O PODER DAS PALAVRAS

Começo este texto citando uma reflexão budista de que gosto muito e que considero muito inteligente: “Não misture palavras más com o seu mau humor. Você terá muitas oportunidades de mudar o seu humor, mas nunca terá a oportunidade de substituir as palavras que proferiu”.

Conheci algumas pessoas na minha vida que simplesmente não gostavam de certas palavras pela carga semântica que traziam e pela “energia” que podiam transmitir. Crendice ou não, minha mãe não gostava da palavra “desgraça” e do adjetivo “desgraçada(o)”; uma professora minha evitava a todo custo usar a palavra “maldição”. Isso, sem falar dos mais antigos que sempre se referiam ao câncer como “aquela doença”, “aquilo” ou “doença ruim”. Simplesmente não falavam “câncer”. Lembro-me de um amigo cujo pai não tolerava a palavra “inferno”. Uma vez, li que isso vinha da Idade Média e da crença de que, ao se proferir uma palavra, seu significado se materializava perto do falante. Daí que muitos se benzem com o sinal da cruz quando dizem termos como “inferno”, “câncer” ou “maldito”.

Como já tive oportunidade de escrever, gostaríamos sempre de encontrar a palavra exata, a palavra certa para exprimir nossas ideias, emoções, sensações e impressões, e nem sempre isso é possível: quantas e quantas vezes procuramos o termo ideal e ele não vem! Parece-me, contudo, que, ultimamente, estamos nos perdendo no simples, no básico, no trivial.

Em meio ao caos da pandemia e das opiniões divididas entre isolamento versus não-isolamento social, vejo com preocupação que o País começa a se polarizar novamente (se é que essa polarização havia terminado) entre os seguidores daquele “que está no poder” e o outro, “cujos direitos políticos parecem ter-lhe sido restituídos”. E vamos nós de novo destilar o ódio nas redes sociais; e vamos nós romper com os amigos (que nos restam) e com os parentes (que só temos visto pela tela do computador e/ou do celular); e vamos nós  reviver todo o conflito advindo da raiva, da intolerância, do cinismo e da falta de diálogo!

Situação já vista? Sem dúvida! Inevitável lembrar do escritor italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957), que, em “O Leopardo”, escreve: “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”. O livro retrata todo um cenário político que não cabe aqui resumir, mas a citação que faço tem a cara do Brasil. Aqui, quanto mais as coisas mudam, mais permanecem iguais. É desesperador, pra se dizer o mínimo.

Bem, essa situação de hostilidade, claro, reflete-se no vocabulário com que as pessoas se expressam nas mais variadas mensagens e meios – Whatsapp, Facebook, Instagram, comentários em sites de notícias e por aí vai. O que quero dizer é que estamos perdendo a gentileza, a compaixão, o olhar para a tristeza do outro. Viramos gladiadores. Vivemos nos digladiando como se estivéssemos no Coliseu de Roma.

Está lá no dicionário: “empatia”, entre outros significados, vem a ser “um processo de identificação pelo qual o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base em suas próprias suposições, tenta compreender o comportamento da outra pessoa”. Além do isolamento físico, estamos enfrentando o “isolamento emocional”, isto é, estamos nos separando de pessoas que há até bem pouco tempo nos eram caras e importantes, sem tentar entendê-las.

Em um processo de comunicação “civilizado”, fala-se enquanto o outro ouve; cala-se enquanto o outro fala. O problema é que não ouvimos para procurar o entendimento – ouvimos para responder, ouvimos para sobrepor nossa opinião e nossos conceitos. E, quando a conversa é sobre política, pandemia e vacinação, o diálogo – no melhor sentido do termo – simplesmente não existe. A não ser quando falamos com nossos iguais…

Claro que exercitar a gentileza em tempos difíceis como este não é fácil. Mas já estaríamos fazendo muito se não aumentássemos a tensão e angústia uns dos outros além do que vem acontecendo no Brasil há mais de um ano. Ainda acredito muito no poder de palavras e expressões como “obrigado”, “por favor”, “desculpe”, “penso diferentemente de você, mas nossa amizade é maior do que isso”, “mesmo distante, estou ao seu lado” e outras tantas que as pessoas sabem muito bem cunhar quando estão dispostas a isso.

Se não estamos com vontade de conversa – por este ou aquele motivo – deixemos para outra hora. Se nosso humor não está legal, façamos silêncio. Como diz a reflexão budista, a gente conserta o humor; consertar a ofensa é muito mais complicado.

Não subestimemos as palavras de carinho e apoio vindas de um amigo! Aliás, meus grandes amigos não têm ideia do bem que me fazem quando me transmitem sua preocupação e saudade: além de gentis, são capazes de escolher suas palavras com delicadeza e doçura. E isso faz muita diferença!

Para meus amigos, nestes dias difíceis, meu muito obrigado por suas palavras.

 

**********

 

III

Não digas onde acaba o dia.

Onde começa a noite.

Não fales palavras vãs.

As palavras do mundo.

Não digas onde começa a Terra.

Onde termina o céu.

Não digas até onde és tu.

Não digas desde onde é Deus.

Não fales palavras vãs.

Desfaze-te da vaidade triste de falar.

Pensa, completamente silencioso.

Até a glória de ficar silencioso,

Sem pensar.

 

Cecília Meireles, Cânticos.

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13 Comentários. Deixe novo

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    VERONICA MUCURY VIEIRA DA ROCHA
    março 24, 2021 9:46 pm

    Uauuu!
    Quanta emoção, saudades, carinho, esse texto me trouxe.
    Você sempre me surpreende amigo querido.

    Responder
  • Que lindo, sua melhor crônica, com poucas palavras, você disse tudo, obrigada.

    Responder
  • Avatar
    Shirleyne G Diniz
    março 24, 2021 11:01 pm

    Texto muito verdadeiro. Que triste realidade estamos vivendo. Que tenhamos tempos melhores.

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    Shirleyne G Diniz
    março 24, 2021 11:02 pm

    Que triste realidade estamos vivendo. Que tenhamos tempos melhores.

    Responder
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    Shirleyne G. Diniz
    março 24, 2021 11:04 pm

    Triste realidade estamos vivendo. Que tenhamos dias melhores!

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    Suzy Aparecida Colli
    março 24, 2021 11:35 pm

    Querido,
    Amo suas palavras, amo seus pensamentos e como amo você pelo que és…
    Ah ! Amo Cecilia Meireles!
    Beijo em seu coração!

    Responder
  • Avatar
    Suzy Aparecida Colli
    março 24, 2021 11:36 pm

    Querido,
    Amo suas palavras, amo seus pensamentos e como amo você pelo que és…
    Ah ! Amo Cecilia Meireles!
    Beijo em seu coração!

    Responder
  • Avatar
    Baltasar Pereira
    março 25, 2021 1:23 am

    Como é Atual esta Crônica e eu também estou sentindo isto através das Redes Sociais ou mesmo por Vídeos os sentimentos carregados de: raiva,medo, ódio de quem não pensa como nós.
    Como é bom termos opiniões diversas sobre os diversos Temas da Vida e não brigamos por isto.
    Discordar sem brigar e se as pessoas são Amigas como brigam ?
    Vivemos uma Época de muitas divisões e polarizações.
    Nesta hora Gentileza,se fazer de Surdo muitas vezes ajuda e a Amizade continua.
    Respeito a Amizade.
    Linda Poesia de Cecília Meireles.
    Linda mensagem sobre a Amizade e a importância dela.

    Responder
  • Victor: um texto atual e que acertou no coração de cada amigo! Parabéns 👋👋

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  • Ótimo. A mais pura verdade.
    Estes tempos estao mais para Me, myself and I.

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    Angelo Antonio Pavone
    março 25, 2021 1:27 pm

    Olá Prof. Vitor
    Estou sem palavras. Você já as disse todas: amizade, conforto, carinho, gratidão……
    Infelizmente nos dias de hoje com todas as mazelas que nos afligem, o capital humano se evapora…
    Parabéns pelo texto, perfeito.

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    Aurélio Lima Pereira
    março 25, 2021 1:52 pm

    As palavras têm uma magia, um quê de mistério, uma força para edificar e uma para aniquilar. Às vezes, esta para mais vigorosa do que aquela.

    Parte do embrutecimento, de que somos vítimas e agentes ao mesmo tempo, origina-se numa perda da habilidade e da familiaridade com as palavras.

    Reconforta-me saber e sentir que, de alguma maneira, cada linha dessa crônica escrita pelo Professor fortalece a chama da esperança, que, embora fraca, ainda viva!

    Obrigado!

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    Edilson Cardoso
    março 29, 2021 11:53 am

    A gentileza simplesmente “sumiu”! Triste, mas é fato! Quando percebo que a pessoa não está a fim de conversa, simplesmente recuo – isso fará bem pra ela e pra mim, claro. Não sou de levantar emburrado, pelo contrário, sempre acordo bem, mas um palavra de carinho, apoio sempre é
    bem-vinda.

    Responder

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