O cidadão Fabiano… Cidadão?

“Viver é a coisa mais rara do mundo. 
A maioria das pessoas apenas existe.”
– Oscar Wilde

Sempre que sou chamado para dar aulas e palestras sobre Vidas Secas – um dos livros mais importantes da literatura nacional -, eu costumo dizer que ele traz duas grandes tragédias.

A primeira delas é a história em si: a saga de Fabiano, de Sinha Vitória e dos dois meninos. Um quadro sombrio de seca, de fome e de miséria (física e intelectual) e de total ausência de dignidade na vida de personagens animalizadas, vítimas do meio em que vivem – tudo isso sob o olhar crítico de um dos grandes nomes da chamada Segunda Geração do Modernismo Brasileiro ou Romance do Nordeste.

A segunda tragédia diz respeito ao fato de que, passados mais de 80 anos, a obra ainda pode ser lida como um retrato da melancólica e lamentável realidade de tantas pessoas em algumas paisagens inóspitas do nordeste brasileiro. Provavelmente, nem Graciliano Ramos tenha imaginado que o livro ainda se mantivesse tão atual depois de tanto tempo! E isso é muito triste.

Não é minha pretensão aproveitar este espaço para analisar a obra como um todo, mas, uma vez que seus capítulos guardam certa independência, quero me ater ao episódio em que Fabiano vai à cidade comprar mantimentos e querosene – e acaba encontrando o famoso Soldado Amarelo. Este será o antagonista daquele em uma passagem que causará indignação ao leitor minimamente sensível. E por quê? Porque a cena descrita é uma cena de desrespeito, covardia e abuso de poder. O capítulo recebe o título de “Cadeia”.

Fabiano, como se sabe, é simplório, bicho do mato, analfabeto e apresenta uma dificuldade enorme de expressar o que pensa e sente. É um homem oprimido e hostilizado pelo meio. Vai à cidade fazer as compras necessárias para a família e, a certa altura, o tal do Soldado Amarelo bate amigavelmente em seu ombro… talvez farejando uma vítima de sua prepotência. “Como é, camarada? Vamos jogar um trinta e um lá dentro?”. Diante da autoridade, Fabiano demonstra respeito e subserviência. Levanta-se da calçada onde estava sentado e segue o soldado. Como nos informa o narrador, “Fabiano sempre havia obedecido. Tinha muque e substância, mas pensava pouco, desejava pouco e obedecia”. Assim, não é de se estranhar que, diante da proposta de um carteado com o militar, Fabiano acabe por concordar, mesmo com culpa, pois sabe que, em casa, Sinha Vitória e os meninos esperam-no com os artigos de que necessitam.

Fabiano aventura-se no jogo regado à bebida e tanto ele quanto o militar acabam perdendo para os outros homens. O vaqueiro, irritado, abandona a mesa, ainda que o militar o interpele. Não atendido, o soldado vai atrás dele e faz valer sua autoridade: dá-lhe um empurrão e o atira contra um jatobá. Enquanto isso, o leitor é informado de que “o doutor juiz de direito foi brilhar na porta da farmácia”. O sertanejo, apressado e preocupado, tenta tomar o rumo de casa, mas é novamente empurrado pelo soldado que o insulta porque Fabiano “tinha deixado a bodega sem se despedir”. O matuto defende-se dizendo que não é culpado de o soldado perder seus pertences no jogo. Sem uma boa razão para brigar e na falta de argumentos, o militar crava o salto de sua botina no pé de Fabiano. O vaqueiro, irritado, xinga a mãe do outro; o soldado apita e “em poucos minutos o destacamento da cidade rodeava o jatobá”.

O que vemos em seguida é Fabiano de joelhos (posição emblemática), já na cadeia, recebendo um golpe no peito e outro nas costas para, logo após, ser arremessado para a cela escura… que falta faz um advogado de defesa!

Preso com violência e desmesurado rigor, o sertanejo sente-se indignado, supõe ter sido preso por engano, pois não consegue entender o que poderia ter feito para tamanha punição. Em suas “reflexões”, recusa-se a associar o Amarelo ao Governo, pois “Governo, coisa distante e perfeita, não podia errar (…) não devia consentir tão grande safadeza”. Em sua pureza, não consegue associar a crueldade de sua prisão à concepção que ele tem de autoridade decente e correta. Somos informados de que Fabiano “vivia (…) agarrado aos bichos. Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares”. Continua matutando, e chega à conclusão de que sempre aguentou tudo por causa da família, pelo amor que tem à esposa, aos filhos e à cadelinha Baleia. E a família era tudo o que o impedia de fazer loucuras – como se vingar, por exemplo.

O livro foi publicado em 1938, época em que o país encontrava-se sob o chamado Estado Novo, de Getúlio Vargas. O Estado Novo durou de novembro de 1937 a outubro de 1945, caracterizando-se pela centralização do poder, pelo nacionalismo, pelo anticomunismo e pelo autoritarismo. Por mais que em seus devaneios (e por causa de sua ingenuidade) Fabiano não quisesse associar o comportamento do Soldado Amarelo ao Governo, a atitude do cabo reflete em muito a política daqueles dias. Como em um processo metonímico, o Soldado que trata Fabiano com tanta arrogância e impiedade representa o regime sob o qual o país se encontrava à época do lançamento do livro. Nada mais característico de um regime totalitário do que o abuso de poder, situação na qual os DIREITOS do cidadão geralmente são desrespeitados, vivendo-se sob constante medo e opressão.

A submissão de Fabiano é tanta que, a certa altura do capítulo, é dele a reflexão de que é necessário paciência, uma vez que “apanhar de governo não é desfeita”, pois “Governo não podia errar”.

A interação das duas personagens situadas em polos tão distintos acentua o caráter daquele que, supostamente, deveria zelar pela ordem e pela justiça – e não promover o conflito por um capricho pessoal como uma ofensa por ter sido deixado à mesa de um jogo de cartas. Se me fosse questionada uma característica fundamental do tal soldado, eu certamente responderia “abuso de poder”, a “Síndrome da Pequena Autoridade”, fenômeno bastante comum por parte daqueles que nada mandam, mas precisam ostentar sua posição.

Dessa forma, talvez pudéssemos analisar as posições e ações de Fabiano e do militar por meio do seguinte octógono semiótico:

Um vez que a CIDADANIA possa ser definida pela tensão dialética entre DIREITOS e DEVERES, isto é, pelo conjunto de obrigações que um indivíduo tem para com a sociedade e o conjunto de tudo aquilo que ele pode exigir dela, respectivamente, encontraremos Fabiano (e família) longe dessa condição – e essa é uma das grandes denúncias feitas pelo livro. O sertanejo, sua esposa e seus filhos ilustram o que se pode chamar de POVO no octógono: pessoas (animalizadas) que devem cumprir suas obrigações sob pena de punições severas (vindas da Igreja, do Governo ou do dono da fazenda, por exemplo), sempre de uma forma vertical, de cima para baixo, mas indivíduos cujos direitos não são reconhecidos, resultando na falta de dignidade que se quer realçar aqui na figura desses tipos humanos quase indigentes.

A condição de Fabiano e família remete-nos àquela famosa e bela canção de Zé Ramalho, “Admirável Gado Novo”, cuja letra fala exatamente da massa, do povo que precisa “dar muito mais do que receber”, um povo que possui DEVERES, mas DIREITO nenhum. A certa altura da mesma música, ouvem-se os seguintes versos: ” O povo foge da ignorância / Apesar de viver tão perto dela / E sonham com melhores tempos idos / Contemplam essa vida numa cela…”. (Teria o cantor paraibano estabelecido uma intertextualidade com o livro do escritor alagoano?)

Independentemente de partidos políticos, a dignidade humana só seria possível quando essa tensão dialética entre DIREITOS e DEVERES fosse alcançada. Tanto a canção quanto o livro descrevem um certo desarranjo histórico entre esses dois polos no Brasil. A justiça e o respeito ao ser humano deveriam ser bandeiras de qualquer e todo posicionamento político.

No outro extremo, encontraremos o covarde soldado, símbolo da autoridade e da ordem, fazendo um mau uso de sua farda e de sua figura representativa da justiça e da lei. Melindrado e sentindo-se ofendido pelo “paisano”, o militar acha-se no direito de subjugá-lo, humilhando-o pela força com a ajuda de seus companheiros de profissão. Seria um exagero, talvez, situá-lo na esfera de uma ELITE – definida acima como a combinação perversa da presença de DIREITOS e a “ausência” de DEVERES -, pois ele também é um zé ninguém; diz o ditado, contudo, que “para quem não tem nada, metade é o dobro” – e ele possui um trabalho, um posto, uma vestimenta que lhe confere o poder (mal utilizado) para se impor diante daquele que nada tem, nada sabe e que vive uma “vida de gado”, sempre “agarrado aos bichos” e sendo confundido com eles.

Uma outra análise óbvia do Soldado Amarelo diz respeito ao título que ele recebe: ao mesmo tempo em que a cor alude à farda, alude também à covardia de se aproveitar de um homem simples, xucro, humilde e submisso como Fabiano, símbolo de tantos outros iguais a ele sem qualquer esperança de uma vida melhor.

Penso que, enquanto estão trabalhando na fazenda, Fabiano e família ainda podem ser considerados POVO; a partir do momento em que são obrigados a voltar para a estrada em busca de outro lugar porque a seca se aproxima novamente, são levados à condição oposta de CIDADANIA – o símbolo de “conjunto vazio” remete à FALTA de DIREITOS e DEVERES, isto é, relega a família de Fabiano a uma miséria existencial tão intensa quanto a de uma personagem de Dostoiévski. Quem se importa com o fato de estarem vivos ou mortos?

Mais adiante, os dois homens terão um novo encontro. No capítulo “O Soldado Amarelo”, a covardia do militar ficará ainda mais evidente. Fabiano, entretanto, provará ser muito mais civilizado do que se pode imaginar: sentindo raiva, depois pena e compaixão, concluirá  que a vingança não traz benefícios a ninguém – mesmo quando é isso que o leitor deseja após tanta injustiça e sofrimento enfrentados pelas personagens deste grandioso livro.

O pleonasmo – um vício de linguagem
Quando a mudança de sentido vem com a mudança de gênero

Posts relacionados

No results found

1 Comentário. Deixe novo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Preencha esse campo
Preencha esse campo
Digite um endereço de e-mail válido.

Menu