exemplo, tenho dois amigos gays que são casados há quase 20 anos – e cada um morando em sua casa. Eles se encontram nos fins de semana e a relação tem funcionado dessa maneira. É certo, como já escrevi, que muita gente ainda gosta de tudo como manda a tradição. Cada um, cada um.

No cinema, são muitas as comédias românticas que exploram o tema, como “O pai da noiva” (de 1950, com direção de Vincent Minelli), ou “O banquete de casamento” (de 1993, do diretor Ang Lee), passando pelo australiano “O casamento de Muriel” (de 1994) e “O casamento do meu melhor amigo” (1997), ambos dirigidos por P. J. Hogan. Todos ótimos! A lista é enorme!

O tema “casamento” é tão rico que ainda será tema de muito filme, muita música, muito livro, muita peça de teatro…

Certa vez, li que o compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues compôs “Esses moços” como presente de casamento para um amigo. Até aí, tudo bem – contanto que não se prestasse atenção à letra da canção. Na sua primeira estrofe, a gente ouve: “Esses moços, pobres moços / Ah, se soubessem o que eu sei! / Não amavam, não passavam / Aquilo que eu já passei…”. Difícil querer se casar depois desses versos.

A nossa sempre rica língua portuguesa possui uma denominação para cada tipo de comportamento que as pessoas têm diante do sagrado enlace. Alguns termos são bem conhecidos; outros, nem tanto. Acho que vale a pena a gente dar uma olhada…

A atriz britânica Elizabeth Taylor, famosa por sua beleza, ficou conhecida também por seus sete casamentos. Acho que era o tipo de pessoa que não consegue ficar sozinha, talvez como nosso Chico Anysio. Conheço muita gente assim – vão emendando um relacionamento no outro, um casamento no outro, enfileirando cônjuges e filhos. Poderíamos dizer que Miss Taylor sofria de uma gamomania, isto é, mania de casamento.

Por outro lado, tenho amigos que sofrem de misogamia, pois têm aversão ao matrimônio, lembrando a música de Roberto Carlos em que ele cantava: “Casamento, enfim, não é papo pra mim”, no auge da Jovem Guarda.

Acho que ainda hoje existe muito preconceito quando duas pessoas de classes sociais diferentes pretendem se casar. Ainda que não seja politicamente correto comentar essa união e ainda que os tempos tenham mudado, alguém que cometa a hipogamia ainda é bastante criticado – a hipogamia diz respeito às núpcias com uma pessoa de posição inferior. Muita gente ainda prefere a coisa do “lé com lé, cré com cré”, e sabe que, para não arranjar problemas, é melhor praticar a isogamia, isto é, casamento com parceiro(a) do mesmo grupo social, econômico e religioso. E, quando se fala de religião, o campo pode ser um pouco minado.

(Estamos vivendo tempos de tanta polarização no Brasil, que logo vão inventar um termo para “a pessoa que se casa com alguém de um partido político adversário” – ou para alguém que se casa com um indivíduo de direita ou de esquerda. Fim do mundo!)

Voltando ao nosso assunto, se temos a hipogamia, temos também a hipergamia: o casamento com pessoa de posição mais elevada. Enquanto o praticante da hipogamia pode ser criticado por seus iguais, o da hipergamia pode ser visto pelos maledicentes como o fulano do eterno “golpe do baú”. Comentários maldosos sempre aparecerão…

Existem idosos que, pelos mais variados motivos,  praticam a opsigamia, ou seja, casamento quando se tem uma idade avançada. Alguns tentam fugir da solidão de uma viuvez; outros encontram, somente na velhice, a chance de ficarem com aquela pessoa que desejaram a vida inteira; outros, ainda, só encontram aquele alguém especial bem depois de sua mocidade. São muitas e variadas as histórias do amor!

Os mais assanhados, sabemos bem, praticam a poligamia – casamento com mais de uma pessoa.

Listo essas palavras a título de curiosidade para o leitor. Enquanto escrevo, vou pensando em como a instituição do casamento se modificou nos últimos anos. Lembro do preconceito que uma mulher desquitada sofria, a ponto de lhe ser difícil até conseguir em emprego. Lembro, por exemplo, de toda a celeuma com a discussão da Lei do Divórcio no país, em 1977. E as restrições que dificultavam essa lei: a dissolução do casamento só era possível após prévia separação judicial por mais de três anos ou prévia separação de fato por mais de cinco anos, desde que iniciada antes da data em que promulgada a emenda. O divórcio só poderia ser requerido uma única vez. Lembro de como a constituição de novas famílias era uma coisa problemática no Brasil de não muito tempo atrás. Preconceitos, preconceitos…

Há uma bonita música de Burt Bacharach e Bob Hilliard – “Mexican Divorce” -, um baião no qual estão os seguintes versos: “Encontrar o amor demora muito / Separar-se não é o certo (…) Num dia, casado / Noutro, livre / Corações partidos para você e para mim / Não demora muito para se conseguir / o divórcio mexicano (…)”. As dores da separação!

O casamento talvez seja um espelho bem fiel do conservadorismo e/ou das mudanças de uma sociedade. Da união obrigatória, para “moças de família”, até a opção por uma gravidez sem o casamento e mesmo a união estável entre pessoas do mesmo sexo, como temos hoje, por exemplo, muita água passou sob a ponte. Que outras mudanças ainda virão?

Para finalizar, deixo uma pequena lista que encontrei num antigo almanaque aqui em casa. É uma lista sobre os aniversários de casamento – porque um pouco de cultura inútil não faz mal a ninguém!

 

Anos                Bodas de

05                    Madeira

10                    Estanho

15                    Cristal

20                    Porcelana

25                    Prata

30                    Pérola

35                    Coral

40                    Esmeralda

45                    Rubi

50                    Ouro

60                    Diamante

70                    Platina

 

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