O TEMPO

“Tudo tem a sua ocasião própria e todo propósito debaixo do céu tem o seu tempo. / Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de colher o que se plantou (…)” – Palavras do Eclesiastes, Antigo Testamento.

Tive um aluno que passou por uma séria crise quando completou… 30 anos! Eu nunca havia escutado tal coisa: para mim, era mais comum que se atravessasse isso com 50, 60 ou 70 anos, idades em que o tempo cobra mais das pessoas principalmente no que diz respeito à capacidade física. Fiquei sem ação quando soube que aquele moço estava tão mal de cabeça por simplesmente ter saído da casa dos 20. Para mim, era uma situação inusitada, pois ele era e é um rapaz muito bonito e inteligente. Terá sido acometido pela famosa “Síndrome de Peter Pan”?

O tempo é uma preocupação do homem desde que ele “começou a pensar”, eu diria… desde que tomou consciência do processo de envelhecimento e morte. A percepção de que somos frágeis e finitos nos faz humildes (ou deveria fazer), ao mesmo tempo em que nos assusta diante da “Indesejada”, como dizia Manuel Bandeira.

Todo professor de literatura ensina a seus alunos que uma das mais marcantes características do homem barroco vem a ser o seu olhar para a brevidade da vida, o fato de “estarmos neste mundo temporariamente”, havendo ou não algo depois disso. Seguindo esse raciocínio, o homem daquele período queria “aproveitar o dia”, gozar a sua existência e procurar ser feliz. Lembram-se do “carpe diem”? É isso. Mais tarde, o Arcadismo também adotará esse princípio, embora rejeitando toda a ostentação e exagero do Barroco.

Da mais conceituada literatura – como os versos de Gregório de Matos ou de Bocage – a uma canção pop – como a bela “There´s never a forever thing” do grupo norueguês A-HA – o homem sabe-se efêmero, frágil, um ser à mercê da passagem dos dias e dos anos sem a menor chance de recuperar o tempo que se foi. Marcel Proust, um dos maiores da literatura mundial, escreveu sua obra prima levando em conta exatamente essa sensação do tempo que não volta – “À la recherche du temps perdu”.

Literatura, música, cinema, teatro, pintura… para todos esses campos de atuação humana, o tempo tem sido um tema constante. Pensemos nos relógios que estão derretendo no quadro de Salvador Dali – “A persistência da memória” -, de 1931, ou na literatura fantástica de H. G. Wells com “A máquina do tempo” escrita há mais de 100 anos. Aliás, outro tema que fascina o homem vem a ser a (im)possibilidade de voltar no tempo. (Lembrou da trilogia de “De volta para o futuro”?)

Os mais velhos vão se lembrar de uma série clássica americana dos anos 60 – “The Time Tunnel” (“O Túnel do Tempo”). Dois cientistas possuem apenas 24 horas para provarem ao governo americano que o projeto vale o investimento de muitos milhões de dólares do contribuinte. Assim, Tony e Doug entram no túnel e são mandados para os mais variados momentos da história mundial. No primeiro episódio, por exemplo, grande é o susto quando se dão conta de que foram parar dentro do Titanic, horas antes de sua colisão com o gigantesco iceberg. O desafio de cada episódio é fazê-los escapar do perigo que correm. A série é boa e marcou uma geração inteira, embora muitas outras posteriores tenham contado com mais recursos tecnológicos e sejam mais atraentes para os mais jovens.

Também na década de 60, Chico Buarque lançou sua bonita canção “Carolina” : “(…)Lá fora, amor, / Uma rosa morreu / Uma festa acabou / Nosso barco partiu / Eu bem que mostrei a ela / O tempo passou na janela / E só Carolina não viu”. Nos versos do compositor carioca, o eu lírico tenta fazer com que sua amada perceba a vida que ela está perdendo, que ela está deixando se esvair porque Carolina “nos seus olhos fundos, / Guarda tanta dor / A dor de todo esse mundo”. E há uma metáfora melhor para a não-vida do que o tempo passando sem que percebamos? A vida vazia, o tempo desperdiçado, uma existência de Brás Cubas.

Lembrei-me dos versos tristes de Manuel Bandeira:

Andorinha lá fora está dizendo:
-Passei o dia à toa, à toa.

Andorinha, andorinha, minha canção é mais triste:
-Passei a vida à toa, à toa.

Tivemos um presidente que gostava de repetir que “o tempo é o senhor da razão”. O tempo mostrou quem esse governante realmente era, e o excelentíssimo acabou tendo que renunciar ao mandato depois de muitos males causados ao povo deste país. Dias muito tristes!

O tempo utilizado com sabedoria é sempre fonte de maturidade e conhecimento. O tempo bem empregado pode nos salvar de arrependimentos posteriores quando os cabelos começam a ficar brancos e nossa agilidade já não é a mesma. Nelson Rodrigues, sempre polêmico, dizia: “Jovens, envelheçam!”. O que o autor carioca queria dizer? Ele era contra a juventude? Não, mas certamente tinha consciência de que a maturidade tinha (e tem) muito mais a oferecer ao convívio humano. É certo que cada fase da vida tem sua beleza, mas fico preocupado quando ouço que agora “a adolescência vai até os 30 anos”. Como? É sério isso? Teremos que conviver com marmanjos se comportando como adolescentes desprotegidos?

Por outro lado, existem aqueles jovens que encontro com muita frequência  e que têm pressa de desfrutar os prazeres da vida reservados aos mais velhos – álcool, fumo, sexo, carros, relacionamentos amorosos, “baladas” etc. Uma moçada que tem pressa em envelhecer para “aproveitar o que a vida moderna tem de melhor”, mas que quer se manter adolescente quando o papo é responsabilidade. De novo, o Livro do Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”.

Fico torcendo para que nossos futuros médicos, advogados, engenheiros, professores, administradores, economistas, governantes não se comportem como meninos mimados quando chegar a sua hora de “mostrar serviço”. Nem a juventude tardia, nem o envelhecimento precoce. Minha avó dizia com sua pureza de gente do interior: “Criança tem que ser criança. Adulto tem que ser adulto”. E havia muita coisa por trás desse ditado…

Quero terminar este texto com um poema bonito, que conheci há muitos anos. Nele, com muito lirismo e simplicidade, a autora fala da inevitável passagem do tempo. Pura sabedoria!

A UMA PEQUENINA

Tu sabes lá que triste é ser mulher!…

Não ponhas nessa ideia longa esperança.

Sê pequenina, alegre, sê criança

Que o tempo não se esquece de correr.

Sê pequenina enquanto o possas ser

E deixa flutuar a longa trança.

Mais breve do que pensas bem se alcança

O direito fatal de envelhecer.

Sê mulher o mais tarde que puderes;

Acarinha as bonecas que tiveres,

Vai matando as saudades que virão.

Sê pequenina, alegre e descuidosa:

Se de todo botão nasce uma rosa,

Não há rosa que volte a ser botão!

Marta Mesquita da Câmara – Lisboa, 1942.

Bibliografia:

BANDEIRA, Manuel – “Andorinha” in: Estrela da Vida Inteira,  Rio de Janeiro, José Olympio, 1966, p. 121.

CÂMARA, Marta Mesquita da – “A uma pequenina”, in: Almanaque Bertrand, Lisboa, Ed. Bertrand, 1943, p. 135.

Músicas Citadas:

“Carolina” – Francisco Buarque de Hollanda, 1968.

“There´s never a forever thing” – A-HA, 1988.

Série para TV:

“O Túnel do Tempo” – (The Time Tunnel), criada por Irwin Allen, com Robert Colbert e James Darren, 1966.

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