LIMPANDO LIVROS

 

                                                                    “Uma casa sem livros é como um corpo sem  alma”

– Marco Túlio Cícero, filósofo, político e orador romano

 

Ontem, aproveitando uma tarde fria na cidade, resolvi organizar minha biblioteca. Como se fosse uma Campanha do Agasalho, decidi que daria (alguns) livros já lidos para escolas e bibliotecas públicas, ou mesmo para alguns amigos que os desejassem. De alguns livros, tenho mais de uma edição, e isso é tolice. Vejo que só de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, tenho três; de “Vida Secas”, mais duas; de “Romanceiro da Inconfidência”, mais três… e por aí afora. São presentes acumulados através dos anos – presentes de familiares, de amigos, de alunos… objetos que a gente vai guardando mais por seu valor sentimental e menos por seu ineditismo.

Peguei minha escada (moro num apartamento antigo, as paredes são muito altas) e, munido de uma flanela, pus-me a separar e limpar os volumes das estantes. Meu escritório é meu cômodo predileto neste apartamento onde estou há exatos 25 anos. Cercado por livros, DVDs (sim, eu ainda os tenho!) e CDs (também conservo esses objetos em extinção!), é aqui que me escondo do mundo ou fujo dele, quando estou aborrecido ou decepcionado com alguém ou alguma coisa.

E fui mexendo em alguns volumes que eu não lia havia muito tempo ou que ainda nem sequer haviam sido lidos. Não consigo mexer em livros sem dar uma folheada, nem que seja na primeira página para tentar me recordar de quando o volume veio parar em minhas mãos e por meio de quem. E faço uma viagem deliciosa em meio a dedicatórias, datas, selos de lojas, anos de publicação, títulos e autores que me fazem companhia há 20, 30, 40 anos. São livros que me trazem à memória pessoas que fizeram parte de minha vida e não estão mais comigo; pessoas queridas que se foram deste mundo e que me deixaram mais pobre e mais triste porque elas sabiam me enriquecer com seu sorriso e com suas palavras de carinho.

Comecei a limpar uma coleção que fiz quando era menino – os Manuais Disney que a Editora Abril lançou nos anos 70. Eles marcaram toda uma geração… Manual do Mickey, Manual do Tio Patinhas, Manual do Escoteiro Mirim… são 13 ao todo e, ao abrir o Manual do Zé Carioca, que trata do futebol, vejo a dedicatória de minha mãe pelo meu aniversário de dez anos em 1974! Sua letra me faz lembrar de tanta coisa, de tantos momentos difíceis que passamos naquela década, de tanta luta dos meus pais para criarem os três filhos com dignidade e honestidade. Difícil não parar por ali mesmo e ficar lendo o manual pela tarde adentro. (Difícil mesmo é segurar o choro com o livro na mão…)

Quando eu tinha 11 anos, portanto no ano seguinte, meu avô (pai de minha mãe) me presenteou com um livro belíssimo – o Almanaque Bertrand de 1943. A Livraria Bertrand é uma livraria portuguesa, de Lisboa, que até hoje publica seu almanaque anualmente. Esse de 1943 marcava o 44º ano de publicação, isto é, o primeiro era de 1900! Na primeira página, escrito com caneta vermelha, eu li a dedicatória simples, mas repleta de amor, coisa de avô: “Com carinho, de vovô a Vítor, 15 de junho de 1975”. Esse é um livro que traz de poesia a dicas de culinária, de biografias a dados históricos, de provérbios a palavras cruzadas, de curiosidades matemáticas a piadas e charges. É dele um provérbio que nunca mais esqueci e que me tem acompanhado por toda a vida: “O amor faz promessas que afinal não cumpre; a amizade cumpre promessas que afinal não fez”. Muito sábio!

Foi do meu avô também que ganhei a revista Seleções de Março de 1964 – mês e ano em que nasci. Guardo-a com muito apreço, pois adorava, quando menino, ficar vendo as propagandas antigas de carros, margarina, cigarro, refrigerantes, roupas e tantos outros produtos. Interessante saber como era o mundo quando a gente nasceu…

De um amigo muito querido, já falecido, ganhei meu primeiro livro de poesias de Manuel Bandeira – “Estrela da Vida Inteira”. Sempre respeitei muito Drummond, mas Bandeira sempre falou mais alto ao meu coração. Fiquei com ele em minhas mãos por alguns minutos e procurei a poesia “Dia de Finados”, que traz alguns dos versos mais bonitos e mais profundos já escritos em língua portuguesa. Versos de uma delicadeza e de uma dor muito intensas, próprias dos grandes poetas.

Por falar em poetas, chego à minha querida Cecília Meireles. Lembro-me de que meu primeiro contato com sua obra foi no ginásio, lá na Freguesia do Ó, também na década de 70. Aula de português , acho que uma crônica tirada do livro “Escolha o Seu Sonho”, intitulada “Chuva de Lembranças”. Penso que terá começado aí o amor de vida toda que sinto pela autora de tantos versos maravilhosos e de tantos textos repletos de sensibilidade e delicadeza. Hoje, tenho sua obra completa e mais: um disco de vinil no qual ela recita alguns de seus poemas como o famoso “Retrato”´(“Eu não tinha esse rosto de hoje / Assim calmo, assim triste, assim magro…”) e “Elegia a uma pequena borboleta”! O disco faz parte da minha biblioteca (e não discoteca!) e serei eternamente  grato a esse amigo, também professor, que resgatou essa relíquia de uma feira de antiguidades e foi suficientemente generoso para dá-lo a mim.

Ainda no campo da crônica, meu querido Rubem Braga. São vários os volumes que ganhei de amigos em aniversários e Natais, e são vários os que comprei em sebos com a alegria de quem encontra o primeiro amor. Escrevo crônicas por causa desse autor capixaba que nos deixou em 1990. Chegamos a trabalhar “juntos” no Estadão, mas ele no Rio, eu aqui. Eu era muito jovem. Hoje, com mais discernimento, teria feito de tudo para conhecê-lo pessoalmente e, quem sabe!, conseguir um autógrafo num livro que eu guardaria com muita, muita estima.

A primeira crônica que li de Rubem – “Agradecimento” –  foi no mesmo livro em que li a de Cecília no ginásio – “Português Fundamental – Domingos Paschoal Cegalla”, de 1977. Relíquias de um tesouro pessoal.

Ao chegar à parte das biografias, encontro vários volumes cujas dedicatórias me remetem ao jornal, aos meus anos de professor de cursinho – alunos e colegas de profissão que se lembravam de mim e me traziam gentilmente livros e mais livros com os quais fui enriquecendo minha casa e minha mente.

Um volume do “Teatro Completo de Nelson Rodrigues” que me foi dado por um outro amigo muito querido. Lembro que ele me disse: “Esse livro já cumpriu seu papel comigo. Agora, é a sua vez”. e a dedicatória que sintetizava tantos anos de nossa amizade!

Como agradecer a todos? Como demonstrar a eles – mais do que devo ter demonstrado no momento – toda a gratidão que sinto por terem me feito evoluir mais e mais?

Aqui estou eu com um exemplar de “O feijão e o sonho”, de Orígenes Lessa, que tivemos de ler em 1976 para uma prova de Português. Na primeira página, leio: “Vítor – 6ª série C – 1976”. Puxo pela memória e me lembro de alguns amigos da classe, mas não tenho a menor ideia do que aquele garoto de 12 anos pensava ou o que desejava da vida.

Na fase adulta, meus livros sobre Bruce Springsteen… quanta coisa aprendi sobre sua obra vendo seus shows e lendo livros a seu respeito – hoje, trazem datas e locais para os quais viajei e que me enriqueceram muito intelectualmente!

São tantas histórias além das histórias contidas em meus livros, meu Deus! Histórias pessoais que me trazem rostos, lugares, situações, dias felizes e tristes na mesma intensidade. Talvez um dia eu aprenda a limpar meus livros sem folheá-los – mas não quero que esse dia chegue. Quero continuar viajando com eles e neles, com as anotações que eu ou qualquer outra alma abençoada terá feito em suas páginas.

Na minha geladeira, tenho um ímã comprado há muito tempo com uma mensagem perfeita para o fim desta crônica: “Amantes de livros nunca vão para a cama sozinhos”. Não mesmo!

ALGUNS PRONOMES DEMONSTRATIVOS
POR QUE, POR QUÊ, PORQUE OU PORQUÊ?

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