O CACÓFATO

Em seu Dicionário de Termos Literários, o professor Massaud Moisés traz a definição do cacófato: “Do latim cacophaton, concorrência de sons desagradáveis, do grego kakós, mau, phaton, que pode ser dito ou expresso”. Daí, temos “cacofonia”, isto é, um som desagradável.

A cacofonia, informa o professor, “consiste no encontro desagradável de sons, geralmente por negligência”, ou seja, descuido de quem escreve e fala. É o antônimo de “eufonia – um som agradável.

Assim como o pleonasmo (redundância), o cacófato é bastante traiçoeiro. Traiçoeiro porque quem o comete nem sempre percebe o que fez – ele normalmente será notado pelo  ouvinte, talvez um pouco menos pelo leitor. Quantas vezes construídos um som desagradável e nem notamos!

Às vezes, por pressa ou por simples falta de atenção, provocamos o encontro de duas palavras que acabam gerando uma terceira, de cunho obsceno ou de mau gosto, o que pode estragar uma frase quando a situação não o permite. Vamos a alguns exemplos?

Certa vez, num jogo da Seleção Brasileira, um narrador soltou: “Mazinho pediu a bola e Cafu deu”. Impossível não rir. Não me lembro da reação do próprio narrador, mas ficou engraçado. Outra vez, em um programa televisivo de culinária, a apresentadora disse: “Não gosto de descascar alho”. E ficou por isso mesmo. Vamos em frente. E o crítico de cinema que disse ter gostado de um filme cuja “temática gay era muito bem explorada pelo diretor fulano de tal”?

Viram as armadilhas? Obviamente, já deu pra notar que o cacófato ocorre com frequência entre a última sílaba de uma palavra e a primeira sílaba da palavra seguinte. Dessa forma, é sempre bom tomar cuidado com a linguagem falada e com a combinação de palavras a serem proferidas, principalmente em situações formais como palestras, aulas e reuniões corporativas. O caso não é de puritanismo, mas de bom gosto.

Muito comuns nas brincadeiras de escola entre a molecada, há os cacófatos que todos conhecem, principalmente porque geram ambiguidade, isto é, um jogo de palavras com duplo sentido. Quem não se lembra de “Desculpe então” ou “Vou-me já”?

Há outros, porém, aos quais a gente não presta muita atenção. “Já que tinha resolvido o problema, o rapaz foi para casa”, “O marido brigou com a esposa e pôs a culpa nela por sua tristeza”, “Nenhuma emissora de TV havia dado essa notícia”, “Governo confisca gado de fazendeiros criminosos”. E por aí vai. A lista é imensa.

Tenho alguns colegas de profissão que não consideram erro quando um aluno mais desavisado comete um cacófato em seu texto escrito. São professores mais tolerantes, menos conservadores… e concordo com eles. Acho que os alunos devem ser alertados, isso sim. O que não dá é pra aceitar cacófatos vindos de profissionais que lidam todo o tempo com a comunicação, como advogados, publicitários, professores, jornalistas etc. E repito: os cacófatos causam mais estragos na língua falada do que na escrita. É bom evitar coisas como “A gente tinha pouco tempo”, “Ela tem demais na equipe”, “Paguei um real por cada laranja”, “A cerca dela é maior que a minha”, “Nunca gostei de jiló”, entre outros exemplos.

Por outro lado, é claro que o cacófato pode ser usado com o intuito de se provocar o riso. Os mais velhos vão se lembrar da música bem humorada dos Originais do Samba cuja letra dizia ““Estou apaixonado, apaixonado estou/ Pela dona do primeiro andar/ Pela dona do primeiro andar (…)”. Nos meus tempos de estudante, quando as escolas promoviam gincanas entre os alunos, havia sempre uma “Equipe Nico” ou uma “Equipe Dreira”.

Certa vez, um tio me disse que “nosso hino era muito bonito”. Fiquei constrangido e não lhe falei que ele havia cometido um cacófato. Por falar em hino, nem ele escapou. Lembram-se da passagem “De um povo heroico o brado retumbante”?

Talvez o cacófato mais famoso de nossa língua esteja no conhecido soneto de Luiz de Camões à falecida Dinamene. É um poema no qual o eu lírico lamenta-se pela perda de sua amada. A primeira estrofe diz:

 

“Alma minha gentil, que te partiste

Tão cedo desta vida descontente,

Repousa lá no céu eternamente,

E viva eu cá na terra sempre triste (…)”

 

Como se vê, acontece também com os melhores escritores. Não se sabe se Camões percebeu ou não, mas o soneto ficou famoso também pela “maminha”.

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6 Comentários. Deixe novo

  • VERONICA MUCURY VIEIRA DA ROCHA
    julho 1, 2021 12:27 am

    Fé demais cheira mal, lembrei logo.
    Beijos querido, sempre um tema maravilhoso.

    Responder
  • Gostei do texto. Lembrei-me da musiquinha que cantávamos para meu primo que tem o apelido de Cuca.
    “Seu Cuca foi no mato caçar tatú, uma cobra venenosa mordeu seu Cuca foi no mato…”
    Ele ficava muito bravo e saia correndo atras da criançada que gostava de o irritar kkk

    Responder
  • Baltasar Pereira
    julho 1, 2021 3:09 am

    Interessantíssimo o Tema abordado e com certeza muitas vezes devo ter feito este tipo de erro e vendo escrito aqui alguns exemplos fui tomado de lembranças por palavras por mim ditas.
    Para mim é interessante estar reaprendendo ou até aprendendo muitos temas ligados à nossa rica Língua Portuguesa .
    No final ainda contamos com parte de Soneto do Grande Poeta e Escritor Camões como exemplo de Cacofonia.

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  • Angelo Antonio Pavone
    julho 1, 2021 1:07 pm

    Olá Prof Vitor
    Muito bom texto. Instrutivo, curioso e divertido. É um alerta para quem trabalha com as palavras.
    Parabéns

    Responder
  • Alahkin de barros filho
    julho 1, 2021 1:50 pm

    Mais um artigo para nos lembrar do cuidado que devemos ter com nossa língua. Parabéns

    Responder
  • Edilson Cardoso
    julho 2, 2021 6:06 pm

    Professor, me lembro da cacofonia, mas nunca soube que o nome é “Cacófato” – obrigado pelas preciosidades.

    Responder

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