O CHAVÃO

Quem nunca usou um chavão na vida? A todo instante, usamos e somos bombardeados com frases feitas, aquelas que já “caíram na vida” e nos poupam da elaboração de algo original e bem formulado. Sejamos sinceros: o chavão é irmão da preguiça!

Quando eu dava aulas de Redação para vestibulandos, uma das primeiras recomendações que eu tinha de passar para a garotada era: “Evitem os chavões, pois eles enfraquecem a argumentação e o texto como um todo”. E, no pacote, eu incluía os provérbios que, por mais sábios que fossem, também estavam gastos e já não impressionavam (como não impressionam) o leitor.

Uma das minhas recomendações era que, se o aluno decidisse usar um provérbio muito conhecido, que usasse uma paráfrase, isto é, que reproduzisse o tal provérbio com suas próprias palavras. Por exemplo, no lugar de “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”, que ele escrevesse alguma coisa como “mais vale o pouco que é nosso do que o muito alheio” (entre outras possibilidades, claro).

Eles, os chavões, são tantos que eu poderia preencher muitas páginas se quisesse fazer uma lista com essas expressões. Tenho aqui na minha biblioteca um livro muito divertido chamado “Homem Chavão”, da Panda Books. Eu estava relendo e isso me motivou a escrever este texto. Vamos ver alguns exemplos…

Já repararam que existem muitos chavões com bichos um tanto nojentos? Quem nunca ouviu “Me joga na parede e me chama de lagartixa”? Horrível! Ou então “Fulano é grudento como carrapato”. E esta: “Este lugar é um ninho de cobras” para se descrever um ambiente povoado de gente “bacana”. Nos anos 70, surgiu a gíria “não tem grilo” para se falar de uma situação sem problemas. O coitado do grilo não tem nada com isso.

O livro também enumera os chavões usados para a primavera. O que acham os leitores? A primavera é “a estação das flores”, “a estação mais romântica do ano”, “a estação que chega para encher nossas vidas de cor e aroma” e esta que é de amargar: “a estação na qual o amor floresce”. Nossa!

Uma vez, ouvi de uma senhora no metrô que seu filho era médico e ela estava bastante orgulhosa. O rapaz, segundo ela, acabara de se formar. Depois de uma pausa, ela sorriu pra mim e disse: “O senhor sabe, abaixo de Deus estão os médicos”. Ouvi aquilo e demonstrei respeito, mas achei um exagero… mesmo para uma mãe orgulhosa de seu filhote. Lembro de ter ouvido muito esse chavão sobre os médicos quando criança também. Fascinação pouca é bobagem!

E esse negócio de falar que “Deus é brasileiro”, minha gente? Escuto isso em tudo o que é situação… sobretudo na Copa do Mundo, quando a seleção se classifica no aperto. Chavão puro! Também temos: o Brasil “está deitado em berço esplêndido”, “é um gigante adormecido”, “é uma terra abençoada”, “é o país do futuro” e “tem uma gente muito amiga”.

Os chavões também se estendem para o mundo da música. O citado livro traz, por exemplo, alguns utilizados para os Rolling Stones. São eles: “vovôs garotos”, “dinossauros do rock”, “a banda do pai da Luciana Gimenez” e por aí afora. Para o Iron Maiden: “os vovôs do rock pesado”, “o grupo que tem o Eddie como mascote”, “a banda do vocalista piloto de avião” e “a banda que desde o primeiro Rock in Rio tem uma relação de amor com o Brasil”. Criatividade zero!

Há as perguntas-chavão para os professores de inglês, dúvidas sempre presentes nas salas de aula: “Você já morou fora?”, “Você deve ganhar uma fortuna dando aula nesta escola”, “Em que faculdade você se formou?”, “Minha professora da outra escola tinha uma outra pronúncia…”, “Qual a diferença entre ‘to’ e ‘for’?” “Eu não entendo você porque você fala inglês britânico, e eu só falo o inglês americano”. E por aí vai! Haja paciência!

No cursinho, quando os temas de redação eram relacionados à política, o aluno “engajado” sempre vinha com chavões em seu texto. Cansei de ler coisas como: “Enquanto as elites não se conscientizarem, o país ficará assim”; “Isso (qualquer coisa) é culpa de uma elite que só pensa em fazer compras em Miami”; “Os Estados Unidos são imperialistas, abaixo o Tio Sam”; “A revolta virá do campo, as cidades serão tomadas” e coisas desse calibre. Até fazer com o que aluno percebesse como tudo isso era ruim em um texto, o ano já tinha terminado.

Acho que essa é a armadilha do chavão: ele nos dá a ilusão de que estamos arrasando na escrita e no estilo. Ficamos contentes porque pensamos que, ao utilizarmos essas expressões, o leitor ficará do nosso lado. Isso é um engano. No caso de textos mais sérios, a chamada “frase feita” depõe contra quem escreve, pois desperta a aversão no leitor mais qualificado.

A propósito do provérbio citado acima – “Mais vale um pássaro na mão do que dois voando” –, sobre o qual eu recomendava uma paráfrase aos alunos, aconteceu um episódio inesquecível. Tentando fugir do chavão, um aluno veio me mostrar um texto no qual, no lugar do citado e batido ditado, ele havia escrito: “Mais vale um peito na mão do que dois no soutien”. Quando, segurando a risada, falei para tirar aquilo do texto, ele ficou bravo e me chamou de puritano.

Termino o texto com um chavão: vida de professor…

 

 

 

Sugestão de leitura:

Homem Chavão, vários autores, Panda Books, São Paulo, 2004.           

                       

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3 Comentários. Deixe novo

  • Avatar
    Baltasar Pereira
    agosto 29, 2020 4:27 am

    Ao terminar de ler esta Crônica eu fiquei interessado em ler o livro
    ” O Homem Chavão “, pois realmente vamos nos utilizando de palavras chavões e normalmente acabam sendo chatas e até indelicadas e não percebemos isto

    Gostei dos exemplos citados.

    À idéia da paráfrase foi muito boa.

    Utilizar-se da Criatividade nestes momentos enriquecendo nosso vocabulário.
    Bela Crônica

    Responder
  • Muito bom, me fez pensar em minhas redações, vou me policiar agora quando for escrever, obg.

    Responder
  • Avatar
    Angelo Antonio Pavone
    agosto 30, 2020 9:16 pm

    Olá Prof Vitor
    Texto interessante e muito útil, principalmente para quem trabalha com a escrita. É preciso muita atenção para fugir às tentações do uso de chavões pois são utilizados amiúde na linguagem coloquial
    Parabéns

    Responder

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