NELSON, 109 ANOS

 

“Invejo a burrice, porque ela é eterna” – N. R.

 

Se vivo, Nelson Rodrigues completaria 109 anos em 2021. Nascido em Recife, no dia 23 de agosto de 1912, é uma das figuras mais instigantes de nossa literatura e de nosso jornalismo. Muitos o consideram um gênio.

Não tenho a mínima pretensão de traçar a vida do jornalista, teatrólogo, cronista, romancista e contista neste texto. Isso já foi feito – de maneira brilhante – por Ruy Castro, na deliciosa biografia de Nelson, “O anjo pornográfico” (Companhia das Letras, 1992). O que me leva a escrever esta crônica é o modo marcante como a escrita de Nelson atingia e atinge o leitor. De maneira inesquecível, eu diria!

Meu primeiro contato com ele foi pelo texto “A coroa de orquídeas”, crônica na qual Nelson Rodrigues já dá um belo cartão de visita. Durante muitos anos, indiquei essa história para alunos que queriam começar a conhecê-lo. Acho perfeita para isso, pois estão lá todos os elementos que o consagraram: o realismo, o quotidiano de gente simples, a desilusão amorosa, a idealização do casamento, o adultério, o ciúme, a morte.

Polêmico e avesso à mediocridade, Nelson teve uma vida muito dura na infância e na juventude, chegando a passar fome no Rio de Janeiro. O pai veio do Recife tentar a vida na capital federal. Perdeu o emprego e, quando disse à mulher que estava voltando para o nordeste, ela não concordou: vendeu as joias que possuía e veio para o sudeste com os 11 filhos. Nelson tinha quatro anos. Mais tarde, acabou seguindo os passos do pai e dos irmãos no jornalismo. Aos 13 anos, já era repórter policial.

Em meio a tantos momentos difíceis, talvez o que se passou no dia 26 de dezembro de 1929 tenha sido um divisor de águas para a família toda.

No jornal “Crítica”, trabalhavam os irmãos Nelson, Milton, Mário Filho e Roberto. Esse último era o ilustrador talentoso das matérias publicadas. A “Crítica” trouxe os detalhes da separação de Silvia Serafim e João Thibau Júnior. Por ver seu nome exposto como mulher desquitada – um escândalo à época -, Silvia invadiu a redação do jornal e matou Roberto com um tiro na frente de todos. A bala era para o pai de Nelson, que escapou porque não fora trabalhar naquele dia.

A perda do filho levou Mário Rodrigues à depressão e à morte poucos meses depois. Silvia foi absolvida do crime. Nos anos seguintes, os Rodrigues se viram em grandes dificuldades financeiras por uma série de motivos.

Nelson era uma figura fascinante – dizem os amigos – dentro e fora de uma redação. Um dos episódios mais engraçados e interessantes de sua vida diz respeito aos seus anos de escola. “Houve um concurso de composição na aula. Era, se não me engano, o quarto ano primário, e ganhamos o concurso, eu e outro garoto. O outro garoto escreveu sobre um rajá que passeava montado num elefante, e eu escrevi a história de um adultério que terminou com o marido esfaqueando a adúltera. Creio que a professora dividiu o prêmio como concessão à moral vigente, porque ela ficou meio apavorada, em pânico, com a violência da minha ‘A vida como ela é…’ Eu ouvi a história dele; a dele foi lida em voz alta, a minha não…”

Em 1932, trabalhava em “O Globo”; vítima de tuberculose, passou longas temporadas em um sanatório de Campos de Jordão, tratamento custeado por Roberto Marinho, a quem Nelson seria grato até o fim da vida.

Em seu livro de memórias, “A menina sem estrela”, Nelson faz referência à sua filha Daniela, que nasceu cega. Trata-se de uma compilação das crônicas que o autor publicou no Correio da Manhã, em 1967, e nas quais narra sua vida pessoal com estilo e elegância.

Ele é também nosso maior dramaturgo. Costuma-se dizer que o teatro brasileiro contemporâneo teve início com uma peça revolucionária de Nelson Rodrigues – “Vestido de Noiva”. Montada pela primeira vez em 1943 e dirigida pelo grande Ziembinski, foi um sucesso retumbante no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A história, para que se tenha uma ideia, desenrola-se em três planos – o da alucinação, o da memória e o da realidade. A peça é realmente genial.

Carlos Drummond de Andrade escreveu que “Nelson realiza um teatro passado no fundo do ser humano, em vez de um teatro de superfície a que estamos habituados”. Manuel Bandeira, por sua vez, considerava-o “de longe o maior poeta dramático que já apareceu na nossa literatura”. E isso não é pouco.

Polêmico, amado e temido pelo seu humor ácido, o autor deixou uma obra vasta, interessante, rica, na qual sonda o comportamento humano como poucos ousaram fazer. Era conhecido também por suas frases cortantes e diretas. A impressão que se tem é a de que, embora uma pessoa gentil, Nelson não tinha medo de fazer inimigos. Para ele, a verdade tinha de ser dita – doesse a quem doesse.

Seu maior engano talvez tenha sido elogiar o governo do presidente Medici. Chegou a acreditar que não havia tortura no regime militar, até que seu filho, Nelsinho Rodrigues, foi preso e torturado. Depois disso, Nelson arrependeu-se e apoiou a anistia para os presos políticos.

No atual cenário, sua inteligência faz falta. Nestes dias de tantos absurdos, seu olhar crítico sobre o país, que ele disse sofrer do “complexo de vira-latas”, enxergaria milhões de motivos para escrever seus textos. O que ele diria das injustiças e da impunidade no Brasil de hoje?

Mais famoso pelas frases disseminadas nas redes sociais da vida, Nelson sobrevive nas listas de leituras obrigatórias para alguns vestibulares e nos festivais da TV paga que exibem filmes baseados em sua obra. Não sei se o público jovem se interessa por ele. Lembro-me de que, em todas as vezes que analisei algum livro ou peça em sala de aula, houve uma boa repercussão e a moçada começou a querer conhecê-lo.

Talvez, falte isto mesmo: pessoas que não deixem nossa cultura morrer no meio de tanta mediocridade e de tanta celebridade de araque. Foi Nelson quem disse: “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”. Cruel… mas dá pra discordar?

Nelson Falcão Rodrigues morreu no Rio de Janeiro, em 21 de dezembro de 1980, vítima de complicações cardíacas e respiratórias. Tinha apenas 68 anos.

*********

Listo abaixo algumas de suas frases* sobre a vida, sobre o país, sobre os homens e sobre si mesmo:

 

        “Os idiotas vão tomar conta do mundo – não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”.

 

        “Nada mais cretino do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única capaz de imbecilizar o homem”.

 

        “O homem só é feliz pelo supérfluo. No comunismo, só tem o essencial. Que coisa mais abominável e ridícula!”.

 

        “Em nenhum país do mundo tem tanto intelectual que não pensa e escritor que não é lido como no Brasil”.

 

        “Há sujeitos que nascem, envelhecem e morrem sem terem jamais ousado um raciocínio próprio”.

 

        “A morte de meu irmão Roberto deu-me um profundo horror ao assassinato. Esse horror é tanto que entre ser vítima ou assassino, prefiro ser vítima. Seu assassinato marcou minha obra de ficcionista, de dramaturgo, de cronista, me marcou como ser humano. Este crime me mudou inteiramente”.

 

        “A fome não tem limites. As pessoas, quando passam fome, fazem aquilo que jamais pensaram que fossem capazes de fazer”.

 

        “Sou reacionário – minha reação é contra tudo o que não presta”.

 

        “Mulheres traem homens porque eles são cretinos fundamentais. O adultério é uma vingança da mulher”.

 

        “Eu sou um romântico num sentido quase caricatural. Acho que todo amor é eterno e, se acaba, não era amor. Para mim, o amor continua além da vida e além da morte. Digo isso e sinto que se insinua nas minhas palavras um ridículo irresistível, mas vivo a confessar que o ridículo é uma das minhas dimensões mais válidas”.

 

        “Há pessoas que se casam e lá na sacristia estão os convidados fazendo apostas sobre a duração daquele casamento. E você pode ficar sossegado porque aquele casamento está inteiramente liquidado antes do começo”.

 

        “Se Euclides da Cunha fosse vivo, teria preferido o Flamengo a Canudos para contar a história do povo brasileiro”.

 

        “Na adolescência, eu me considero um pobre-diabo, uma paródia, uma falsificação de mim mesmo. Depois, a partir dos 30, eu me reencontro. Por isso, digo aos jovens: não permaneçam muito tempo na juventude porque isso compromete”.

 

        “Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos”.

 

        “Subdesenvolvimento não se improvisa – é obra de séculos”.

 

        “Dinheiro compra tudo – até amor verdadeiro”.

 

*Frases retiradas de:

Nelson Rodrigues por ele mesmo – org. de Sonia Rodrigues, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2012.        

 

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