O MITO DA TERRA PROMETIDA

 

“Mister, I ain´t a boy, no, I´m a  man

And I believe in a promised land ”

Bruce Springsteen

 

Quando eu tinha 15 anos, minha mãe fez a mim e ao meu irmão do meio, então com 12, um convite inusitado. Era a 6ª Feira Santa de 1979, e ela nos chamava para acompanhá-la ate o cinema. Digo “convite inusitado” porque, com aquela idade, nós já íamos ao cinema, mas com primos e amigos, para ver “Tubarão”, “Piranha”, “Terremoto” e coisas do tipo. Quando se é adolescente, ir ao cinema com pai e mãe pode ser a coisa mais chata do mundo!

Minha mãe, no entanto, nos convidava para um filme cuja existência não conhecíamos – primeiro, por ser bastante antigo; depois, porque possuía um cunho religioso que não seduzia a moçada, é claro. Lembro-me de que, naquele feriado, fomos ao Largo do Paissandu, centro de São Paulo, no Cine Ouro, ver “Os Dez Mandamentos”.

A superprodução hollywoodiana, de 1956, com Charlton Heston, Yul Brynner e Anne Baxter, dirigida por Cecil B. DeMille, e de quase 4 horas de duração, costumava atrair multidões ao cinema. Havia até um intervalo no meio do filme para que as pessoas pudessem ir ao “toilete” , depois comprar pipocas e refrigerantes antes de acompanharem Moisés em sua grande aventura de libertar o povo hebreu da escravidão no Egito. A divisão do filme era clara: a primeira parte terminava com Moisés recebendo de Deus a incumbência de voltar ao país africano para tirar seu povo de lá. A segunda parte se iniciava exatamente com essa volta – já um homem profundamente mudado por ter estado na presença do Criador.

Espetáculo cinematográfico à parte – eu me lembro de que eu e meu irmão ficamos boquiabertos com a abertura do Mar Vermelho, por exemplo -, o filme só começou a fazer mais sentido para mim muito mais tarde, quando comecei a estudar outros temas que me remeteram àquela sexta-feira de 1979. Claro que, ainda meninos, nós ficamos hipnotizados pela grandiosidade da produção e também por sua mensagem religiosa (fomos criados em uma família católica): os Dez Mandamentos da Lei de Deus que deveriam ser respeitados se quiséssemos ser cidadãos de bem.

A mensagem, obviamente, era mais profunda. Juntamente com as sagradas tábuas da lei divina, Moisés deveria conduzir seu povo à  “Terra Prometida”, um lugar onde os hebreus gozariam da liberdade e não sofreriam mais sob o jugo dos egípcios. A história, todos conhecem: por ter ofendido a Deus, Moisés é condenado a não entrar naquele que seria o território prometido aos hebreus. Ainda assim, era um herói! Joseph Campbell, uma das maiores autoridades no campo da mitologia do século 20,  fala-nos da “Jornada do Herói” : “O herói é alguém que deu a vida por algo maior que ele mesmo (…) Seu objetivo moral é o de salvar um povo, ou uma pessoa, ou defender uma ideia”.

Vendo esse filme, foi a primeira vez em que tomei contato com o “Mito da Terra Prometida”. A metáfora parece-me bastante clara quando se pensa na aventura empreendida por Moisés e seu povo: a imigração como solução para o sofrimento, a escravidão, a falta de dignidade, a fome, a miséria e a morte precoce. A situação de desconforto e de tragédia e a consequente necessidade de mudança.

Muitos anos depois, descobri Graciliano Ramos. Embora eu não soubesse, “Vidas Secas” já fazia parte de minha vida, uma vez que meu pai era do Piauí e, durante toda a minha infância, vi chegarem primos a São Paulo procurando emprego e uma vida mais digna sem a pobreza que os assolava no nordeste brasileiro. Vi, na família de Fabiano, pessoas que me eram “conhecidas”, pessoas com cuja tristeza e desolação eu tomara contato desde muito cedo. O que Fabiano, Sinha Vitória e os meninos estão procurando no capítulo final chamado de “Fuga” a não ser sua terra prometida? Prestemos atenção aos verbos no Futuro do Pretérito utilizados pelo autor no fim do livro. “Pouco a pouco uma vida nova, ainda confusa se foi esboçando. Acomodar-se-iam num sítio pequeno (…) Cultivariam um pedaço de terra. Mudar-se-iam depois para uma cidade, os meninos frequentariam escolas, seriam diferentes deles (…) Iriam para diante, alcançariam uma terra desconhecida. Fabiano estava contente e acreditava nessa terra, porque não sabia como ela era nem onde era (…) E o sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, sinha Vitória e os dois meninos”.

Em seu brilhante ensaio “Céu, Inferno”, o professor Alfredo Bosi afirma: “O modo condicional ou potencial (e não o simples futuro do presente) registra a dúvida com que a visão do narrador vai trabalhando o pensamento das personagens… o perto se faz longe” – porque longe está a terra prometida que querem alcançar, eu diria.

Quando dava aulas a vestibulandos, eu procurava incentivá-los a serem heróis de suas próprias vidas para que pudessem alcançar sua “terra prometida” – no caso, a tão desejada faculdade. Ainda que o termo “herói” esteja desgastado por todo aquele discurso piegas das conquistas esportivas, penso que a palavra ainda traga um significado de nobreza, mesmo se pensarmos em nível individual, isto é, a pessoa que saiu de sua condição inicial, aventurou-se à procura de sua evolução e retornou com sua conquista.

Enquanto a terra prometida para meus alunos era a aprovação no vestibular e a entrada na faculdade, esse mito se modificava à medida que eles cresciam e mudavam seu foco. Eu dizia: “A terra prometida para vocês, hoje, é a faculdade; amanhã, será um bom emprego; depois, ter filhos (no caso de alguns) e assim sucessivamente. Estamos sempre à procura de nossa terra prometida, onde alcançaremos aquilo que nos é de direito, porque lutamos para alcançá-lo”.

Hoje, ficamos chocados com as imagens de imigrantes africanos tentando entrar na Europa para fugir da miséria, mas morrendo no mar em embarcações sem qualquer condição de transportar tanta gente desesperada procurando… sua terra prometida. No nosso continente, são milhares de pessoas tentando entrar nos Estados Unidos, apesar de todo o discurso de Donald Trump. O que pode levar alguém a procurar a felicidade longe de seu lar? O desespero certamente…

Assim como para um solitário a terra prometida (e a felicidade) seria encontrar o amor, para um doente a alegria suprema seria a cura, a notícia de que não é mais vítima daquela mal. Se a terra prometida para o jogador é a vitória do campeonato, para o diretor de teatro é a casa cheia noite após noite. De um lado, o cantor cercado de fãs; de outro, o escritor vendendo muitos livros. O avô encontra sua terra prometida ao ver seus filhos criados e seus netos nascendo; o empresário, por sua vez, encontra essa terra com o sucesso de seu negócio.

Para o altruísta, a realização está na doação; para o egoísta, a terra prometida é alcançada sempre que ele é posto em primeiro lugar à frente de todos.  Aos mais espiritualizados, àqueles que não se satisfazem com a estada neste mundo, a terra prometida vem no pós-morte, naquela promessa de que, aí sim, encontrarão a felicidade que não é deste planeta.

De qualquer forma, somos movidos por esse mito, ou, se quiserem, somos movidos por nossos sonhos. As pessoas experimentam a sensação de estarem vivas quando realizam algo que vai além delas – a geração de um filho, uma descoberta científica, o encontro do verdadeiro amor, o conhecimento, a maturidade, a sabedoria, o encontro da paz interior, a capacidade de viver em sua própria companhia sem a dependência de outros e assim sucessivamente.

A “Terra Prometida” varia de pessoa para pessoa, no eixo do tempo e do espaço. Nossa ideia de felicidade vai mudando de acordo com nossa idade, bem como de acordo com a cultura em que somos criados e na qual crescemos.

Quero terminar este texto com uma citação do professor Campbell. Vale a pena refletir sobre ela: “Existem cerca de 18 bilhões de células só no cérebro. Não existem dois cérebros iguais; não existem dois seres humanos iguais. Você pode receber ordens e orientação de terceiros, mas precisa encontrar o seu caminho. O que estamos buscando? Realizar aquilo que é o potencial em cada um de nós. E não existe nada mais importante do que essa realização. Mitos são histórias sobre a sabedoria de vida”.

 

 

 

Bibliografia:

BOSI, Alfredo. Céu, Inferno, São Paulo, Ática, 1988, pp.10-14.

CAMPBELL, Joseph; MOYERS, Bill. O poder do mito, São Paulo, Palas Athena, 1997, pp. 131-132.

CAMPBELL, Joseph. Mitos e Transformação, São Paulo, Ágora, 2008, pp. 130-131.

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas, Rio de Janeiro, Record, 1989, pp. 125-126.

Discografia:

SPRINGSTEEN, Bruce . “The Promised Land“, in: Darkness on the edge of town, Columbia Records, 1978.

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5 Comentários. Deixe novo

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    Angelo Antonio Pavone
    agosto 1, 2019 11:25 pm

    Estou sem palavras. Texto brilhante
    Leva-nos imediatamente para uma reflexão
    Para mim particularmente que senti na pele a ansiedade e a perplexidade da busca pela terra prometida
    Oh Lord
    Parabéns Prof Vitor

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  • Avatar
    Omar Fadil Bumirgh
    agosto 2, 2019 3:02 pm

    Mais um belo e elucidativo texto, do mestre Vítor.

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  • Vitão: essa crônica nos faz refletir demais sobre cada fase da nossa vida. Parabéns mais uma vez. Abraço, Bob

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    Suzy Aparecida Colli
    agosto 17, 2019 2:04 pm

    É sempre um grande prazer ler seus textos.
    Eles são de uma sensibilidade ímpar…
    Parabéns!

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  • Admirável condução do texto! Adorei a narrativa e as metáforas, me renderam bons momentos de reflexão.

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