ESTATÍSTICAS E O CORAÇÃO

 

 

“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia (…)”

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa

 

Nesta pandemia que se arrasta há mais de quatro meses (escrevo em julho de 2020), tenho visto pela TV depoimentos de médicos, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, filósofos, historiadores e jornalistas dizendo que temos de ter esperança, pois a ciência está empenhada contra o Covid-19 e uma vacina não tardará a ser desenvolvida.

Entre tantas informações contraditórias diante desse novo vírus, essa notícia é um consenso, bem como as declarações de que “esta nem é a pior pandemia da história da humanidade”, se pensarmos na Peste Negra, por exemplo. Gráficos, dados estatísticos, porcentagens, equações e mapas de incidência da doença preenchem as matérias jornalísticas de TV e internet, mostrando que “esta nem é a pior pandemia da história”. E eu fico pensando naquela pessoa que perdeu seu ente querido – sua mãe, seu pai, seu filho, sua esposa, sua avó, seu avô, seu amigo…

Para essa pessoa, não interessa que a Peste Negra, no século 14, lá na Europa, tenha matado mais do que o Covid, no século 21, aqui no Brasil. Não interessa que esta seja uma pandemia “menor” do que aquela. Não interessam os dados estatísticos, mas a perda triste e irreparável com a qual terá de conviver.

A frieza e a objetividade dos dados atingem qualquer pessoa mais sensível àquela mulher que chora a perda de seu filho para esse vírus vindo lá do Oriente; os números – otimistas ou pessimistas – são resultados de contas e mais contas de especialistas, mas são tão impessoais, meu Deus!, quando se pensa na casa que ficou mais vazia com a morte daquela mãe ou daquele pai.

Claro que os profissionais estão fazendo o seu trabalho ao informarem o que está havendo e comparando os (tristes) dias deste primeiro semestre de 2020 à longínqua Idade Média, mas não posso deixar de pensar no individual, no particular, na dor “de cada um”.

A primeira vez que ouvi falar em uma doença que estava assustando as pessoas foi em 1974, e ainda assim foi uma coisa muito estranha: vivíamos sob uma ditadura militar e tudo era censurado, principalmente notícias que pudessem mostrar um Brasil bem diferente daquele que o governo queria exibir para o mundo. E a meningite avançava, matando pessoas de maneira implacável. Eu tinha dez anos, e as professoras da escola estadual onde eu estudava driblavam a censura como podiam e instruíam as mães e os pais para, na medida do possível, evitarem a enfermidade.

Hoje, lendo alguns jornais da época, vemos como tudo era controlado para que os fatos não chegassem totalmente à população. Coisa horrível – bem parecida com a recente polêmica de controle de divulgação dos casos de Covid por parte do governo atual. Quanto mais muda, mais fica igual! (Vou manter a rima involuntária!)

A despeito da boa vontade de tantos profissionais na tentativa de nos consolar, dizendo que “esta nem é a pior pandemia que a humanidade enfrentou”, não se pode deixar de pensar em sepultamentos sem os familiares, proibidos de uma despedida por conta do vírus.

O rio que passa pela minha aldeia não é mais importante que o Tejo, mas é o meu rio, o pequeno rio que molha meus pés. Sua importância, ninguém tirará de mim.

Não me interessa a Peste Negra com seus milhões de mortos – o que me atinge é a pandemia atual que, embora “menor”, chegou à minha família e levou um pedaço de mim.

DE PRUDÊNCIO A GEORGE FLOYD
A LÍNGUA E A CRIATIVIDADE POPULAR

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