O pleonasmo – um vício de linguagem

Em seu conceituado livro “Comunicação em Prosa Moderna”, Othon M. Garcia afirma que “quando resulta de descuidos ou de ignorância do verdadeiro sentido das palavras, o pleonasmo constitui defeito abominável”. O pleonasmo (ou redundância) pode, realmente, tornar o texto “mais feio”, “menos apreciável” do ponto de vista estilístico – e mais: pode fazer com que seu autor passe um certo vexame.

O professor Domingos Paschoal Cegalla, por sua vez, informa que “o termo pleonasmo vem do grego ‘pleonasmós’, superabundância” e faz a distinção entre o pleonasmo vicioso (a ser evitado!) e o pleonasmo estilístico, aquele usado intencionalmente a fim de se conferir mais intensidade e realce a determinada expressão. O chamado “pleonasmo estilístico” pode ser exemplificado por construções como “Vi tudo com esses olhos que a terra há de comer” ou “A mim, parece-me que tudo vai bem”. São construções que dão força à ideia que se quer transmitir, embora sejam desnecessárias.

É evidente que alguns pleonasmos viciosos são facilmente identificáveis e, por isso mesmo, evitados na construção de textos que se querem mais sérios e respeitados.  Expressões como “subir para cima”, “descer para baixo”, “entrar para dentro” e “sair para fora” não devem, obviamente, ser utilizadas. O problema, contudo, diz respeito mais aos pleonasmos não tão evidentes assim, isto é, aquelas expressões para as quais não prestamos atenção no dia a dia e que constituem, para a surpresa de muitos, redundâncias e repetições desnecessárias e feias estilisticamente falando.

Em uma de suas mais conhecidas músicas, Roberto e Erasmo Carlos cometem um pleonasmo muito comum em nossas conversas diárias. “Detalhes” é uma música na qual o eu lírico dirige-se a um antigo amor e, diante da separação, vai enumerando as razões pelas quais esse caso permanecerá na memória de ambos para sempre. A certa altura, vemos os versos “Detalhes tão pequenos de nós dois / são coisas muito grandes pra esquecer / e a toda hora vão estar presentes / você vai ver”. A canção vai se estruturando em antíteses e metáforas – recursos próprios da linguagem poética – e é claro que “detalhes tão pequenos” opõe-se a “coisas muito grandes”, expressões com as quais os autores vão construindo as oposições entre o que foi o caso amoroso e o que tem sido a separação. A licença poética é perfeitamente compreensível, sem problema algum, e cito a letra da música apenas como ilustração. Agora, nos textos mais formais, deve-se evitar qualquer adjetivo que traga a ideia de tamanho ou dimensão para o substantivo “detalhe”. E por qual razão? Pelo simples motivo de que “detalhe” já é uma parte mínima de um conjunto. “Pequeno detalhe”, portanto, é uma repetição desnecessária.

O termo “panorama” também vem do grego: “pan” (todo) + “orama” (vista), isto é, tudo o que se vê, tudo o que está à vista. Assim, as expressões “panorama geral”, “panorama total” e variações também se mostram repetições que não levam em consideração o prefixo grego e sua significação de “totalidade”. É muito comum lerem-se construções como “O panorama geral da economia é preocupante” ou “O panorama geral da situação requer a análise de especialistas”.”Panorama” já é uma visão geral, não carece de adjetivos como “total”, “geral” etc.

Muitas vezes, em sala de aula, ouvi perguntas como estas: “Professor, Brás Cubas é o protagonista principal do livro?” ou “Qual o protagonista principal de Vidas Secas – a família de Fabiano ou a seca do nordeste?”. O leitor já percebeu o problema, é claro: se é protagonista, só pode ser principal – nunca vimos um protagonista ganhar Oscar de autor coadjuvante!

Outro exemplo bastante significativo de um pleonasmo, digamos, traiçoeiro, vem a ser a expressão “outra alternativa”. Aqui, é só lembrar que o termo “alternativa” vem do latim “alternar”, “revezar”. Melhor dizer, diante de determinada situação, que alguém não teve “outra opção”. “Outra alternativa” é uma redundância.

Certa vez, chegou-me às mãos uma redação de um aluno que, ao resumir um livro, dizia que a personagem havia falecido de “hemorragia de sangue”. Isso foi no começo de minha carreira, quando eu dava aulas para meninos e meninas do que hoje se chama Ensino Fundamental. Não pude deixar de rir diante da inocência do garotinho e acabei por corrigi-lo com bastante cuidado.

Quando vamos ao cinema, é muito comum assistirmos a filmes que, segundo nos informam na tela, foram “baseados em fatos reais”. Eis aí outro pleonasmo camuflado, escondido, traiçoeiro: se determinada obra foi “baseada em fatos”, é porque levou em consideração a realidade. Fato, segundo nos informa o Dicionário Houaiss, é “ação ou coisa feita, ocorrida ou em processo de realização; algo cuja existência pode ser constatada de modo indiscutível”; a palavra, portanto, dispensa o adjetivo “real”. Se é fato, é verdadeiro.

Qualquer pessoa que deseje alcançar o mínimo de sucesso com algum projeto, deve, logicamente, observar os prós e os contras de tal ideia, examinar se o que deseja alcançar é viável, quais são ou quais serão os obstáculos, o que deve ser feito etc. Estou falando aqui de um componente muito importante quando se quer que algo dê certo: planejamento! É lógico, portanto, que o planejamento deve ser feito antes de se pôr em prática tudo o que se tem na cabeça. Por que dizer, então, “planejamento antecipado”, uma vez que planejar sempre vem primeiro?

Nas transmissões de futebol, por exemplo, é muito comum ouvir-se que tal jogador é um importante “elo de ligação entre a defesa e o ataque”. Ora, um elo é uma conexão, uma vinculação – o elo é aquilo que liga… assim, a palavra dispensa o uso do substantivo “ligação”. Basta dizer que “tal jogador é o elo entre a defesa e o ataque”.

Entendo que, quando se quer falar da coragem de uma pessoa, a expressão “encarar de frente” dá conta do recado. Ela, todavia, acaba sendo uma redundância – é possível encarar alguém ou alguma coisa permanecendo-se de costas? “Encarar de frente” é tão usada, que as pessoas não percebem o que estão dizendo. Em textos mais formais, deve se evitada.

Os exemplos são numerosos. Eu poderia citar aqui vários outros como “surpresa inesperada”, “conclusão final”, “conviver junto”, “ser surdo do ouvido”, “repetir novamente” etc. A lista é imensa.

Segundo alguns gramáticos, até mesmo o emprego do verbo “preferir” com o advérbio “mais” seria uma redundância, uma vez que “preferir” já significa “gostar mais”. Vale lembrar que “preferir” é um verbo transitivo direto e indireto e rege a preposição “a”: “Prefiro doce a salgado”.

Como se pode ver, nem sempre o pleonasmo é escancarado como “subir pra cima” e “descer pra baixo”. Com muita frequência, somos ludibriados por expressões que ouvimos e que vamos repetindo em nossas conversas. Novamente, caímos na questão da linguagem de norma padrão – que condena os pleonasmos viciosos –  e da linguagem coloquial – que parece não prestar muita atenção a eles. O importante, sempre digo, é que saibamos nos adequar à situação em que nos encontramos.

Não acho que as pessoas vão parar de utilizar, em uma mesma oração, o verbo “haver” e o advérbio “atrás” – mesmo porque isso é condenável apenas estilisticamente. Penso, porém, que é sempre útil repetirmos que ou se usa um ou se usa o outro – os dois juntos são uma redundância. Não é preciso dizer: “O homem pisou na Lua há 50 anos atrás”. Basta que se diga “O homem pisou na Lua há 50 anos” ou “O homem pisou na Lua 50 anos atrás”.

Evitar o pleonasmo é mais fácil, mais simples e mais elegante.

 

Bibliografia:

CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, São Paulo, Lexikon, 2009, p. 309.

CUNHA, Antonio Geraldo da. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, São Paulo, Nova Fronteira, 1992, p. 35.

GARCIA, Othon M. Comunicação em Prosa Moderna, São Paulo, Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1988, p. 272.

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