OS TAIS VERBOS DO “MÁRIO”

Uma das maiores dificuldades de quem estuda a língua portuguesa – seja um nativo falante, seja um estrangeiro – diz respeito a uma classe gramatical que dá muita dor de cabeça a muita gente: verbos.  Eles se flexionam em tempo, modo, número, pessoa e voz. Além disso, temos os verbos defectivos, os verbos impessoais, os verbos anômalos e os verbos abundantes.  Costumo dizer que devemos tomar cuidado: às vezes, uma forma verbal é agradável aos nossos ouvidos, mas está incorreta; outras vezes, uma outra forma verbal é muito feia, mas está certa.

Lembro-me com muita clareza quando, lá na antiga 5ª série, a professora nos ensinou a conjugar o verbo “caber”. O espanto da garotada foi grande quando ela nos disse que a primeira pessoa do singular do presente do indicativo desse verbo era “eu caibo” e não “eu cabo”: “Vocês não são vassoura, nem rodo, nem pá. Nada de ‘eu cabo’; vamos falar corretamente”. Risadas gerais da meninada e uma lição que ficou gravada pra sempre na minha memória.

Durante muitos anos, convivi com vestibulandos e pude notar que uma das maiores dúvidas da moçada era o uso do verbo “intervir”. Percebam que o prefixo “inter” atrapalha (e muito!) nossa vida – ficamos inseguros e não raramente conjugamos esse verbo de modo incorreto. Vamos lá: o verbo “intervir” é obviamente formado por “inter” + “vir”. Quando precisarmos usá-lo, bastará esquecer o prefixo que tudo ficará mais fácil. Tentemos: como ficaria a oração “Eu não me intrometi na briga, mas o policial se intrometeu” caso substituíssemos o verbo “intrometer-se” por “intervir”?  Esqueçamos o prefixo. Então, escreveríamos: “Eu não (inter)vim na briga, mas o policial (inter)veio”. Pronto! Não é mais fácil?

Vamos falar um pouco dos verbos terminados em “IAR”. A maioria deles é conjugada normalmente, obedecendo ao seu paradigma. Por exemplo, uma oração com o verbo “anunciar“, na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, ficaria: “Eu anuncio na internet para atingir um público maior”; ou ainda o verbo “acariciar“: “Sempre que eu acaricio meu gato, ele dorme”. Até aí, nada de novo. O problema começa quando estudamos um pequeno grupo de verbos terminados em “IAR” que são conjugados como aqueles que terminam em “EAR”.

Antes de tudo, vamos ver um verbo terminado em “EAR”: “pentear“, por exemplo. Ainda utilizando os mesmos tempo, modo e pessoa dos exemplos acima, escreveríamos: “Quando me penteio, tenho a impressão de que estou perdendo cabelo”. Notem, portanto, que esse verbo recebeu um “i”: “penteio”. O verbo “passear” é outro exemplo útil: “Eu passeio pela praia todas as manhãs”. Esse mesmo processo de inclusão de um “i” ocorrerá  também com um grupo de cinco verbos terminados em “IAR”.

Nos debates que antecedem as eleições, há sempre um jornalista escolhido para mediar o evento, isto, o jornalista medeia, exerce a função de quem “atua como árbitro entre pessoas, grupos ou partidos”, segundo o dicionário.  Perceberam o “i”?

Outro verbo muito em moda ultimamente é o verbo “ansiar”. Vivemos numa sociedade ansiosa, imediatista, que deseja tudo para ontem, às pressas, sem muita paciência para aguardar resultados em longo prazo. Assim, cada vez mais “eu anseio terminar a faculdade, entrar no mercado de trabalho, abrir meu próprio negócio e ficar rico”. A ansiedade tem sido a causa de muitos males.

Vejamos agora o verbo “remediar“. “Remediar” pode ter o valor de “atenuar, tornar uma situação mais aceitável”.  Dessa forma, sempre que falta dinheiro, o governo remedeia a situação aumentando impostos e taxas. A forma é feia, mas é correta. “Maus governantes remedeiam quando deveriam solucionar os problemas do país”.

O verbo “incendiar” é conhecido de todos. Ele é empregado, nas nossas conversas, denotativa ou conotativamente, dependendo do que se deseja expressar. Noutro dia, ouvi um narrador esportivo dizer: “Tal jogador sempre incendeia a torcida com seu comportamento rebelde”.

O quinto e último verbo do qual quero falar é o verbo “odiar“. Infelizmente, muito presente nas relações humanas, o ódio vem pautando as discussões nas redes sociais, levando as pessoas à total falta de tolerância, de civilidade e de boa educação. Odeia-se por qualquer razão. Nossa sociedade narcisista não admite o diferente. “Odeio aquele que é de outro partido, de outra religião, de outro time de futebol, de outra cor de pele, de outra preferência sexual. Simplesmente odeio“. Triste!

Esses cinco verbos recebem o “i” em algumas de suas formas. Talvez as mais estranhas sejam aquelas dos verbos “mediar” e “remediar”. Eu mesmo procuro evitá-las, utilizando-as somente em último caso.

E, aqui, fica a dica que todo professor de cursinho deixa para seus alunos – a gente não perde o hábito: vejam que as inicias desses cinco verbos formam a palavra MÁRIO – mediar, ansiar, remediar, incendiar, odiar. Eles são chamados também de verbos irregulares, pois não seguem o paradigma de sua conjugação.

Voltarei oportunamente ao tema. Ele é extenso, por vezes complexo, raramente muito simples.

LIMITES
DIREITO À TIMIDEZ

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1 Comentário. Deixe novo

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    ANGELO ANTONIO PAVONE
    junho 26, 2019 5:37 pm

    Grande texto Prof. Vítor. Parabéns!!!!
    Um antídoto para a conjugação incorreta de muitos verbos é a leitura. Muita leitura. Mais leitura!!!!

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