NÓS E A ÁGUA

Neste 2021, estamos enfrentando mais uma crise hídrica no país. Não pretendo abordar aqui o problema da estiagem ou a (má) conduta do povo que não sabe economizar o precioso líquido, sempre acostumado a desperdiçá-lo, como se ele fosse inesgotável. Sobre isso, a gente lê uma tonelada de reportagens todos os dias. Também é dispensável dizer o quanto a água é fundamental para a vida no planeta etc.

Tive vontade de escrever sobre as expressões que utilizamos no dia a dia com a palavra “água”. Nas minhas pesquisas, descobri mais do que eu imaginava.

Posso começar, é claro, por aqueles provérbios que a gente ouve e repete desde sempre; aqueles provérbios que ouvimos de nossos pais e avós e que tornamos eternos porque os repetimos para os mais jovens dentro da família, no trabalho, entre amigos etc. O primeiro que me veio à cabeça, conhecido de todos, como eu já disse, é o “Água mole, em pedra dura, tanto bate até que fura”, metáfora que nos remete à importância de não desistirmos de algum sonho ou projeto. Também muito tradicional e conhecido é o “Águas passadas não movem moinhos”: deixemos o passado para trás, não adianta remoer o que já foi.

Quando nos referimos a um prato de que gostamos muito, soltamos a expressão: “Isto está de dar água na boca”. E quem preparou a refeição fica bastante lisonjeado.

Para aqueles que criam caso por nada ou por alguma coisa sem importância, dizemos que a pessoa está “fazendo uma tempestade em copo d´água” – são os dramáticos e exagerados da vida! Já àqueles que não respeitam o dia de amanhã, os mais velhos e experientes aconselham: “Nunca diga: desta água não beberei”. E, se você se sente deslocado em um ambiente ou situação, você “se sente como um peixe fora d´água”.

Aos inexperientes e novatos, meu avô dizia que eram “marinheiros de água doce”, isto é, não tinham enfrentado as durezas do mar da vida.

Há uma expressão para quando se quer falar que muito tempo se passou desde que alguma coisa aconteceu: “Ah, muita água passou debaixo daquela ponte!”.

Quando duas pessoas não se dão bem, não se afinam, dizemos que “são como água e óleo”; se alguém mudou seu comportamento para melhor aos nossos olhos, afirmamos que a pessoa “mudou da água para o vinho”. O sofrimento traz sabedoria, mas também cautela: “Gato escaldado tem medo de água fria”. Uma situação tensa, prestes a explodir, pode precisar apenas de um pequeno motivo – e esse motivo pode ser “a gota d´água que faltava”. Quando fracassamos em algum intento, “damos com os burros n´água”, uma vez que nossos planos “foram por água abaixo”.

Não podemos nos esquecer de que, quando queremos enaltecer nossas convicções, dizemos que “confiamos (em alguém ou em alguma coisa) até debaixo d´água”. E, quando alguém procura nos desanimar ou nos desestimular, esse alguém está “botando água na nossa fervura”.

Essas são algumas das expressões a que estamos acostumados no Brasil. Foi muito interessante, contudo, descobrir algumas dos nossos irmãos ultramarinos. Sim, os portugueses também têm suas expressões com a “água” para mostrarem sua visão do mundo e da vida. Vamos a algumas delas?

Recomendando cautela com as aparências, os portugueses dizem que “a água silenciosa é a mais perigosa”; e, para falarem da inconstância da vida e dos perigos das conquistas fáceis, eles dizem: “Água o deu, água o levou”. Sobre a maledicência, um provérbio que não se deve esquecer: “A água tudo lava – menos as más línguas”.

A psicologia e a psiquiatria nos alertam constantemente sobre os malefícios do que reprimimos – o amor, a raiva, a mágoa, a tristeza etc. Para isso, os portugueses têm também um pequeno adágio: “Água parada, água estragada”. (Podemos pensar também nos perigos da mente desocupada, principalmente em tempos de pandemia…)

Sobre o desperdício e o esbanjamento, encontrei dois provérbios portugueses: “Quem ceia vinho almoça água” e “Quem não poupa água nem lenha não poupa nada que tenha”.

E, para se referirem ao que é inútil, dizem que “isso é uma gota d´água no oceano”, adágio que por aqui também usamos. Um outro provérbio alerta sobre a importância de se ter opinião própria: “O néscio segue as águas de outrem”. Para os demasiadamente sonhadores, uma advertência: “Quem vê o céu na água vê os peixes nas árvores”.

São muitos! Tanto aqui, no Brasil, quanto lá, em Portugal, a “água” é utilizada nas mais variadas expressões, nas mais variadas metáforas. E creio que em outras línguas também, claro. Acho fascinante estudar e descobrir essas particularidades do idioma!

Para finalizar, um trecho de uma música do compositor e cantor Djavan: “Esquinas” é uma canção bonita, que fala sobre as dificuldades da vida que o eu lírico enfrentou. Lá pelas tantas, uma imagem muito forte, também se utilizando da “água”, mas sem que o autor precisasse usar esse termo. A metáfora me marcou muito, desde a primeira vez em que eu a ouvi, lá pelos idos de 1984:

 

“Só eu sei / as esquinas por que passei / Só eu sei(…)

Sabe lá / o que é morrer de sede em frente ao mar /

Sabe lá(…)”.

 

A fartura que, na verdade, é uma miséria. A alegria que se traduz em sofrimento. Quando temos muito, mas nos falta o essencial!

 

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