NÓS E OS ANIMAIS

Já tive oportunidade de escrever um texto sobre os animais presentes na gíria do futebol. São muitas gírias que se utilizam de nomes de bichos – ora para demonstrar carinho, ora para demonstrar raiva, rivalidade ou rejeição.

Bem, há poucos dias, recebi de um amigo, via Whatsapp, uma brincadeira na qual se pedia para a pessoa completar os espaços em branco de várias expressões quotidianas – e, em cada uma dessas lacunas, cabia o nome de um determinado animal. Achei a coisa bastante inteligente e divertida, isto é, quem bolou a brincadeira teve a paciência para se lembrar de várias expressões e juntá-las… mais do que isso, fez com que nos déssemos conta do quanto elas estão presentes no nosso dia a dia.

O primeiro item dizia: “A loja não tinha nenhum freguês – estava às…” claro que a palavra correta seria “moscas”. A seguinte: “É incrível como ele se lembra de tudo – tem memória de…”, “elefante”, lógico.

E a brincadeira prossegue nesse esquema, e vamos completando as lacunas e rindo de nós mesmos. É sempre muito divertido e interessante parar e observar nossos costumes e tradições, coisa que adquirimos em família e em sociedade e que vamos repetindo – seja no vocabulário, seja no modo como nos vestimos, ou no modo como nos comportamos em determinadas situações etc.

É certo que, assim como acontece com tantos hábitos, muitas gírias atingem seu “auge” e, com o passar do tempo, caem em desuso. Ouvi algumas expressões por parte dos meus avós que hoje simplesmente ninguém mais fala ou conhece. Quando eu era pequeno, minha avó me pedia um “abraço de tamanduá”, e eu, que nunca tinha visto um tamanduá na vida, abraçava sem saber se estava fazendo certo.

Os pais modernos, por sua vez, pedem um “abraço de urso” para seus filhotes – é mais fácil saber o que é um urso do que imaginar um tamanduá.

De onde será que vem o termo “abelhudo” para falar que alguém é bisbilhoteiro, indiscreto e se interessa muito pela vida alheia? Procurei no dicionário e não achei qualquer menção ao fato de esse termo vir de “abelha”. Fazemos, contudo, a associação imediata com o inseto pela semelhança das palavras, é claro.

Isso tudo, porém, são coisas às quais a gente não presta atenção: são objetos de estudos de linguistas cujo trabalho, quando bem feito, é agradável, faz-nos rir e nos chama a atenção para aquilo que está presente o tempo todo, mas nós não notamos. Nos anos 60, o Trio Esperança gravou uma versão de Rossini Pinto, “A tartaruga” – uma música ingênua, bonitinha, que dizia: “Onde ela quer chegar, mais de um ano vai levar”. E eu me lembro de que, quando eu era menino, toda pessoa preguiçosa ou lerda era chamada de “tartaruga”. Ainda se usa essa expressão? As crianças ainda têm tartarugas em seus quintais? Nos grandes centros, elas não têm nem quintais… muito menos uma tartaruga!

Abaixo, reproduzo na íntegra a brincadeira que meu amigo me enviou. É bem simples, todo o mundo vai acertar, mas seria interessante ver a cara de um estrangeiro diante de tais expressões…

E o leitor, certamente, vai se lembrar de muitas, muitas outras!

 

  1. A loja não tinha nenhum freguês – estava às ……..
  2. É incrível como se lembra de tudo – tem memória de…..
  3. Sempre defende seus interesses – está sempre puxando a brasa para sua…….
  4. Foi enganado: comprou………. por …………
  5. Quando um ……… fala, o outro abaixa a orelha.
  6. Que antigo! Isso é do tempo do ………
  7. Desista! Pode tirar o ……… da chuva.
  8. Que tal fazer uma …….? Cada um dá um pouco de dinheiro.
  9. Estava bravo e soltou os …….. pra cima dos filhos.
  10. Ficou desconfiado – ficou com a ……. atrás da orelha.
  11. Seja prudente. Não passe o carro na frente dos ……….
  12. Não me amole! Vá pentear…….
  13. Não conte isso pra ninguém. Por favor, boca de ……….
  14. O …….. morre pela boca.
  15. Como você aguenta tanto desaforo? Pare de engolir …..
  16. Rio cheio de ……., ………. nada de costas.
  17. ……….. velho não bota a mão em cumbuca.
  18. Quem morre na véspera é ………….
  19. Ele ri demais. É irritante. Parece uma ………
  20. Quem fala muito dá “bom dia” a ………..
  21. Ele está bem de vida, não tem preocupações. Está com o ……. na sombra.
  22. Hóspede é como ……. Depois de três dias, desanda.
  23. Não faça intrigas. Não ponha …….. na cabeça do rapaz.
  24. O chefe hoje está uma fera. Já vi que está com a ……….
  25. Ele não me engana. Apenas se faz de bonzinho, mas é um …….. em pele de …….
  26. Eles dormem muito cedo. Vão sempre dormir com as ………
  27. ……… mordido por ……. tem medo de linguiça.
  28. Melhor um ……….. na mão do que dois voando.
  29. Com vinagre não se apanham ……….
  30. À noite, todos os ………. são pardos.

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9 Comentários. Deixe novo

  • Avatar
    VERONICA M V ROCHA
    novembro 17, 2020 11:23 pm

    Obrigada pelo texto!

    Responder
  • Adorei, simplesmente hilário, mas, muito útil.

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  • Avatar
    Marco Antônio Gonçalves
    novembro 17, 2020 11:59 pm

    Extremamente interessante e criativo,confesso que algumas não acertei.

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    BERNADETE BOMENY DE FREITAS
    novembro 18, 2020 11:31 am

    Muito legal! A gente repete, sem prestar atenção no sentido literal das palavras. Vai saber quem inventou tantas expressões divertidas e espirituosas…

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  • Avatar
    Angelo Antonio Pavone
    novembro 18, 2020 2:38 pm

    Olá Prof Vitor
    Muito bom texto
    Divertido e mexe com a nossa memória. Lembrei de todos os animais citados, traindo a minha idade.
    Parabéns

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    Guilherme Sardas
    novembro 18, 2020 3:16 pm

    Texto interessante e leve, tema curioso, sob o olhar sempre sensível do linguista! Abraço, professor!

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  • Divertido, interessante.

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    Baltasar Macias Pereira
    novembro 19, 2020 12:42 am

    Nossa ,lendo esta Crônica como nos damos conta de expressões que utilizamos e nem atenção damos as mesmas.
    Lembro de frases nos anos 70 do tipo:
    “Aquela moça é uma gata” ou ” Que Pão é este rapaz”.
    Hoje em dia a juventude não utiliza mais estas gírias e é normal ,pois vivemos em outra Época com outros tipos de expressões e vou ser sincero ,que muitas vezes não entendo.
    Gostei dos itens para completar as frases.
    Crônica interessante que nos leva a pensar como a linguagem muda e muito com as décadas através de seus novos modismos.

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    Suzy Aparecida Colli
    novembro 26, 2020 2:33 pm

    Ah! Que delícia recordar pequenos fatos que são grandes mensageiros de lembranças de “nossa formação ” como seres “adultos” e sujeitos “cidadãos”….
    Amo você Vitor !

    Responder

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