EM CASA

“Bem, fizemos uma promessa que juramos sempre lembrar / Nada de nos retirarmos, nada de nos rendermos / Como soldados na noite de inverno / Com um juramento a ser defendido / Nada de nos retirarmos, nada de nos rendermos (…)”

“No Surrender” (1984), Bruce Springsteen,compositor e cantor americano.

Nesta manhã ensolarada de outono, sinto-me tentado a sair para uma de minhas três caminhadas semanais. O rádio, a TV, os amigos pelo whatsapp, todos me dizem que não devemos sair de casa, que devemos respeitar a ordem de não sair às ruas para não disseminarmos (ainda mais) o tal coronavírus.

Antes de tudo, devo escrever que adoro ficar em casa. Se eu pudesse, trabalharia sempre daqui. Não chego a ser um misantropo, mas gosto do sossego que aqui encontro, além do silêncio e da paz essenciais para o trabalho intelectual. Estou bem em casa, não sinto angústia pelo “isolamento” que somos obrigados a obedecer, mas também gosto muito de caminhar pelos 90 minutos, ouvindo música, limpando os poros, gastando energia e (principalmente) caloria acumuladas.

Bem, se temos de ficar em casa, que fiquemos! Tenho amigos que seguem rigorosamente a ordem de não saírem às ruas; tenho também amigos rebeldes: não conseguem ficar em casa, demonstrando um desassossego muito grande. Dizem que a atual situação vai pôr fim a muitos casamentos… mas se chegarem a esse ponto, é porque  já estavam no fim muito antes de o vírus chegar da China.

Penso que a tecnologia tem sido a salvação da lavoura de muita gente. Como viveriam sem celular, internet, TV a cabo, filmes via Netlflix e Amazon? Como fariam se não pudessem recorrer às chamadas de vídeo para matarem a saudade de entes queridos que por ventura estejam em outra cidade, outro estado ou outro país?

No meu caso, além de tudo isso, sou “salvo” do tédio e do aborrecimento pelos livros que minha profissão sempre exigiu que eu comprasse… coisa que se tornou um hábito, graças a Deus! Ah, o prazer dos sebos na região da Praça da Sé, em São Paulo, onde podemos encontrar vários volumes de autores esquecidos ou volume esquecidos de vários autores!

Tenho tido a oportunidade de, morando só, rever alguns filmes em DVD (sim, eles ainda existem!) que os canais a cabo ou por “streaming” não exibem mais. E esse negócio de filme e música é muito pessoal – tem a ver com nossa história, com as lembranças acumuladas e com as experiências vividas… nosso patrimônio intransferível.

Meu desejo, óbvio, é que isso passe logo e que as pessoas voltem à sua rotina de trabalho, de viagens, de reuniões com amigos e familiares, de idas à praia, de passeios aos parques etc. Enquanto tudo não se resolve, porém, que façamos um bom proveito desse tempo em casa! A inteligência não pode, não deve ser sobrepujada pelo instinto e pelo costume adquirido ao longo dos anos. Se hoje não saio para ver meus amigos, tenho a certeza de que, onde eles estiverem, estarão pensando em mim e com saudade de mim como eu penso neles e sinto a falta de sua companhia.

As risadas voltarão, a cerveja voltará, os campeonatos de futebol voltarão também. Os cinemas, os teatros, os restaurantes serão reabertos. É uma questão de paciência e de cuidado com a própria saúde e com a dos outros, principalmente idosos.

A humanidade já enfrentou períodos assim – lembremos da Peste Negra. Não somos os primeiros, nem seremos os últimos que enfrentam dias de tensão e tristeza com a perda de tantas vidas. Sejamos bravos! Sejamos pacientes! Cada um com sua fé.

Talvez caibam, aqui, uns versos antigos… daqueles que vão diretamente ao ponto e nos fazem pensar:

 

INEVITÁVEL

 

Sucedem-se tremendos cataclismos,

Em cada um de nós, por toda a Terra;

Martírio fundo: a peste, a fome, a guerra,

Cavando a Morte abismos sobre abismos.

 

Em cada um de nós, traições, cinismos,

Qualquer homem em si um drama encerra,

Que o esmaga cruel e que o aterra;

A Dor produz ignotos heroísmos.

 

Contudo o sol espalha a luz intensa,

Cheia de brilho, fogo… e indiferença,

Na órbita jamais interrompida.

 

E sobre o infinito sofrimento,

Sem se deter também um só momento,

Desliza o carro triunfal da vida!…

 

Cruz Magalhães (1864 – 1928), poeta português.

 

A SOLIDÃO
OS VERBOS “VIR” E “VER”

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11 Comentários. Deixe novo

  • Suas palavras, nos provoca momentos de reflexão. 👏👏👏

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  • Resume bem o sentimento que estamos vivenciando neste momento.

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    Suzy Aparecida Colli
    abril 6, 2020 10:37 pm

    Amoooo !!!!!😘
    Fique em 🏠 hein !!!!😅😅

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  • Morar num lugar sossegado, sozinho e com o seu preparo intelectual resultam em crônicas impecáveis, como sempre. Tenho certeza que depois do isolamento social necessário teremos outros textos mais magníficos. Parabéns, Vitão. Saudades dos nossos papos e risadas. Forte abraço

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    Edilson Cardoso
    abril 7, 2020 2:36 pm

    Sim, tudo voltará na sua normalidade! E eu também curto a paz, sossego, calmaria e pelo fato de morar no interior, temos esse privilégio todo. Vamos, sim, nos resguardar, sair somente em caso de necessidade.

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    Angelo Antonio Pavone
    abril 7, 2020 3:47 pm

    Olá Prof Vitor
    Belo texto sobre esta quarentena forçada. A nossa inteligência não pode nos abandonar : música, livros, amigos, companheiros, não estamos sós.
    “nada de nos rendermos “, como diz Bruce.

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    Selma Pavone
    abril 7, 2020 6:07 pm

    Sua crônica, também me ajuda na quarentena. Muito legal!

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    Clarice keri
    abril 8, 2020 9:33 am

    Ótimo comentário sobre nosso momento atual, é muito bom saber q não estamos só, o mundo esta pensando em ler um livro….

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  • Maravilhoso! Adorei ler sua crônica hoje! E que poema lindo ao final. Amei!

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    Baltasar Pereira
    abril 8, 2020 8:18 pm

    Belas Palavras sobre este momento atual que chamo como sendo a “Gripe Espanhola” da Era Digital que aliás nem foi gripe espanhola pelo que disseram em algum programa de TV.

    Texto apropriado a este momento,pois como foi dito há pessoas que ficam de Boa em quarentena outras nem tanto e outras não conseguem mesmo ficar isoladas.

    De qualquer maneira,vamos sair desta mais enriquecidos,mesmo que algumas vezes com grandes dores.

    Bela Crônica.

    Como sempre gosto dos trechos de Músicas, Poesias ou Trechos de livros aqui apresentados.

    👍👍👍

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  • Que saibamos aprender algo nisso. Em casos de crise conhecemos mais o ser humano. E nós mesmo.
    Obrigada pelo lindo texto e reflexão que foi lido como se eu estivesse te ouvindo falar. Saudades já professor!

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