Futebol… Que bicho é esse?

Já se vão muitos anos desde que fiz o curso sobre gíria com o querido professor Dino Preti, na USP, como parte de meu mestrado. O docente era membro do “Projeto de Estudo da Norma Linguística Urbana Culta” (Projeto NURC/SP) e um novo universo se abriu para mim quando me matriculei para assistir às suas aulas na cidade universitária.

Lembro-me de minha surpresa ao constatar que havia um “curso sobre gíria” e, hoje, tenho certeza de que esse sentimento era fruto de um certo preconceito, pois somos educados na escola para a utilização da norma padrão da língua, aquela modalidade que respeita a gramática e que procura sempre o vocabulário mais bem acabado e mais seleto. Foi no curso do professor Dino que tomei consciência de que a linguagem coloquial também tem o seu valor – apenas precisamos saber quando e onde empregá-la, isto é, em que contexto linguístico e social ela é mais adequada do que a outra que aprendemos com os nossos professores de português.

Em um de seus textos, Preti afirmava que “por sua própria natureza, as pessoas tendem a repudiar o condicionamento (da linguagem padrão) e até a reagir contra ele, porque o código as relega, linguisticamente, ao anonimato da grande massa falante. E, sempre que possível, determinados grupos se isolam, adotam uma linguagem especial (em particular no campo do léxico), opondo-se ao uso comum(…)”. A criação dessa linguagem especial pode atender, entre outros anseios, “ao desejo de originalidade, de marca original”, vindo a se tornar um “signo de grupo”. O professor prossegue afirmando que o uso dessa “linguagem especial” seria um caso flagrante de oposição à linguagem da comunidade – o que provocaria, de imediato, duas reações por parte da sociedade.

A primeira dessas reações seria de crítica e condenação, uma vez que ela “infringe os padrões linguísticos e opõe-se agressivamente à tradição, mantida em especial pela escola”. A segunda, escreve Preti, “de curiosidade, dado que toda e qualquer reação às regras sociais vigentes causa admiração, e o uso restrito evoca hábitos, atitudes, atividades pouco correntes e, muitas vezes, contestatórias”. (Encontrei aqui a razão de meu preconceito e minha curiosidade quando vi o anúncio desse curso na secretaria da faculdade).

A gíria possui, de certa forma, um caráter agregador: há, segundo o professor Dino, um sentimento de união que liga os membros falantes dos mesmos termos. Em outras palavras, a gíria funciona como um

“elemento identificador” entre as pessoas. Aqueles que falam como eu falo são meus aliados, estão ao meu lado, entendem a mim e a tudo o que me cerca. Firmam-se uma cumplicidade e um elo entre mim e eles.

Em outro texto bastante elucidativo, o professor Preti afirma, contudo, que, “ao vulgarizar-se para a grande comunidade, esse vocabulário perde-se dentro dos amplos limites de um dialeto social”. É o momento em que a gíria deixa de ser um signo grupal, tornando-se difícil saber o que é gíria ou vocabulário popular.

O fato é que estamos constantemente ouvindo e reproduzindo termos da gíria em nossas conversações – e, quanto mais informal for o contexto em que nos encontrarmos, mais nossa linguagem explorará o universo do coloquial e, também, da gíria.

O futebol sempre ofereceu vasto material para pesquisadores das mais diversas áreas – e para a Sociolinguística isso também é verdadeiro. É evidente e incontestável a importância que o esporte tem para o brasileiro. Se hoje há alguma desilusão e um certo desapego com relação à Seleção, o mesmo comportamento não se verifica quando se fala de um time do coração. A paixão é tão grande, que o público apreciador desse esporte é composto de pessoas das mais diversas camadas sociais e das mais variadas faixas etárias. É natural que, sendo tão popular, reflita o pensamento do povo e, sobretudo, a linguagem desse povo. Por essa razão, encontramos dificuldades em precisar, no futebol, o que é de fato vocabulário gírio e vocabulário popular.

Além disso, não se pode esquecer de toda a irreverência das torcidas e do próprio jornalismo especializado, refletindo a informalidade presente nos estádios na hora de uma partida. A crônica esportiva, muitas vezes, é a maior responsável por determinadas palavras e expressões já cristalizadas entre torcedores, jogadores, dirigentes e entre os próprios jornalistas.

Muitas dessas expressões dizem respeito à gíria com nomes de bichos. O homem tem convivido com os animais desde o começo dos tempos. Eles são nossos companheiros nas mais diversas situações – e não falo apenas dos costumeiros animais domésticos e de estimação como cães, gatos e pássaros. Lembro-me de que eu tive uma aluna a qual criava uma jiboia em casa e “adorava o bichinho”. Cada um, cada um… é comum, portanto, que tenhamos os bichos também na linguagem metafórica popular. Eles são utilizados com frequência quando se procura realçar uma imagem ou quando se deseja ridicularizar alguém ou alguma situação, aspecto marcante da gíria e uma de suas finalidades.

Sempre me chamou a atenção o fato de se empregarem nomes de animais para as mais diversas situações do futebol. Infelizmente, a origem de muitos desses termos e expressões perdeu-se no tempo e no espaço, mas eles valem uma olhada com mais cuidado e com mais carinho – principalmente se o leitor for torcedor de algum time.

Pra começo de conversa, se nos lembrarmos de que, por exemplo, o prêmio que um jogador recebe por uma vitória é chamado de “bicho”, já teremos uma noção da ligação desse esporte com os nomes de animais para determinadas situações e pessoas. O bom humor talvez seja a tônica: todos sabem que, para se traduzir o ridículo por que passa o goleiro (a posição mais ingrata do futebol), quando falha, temos o “frango”, “o peru”, ou “penas voando” – como se ele tentasse pegar a ave e ela lhe escapasse das mãos. É vexatório quando acontece com o time da gente, mas engraçado com o goleiro adversário.

Outra imagem que desperta dó vem a ser o jogador medíocre chamado de “cabeça de bagre” por torcedores e cronistas. Ninguém quer um desse em seu time… e que tal nos lembrarmos da expressão “bumba meu boi” quando um zagueiro chuta a bola para o alto, mas faz com que ela caia perto do próprio gol? E o jogador “ciscador” que se movimenta com dribles curtos, sem levar perigo algum à defesa adversária? “Fulano só cisca, cisca… e não joga nada!”.

Na Copa de 1958, a primeira que o Brasil venceu, nosso ponta esquerda era o Zagalo. Como ele fechava para ajudar o meio campo e a marcação com o lateral esquerdo Nilton Santos, atacando e defendendo, ficou conhecido como “Formiguinha” – daí, todos os jogadores que vão e voltam para ajudar a defesa receberem esse apelido. Lembremos que a formiga sempre foi associada ao trabalho, talvez inconscientemente pela fábula “A cigarra e a formiga”, do grego Esopo.

Já ouvi no rádio que, quando um jogador apresenta um físico privilegiado, ele tem “saúde de vaca premiada”; o mesmo animal é invocado quando um jogador dribla um adversário, passando a bola por um lado de seu corpo e correndo pelo outro para recuperá-la mais adiante: o famoso “drible da vaca”. Já ouviu essa?

Nos áureos tempos da Loteria Esportiva, isso nos anos 70 do século XX, o que mais infernizava os apostadores era a possibilidade de um time muito fraco vencer um outro que era favorito em determinada partida. Quando isso acontecia, dizia-se que havia acontecido uma “zebra”. E muitas zebras impediram que muita gente ficasse milionária naqueles dias… mais tarde, o termo passou a ser usado sempre que algo “dava errado”.

E os apelidos dos times? São muitas as agremiações cujo símbolo ou apelido vem a ser um bicho. Lembremos de alguns: em Santa Catarina, o Criciúma é o Tigre; em Minas Gerais, o Cruzeiro é a Raposa, o Atlético Mineiro é o galo e o América é o Coelho; no Rio de Janeiro, o Flamengo é o Urubu; em Pernambuco, o Sport e o Leão; em São Paulo, o Santos é o Peixe (embora o símbolo seja… uma Baleia!). E por aí vamos.

Um caso muito curioso aconteceu em São Paulo. Tradicionalmente, o Palmeiras sempre foi identificado com o periquito (verde). Em 1976, torcedores corinthianos, com a intenção de ofender, começaram a associar o time rival ao porco (a história é longa e não cabe aqui). Aconteceu, porém, algo inesperado: dez anos depois, em novembro de 1986, o jogador Jorginho apareceu na capa da revista Placar segurando um porquinho sob a manchete: “O Palmeiras quebra um tabu – Dá-lhe, porco!”. Daí em diante, o Porco passou a ser também o mascote do time alviverde. Em Campinas, a Ponte Preta, por exemplo, é conhecida também como Macaca.

Enquanto isso, “gato” pode designar um goleiro muito ágil, elástico e rápido… mas pode se referir também a um jogador cuja idade foi “diminuída” para que ele possa jogar campeonatos disputados por categorias inferiores. Há muitos exemplos disso por aí…

O maior ídolo da torcida do Flamengo – e o melhor jogador que já vestiu a camisa do clube – Artur Antunes Coimbra, o Zico, é conhecido também como o Galinho de Quintino, em referência ao bairro da zona norte do Rio de Janeiro onde cresceu. O ex-jogador Gérson, do Botafogo, do São Paulo e da Seleção Brasileira, tinha o apelido de “Papagaio” porque falava muito em campo. O grande goleiro soviético Lev Yashin, titular nas Copas de 58, 62 e 66, era conhecido como o Aranha Negra por seu uniforme todo preto. A lista de apelidos referentes a animais para jogadores é imensa…

Quando um jogador mergulha paralelamente ao solo para cabecear a bola, ele “dá um peixinho”. Um dos mais bonitos que vi foi do holandês Van Persie, na Copa de 2014, no jogo Holanda 5 X 1 Espanha. “Uma pintura!”, como dizem os cronistas esportivos. De fato, parece que o jogador está “nadando no ar” em direção à bola.

Na minha infância, orelha pregada no rádio, os narradores costumavam dizer que, quando um goleiro tentava interceptar uma bola aérea e não conseguia, havia saído “caçando borboleta”. Sempre gostei dessa! Muita imaginação e originalidade na composição de uma metáfora muito boa!

A Seleção Brasileira, bastante desprestigiada pelos fracassos em Copas recentes, é conhecida como a Seleção Canarinho, devido ao amarelo de seu primeiro uniforme. Os ingleses são conhecidos como os Leões, enquanto a França tem um galo em sua camisa e a Holanda traz um dragão preto no seu uniforme laranja.

Como se vê, os exemplos são muitos – porque a criatividade é inesgotável -, e não pretendo esgotá-los neste texto.

Ainda assim, eu não poderia deixar de lado a figura mais polêmica do futebol: o juiz. Bem, a ele já foram dirigidos milhares de adjetivos, milhões de xingamentos, trilhões de ofensas. Sua mãe é a figura mais lembrada no estádio! Os bichos mais frequentemente usados para a maior autoridade em campo são, por motivos óbvios, “rato”, “ratazana” e “gatuno”… mas, aí, em um país tão castigado pela corrupção, esses são adjetivos que cabem não só a juízes de futebol desonestos, não é verdade?

Bibliografia:

PRETI, Dino. A gíria e outros temas, São Paulo, Edusp, 1984, pp. 1-8.

PRETI, Dino (org.). Análise de Textos Orais, São Paulo, Edusp, 1993, pp. 215-228

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