LIMITES

Em seu livro de memórias, Infância, Graciliano Ramos traz um texto maravilhoso e, ao mesmo tempo, muito triste e impactante intitulado “Um cinturão”. Nele, o narrador/autor relata a violência de que era vítima por parte dos pais desde muito cedo. ” Batiam porque podiam bater-me, e isso era natural (…) Certa vez, minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas (…)”.

No conto referido, o autor de Vidas Secas narra como seu pai, que estava à procura de seu cinturão, avançou contra o menino de “quatro ou cinco anos” já o culpando pelo sumiço do objeto. A descrição é magnífica e também assustadora. Os pormenores que Graciliano apresenta vão desenhando uma cena terrível, tão terrível a ponto de fazer com que o autor, depois de adulto, confesse que “hoje, não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desamina, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma cólera agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação de que me furam os tímpanos com pontas de ferro”.

O belíssimo conto de Graciliano remete-nos à poesia do pernambucano Jorge Wanderley, “Esses chopes dourados”:

[…] quando a geração de meu pai

batia na minha

a minha achava que era normal

que a geração de cima

só podia educar a de baixo

batendo

quando a minha geração batia na de vocês

ainda não sabia que estava errado

mas a geração de vocês já sabia e

cresceu odiando a geração de cima

aí chegou esta hora

em que todas as gerações já sabem de tudo

e é péssimo

ter pertencido à geração do meio

tendo errado quando apanhou da de cima

e errado quando bateu na de baixo

e sabendo que apesar de amaldiçoados

éramos todos inocentes.

 

Os dois textos são doloridos, comoventes e profundamente fortes. Impossível ficar indiferente ao tema que abordam e à melancolia de quem fala, tanto no conto de Graciliano, quanto nos versos de Wanderley. São adultos marcados pela autoridade excessiva dos pais, pelo abuso do poder de que foram vítimas – com uma nota agravante: o eu lírico dos “Chopes Dourados” confessa uma espécie de “duplo erro”: quando aceitou a violência de seus pais e quando repetiu esse comportamento com os filhos.

Se hoje tal método não é aceito, sendo reprovado por pessoas com o mínimo de compaixão por crianças vítimas de violência dentro de casa, nem por isso pode-se dizer que tal conduta esteja extinta nas famílias brasileiras. São numerosos os casos de crianças espancadas até a morte por pais violentos, muitas vezes em seu juízo perfeito, isto é, que não apresentam qualquer distúrbio emocional. Batem porque podem bater…

Em um outro maravilhoso texto, “São Cosme e São Damião”, Rubem Braga roga aos santos gêmeos que protejam todas as crianças do Brasil. E vai enumerando que crianças são essas. A certa altura, escreve nosso cronista maior: “São Cosme e São Damião, protegei os filhos dos homens bêbados e estúpidos, e também os meninos das mães histéricas ou ruins”. A crônica é de 1957. Vale a pena ser lida!

Andei relendo esses textos, e uma dúvida ficou martelando minha cabeça: quais os limites da educação infantil na família e na escola? Não tenho filhos, mas tenho estado em sala de aula – participando da educação dos filhos alheios – por quase 30 anos. Hoje um pouco menos do que antes, mas ainda sou professor e convivo com jovens tão diferentes e tão iguais em tantas coisas.

Sou do tempo em que a palmatória e o ajoelhar-se no milho já não eram práticas nas escolas, mas um tempo em que a autoridade do professor e dos pais era inquestionável. Se não tínhamos mais o chicote em sala de aula, lembro-me de que os professores ainda podiam submeter seus pupilos a algumas agressões físicas – como puxões de orelha – e alguns constrangimentos – como tachá-los de “burros” e “ignorantes” diante de toda a classe de 40 ou 50 alunos. E isso era muito ruim.

Lembro-me de um episódio ocorrido comigo em 1972. Eu era uma garoto de oito anos de idade, segundo série primária, como se dizia à época. Naquela escola estadual, o sistema era assim: cada aluno levava seu lanche e a escola dava a bebida, que variava de acordo com o dia da semana: num dia, era leite; noutro, suco de laranja; noutro, chocolate… e assim por diante. Quando a hora do recreio terminava, a professora sempre escolhia alguém para recolher as canecas de plástico. Era a alegria da meninada! O escolhido pegava uma espécie de caixa também de plástico e recolhia as canecas para levá-las para a cozinha. Fui o escolhido e fiquei muito feliz. Depois de recolher todas, levei a pequena caixa, mas ela caiu de minhas mãos perto da professora, esparramando as canecas no chão do pátio da escola.

Dona Madalena (esse era o nome dela) ficou uma fera: gritou comigo e, não satisfeita, pegou-me pelos ombros e me chacoalhou dizendo que eu era um desastrado. Ela podia fazer isso: era permitido aos professores de então. Obviamente que nunca mais esqueci a vergonha que senti diante de todos e das risadas que duraram muito tempo naquele ano. O constrangimento foi enorme, e eu tive vontade de sumir daquela escola e nunca mais voltar.

Conto tudo isso mais de 40 anos depois, sinal de que a coisa ficou na minha memória, como tantas outras histórias (agradáveis e terríveis) por que todo estudante passa. Lembro-me de que nada contei em casa, pois eu sabia que minha mãe iria falar com a professora e a coisa ficaria muito pior.

O problema é que saímos desse autoritarismo inquestionável de pais e mestres para o polo oposto: hoje, quem manda são as crianças e os jovens com uma autonomia para a qual não estão preparados. Convivemos com verdadeiros minidéspotas em casa – muitos amigos meus reclamam que seus filhos é que decidem tudo – e com verdadeiros marginais dentro da sala de aula. Quando foi que saímos de uma situação absurda para a outra? Quando foi que os pais deixaram de educar para serem submetidos às vontades dos filhos? Quando foi que os professores começaram a ser vistos como simples subalternos de uma molecada agressiva e desrespeitosa?

Educar também é dizer “não”, é entrar em choque, é proibir, é impor limites. E parece-me que os pais estão se esquecendo disso, enviando à escola reizinhos e princesinhas acostumados à satisfação de suas vontades e desejos. Se eles não entendem a matéria, o errado é o professor; se levam uma “chamada”, reclamam com a direção, pois o professor os expôs ao ridículo: eles não aceitam que estejam equivocados. Se o antigo método de educar estava errado com sua violência física – na família e na escola -, ele não está menos errado agora que os papéis se inverteram.

Os casos de violência contra professores em sala de aula, no Brasil, são numerosos. Cenas chocantes são mostradas na TV e na internet diariamente, expondo de modo claro o total desprestígio que assola o magistério, além da questão financeira. Por que será que nossos jovens não querem ser professores?

Ficou famosa uma charge, utilizada até por um vestibular aqui de São Paulo, na qual se mostra o contraste no comportamento de pais e filhos com relação a professores. A charge compara duas situações com um intervalo de 40 anos. No primeiro quadro, retratando 1969, vê-se um aluno constrangido pelas notas baixas que tirou, sendo questionado pelos pais diante da professora. No quadro seguinte, mostrando o ano de 2009, os pais não questionam o garoto: este está cheio de si, pernóstico, com ar de fanfarrão, enquanto os pais questionam a (intimidada) professora sobre a nota que o filhote conseguiu em suas provas. A culpada pelo insucesso do pimpolho, lógico, é a professora, que não deve ser competente no que faz.

Falta-nos atingir um meio-termo: aquele ponto no qual o respeito seja mútuo, aquele estágio em que os pais e professores exerçam sua autoridade – sem exageros – e no qual as crianças sejam respeitadas,  aprendendo, porém, que há limites para suas vontades e caprichos.

Talvez ainda haja tempo de retomar Machado de Assis e lembrar que, realmente, o “menino é pai do homem”. Lembremos de Brás Cubas, lembremos de Brás Cubas!

Que espécie de adultos estamos formando?

Bibliografia:

BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas, Record, Rio de Janeiro, 2002. pp. 328-329.

RAMOS, Graciliano. Um Cinturão. In: Infância. Ed. Record, Rio de Janeiro,  1995, pp.29-32.

WANDERLEY, Jorge. In: MORICONI, Ítalo. (Org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001 (fragmento), p. 237.

 

DIREITO À SAÚDE
OS TAIS VERBOS DO “MÁRIO”

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3 Comentários. Deixe novo

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    ANGELO ANTONIO PAVONE
    junho 26, 2019 5:51 pm

    Ótimo texto. Excelente para uma reflexão sobre o tema. Eu fui professor por 40 anos e testemunhei
    essa transformação, que guardo com o coração apertado.
    Parabéns Prof. Vítor

    Responder
  • Excelente texto… maravilha de reflexão. Em mundo virtual, não se deve esquecer que os filhos são da realidade presencial e precisam dos limites e da presença e consciência dos pais.

    Responder
  • Excelente! Texto esclarecedor e perturbador!

    Responder

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