DIREITO À TIMIDEZ

Clarice Lispector, em uma de suas crônicas, intitulada “Vergonha de Viver”, confessa ter sido uma criança muito tímida, muito retraída e, por isso mesmo, bastante solitária. “Há pessoas que têm vergonha de viver. São os tímidos, entre os quais me incluo. Desculpem, por exemplo, estar tomando lugar no espaço. Desculpem eu ser eu. Quero ficar só! – grita a alma do tímido, que só se liberta na solidão. Contraditoriamente, quer o aconchego das pessoas (…) Sempre fui uma tímida muito ousada”.

A autora de “A hora da estrela” vai relatando os episódios difíceis por que passou em função da luta que travava contra esse sentimento.  A crônica é, ao mesmo tempo, saborosa e triste, com um leve toque de bom humor. Lembro-me de ter tomado contato com esse texto numa aula do antigo ginásio (quantos anos!) e, de certa forma, lembro-me também de ter me identificado um pouco com ele. Eu não era um tímido radical, mas tinha vergonha de muita coisa – eu era incapaz, por exemplo, de frequentar os bailinhos da turma, pois não saberia me comportar pra tirar alguém pra dançar etc. De jeito nenhum! A simples ideia disso me aterrorizava. A exemplo de Clarice, canalizei essa timidez com ousadia, mas para o esporte: na quadra da escola ou com a molecada na rua, eu organizava os times, gritava, dava bronca e até apitava o jogo se fosse necessário.

Olhando pra trás, hoje eu acho que  esse comportamento era mesmo uma compensação pelo meu retraimento em casa e na sala de aula.

Havia, porém, jovens mais tímidos do que eu. Não raramente, tínhamos que apresentar alguma peça de teatro nas aulas de Comunicação e Expressão em Português ou de Educação e Expressão Artística. Às vezes, nós mesmos escrevíamos as peças(!), às vezes eram peças tiradas da Literatura Brasileira, isto é, de algum trecho de alguma obra importante. Uma vez, tivemos que apresentar um “telejornal”: a bancada era composta por 4 alunos e a professora, juntamente com a classe, avaliaria não só o modo como apresentaríamos, como o português utilizado pela moçada.

E, na iminência de tudo isso, alguns amigos meus sofriam por antecipação, pois tinham horror a sair de suas cadeiras para dirigirem-se à frente da classe, o lugar que era da professora por excelência. Nossa professora, Elizabeth, era condescendente e nos ajudava no caminho da extroversão que nem todos possuíam.  O problema não eram os professores – eram os próprios alunos e a prática do que hoje se chama “bullying”.

Graças ao tal de Facebook e outros recursos, tomei contato com alguns amigos daquele época, 40 anos depois. Para minha surpresa, tivemos várias conversas sobre o quanto vários deles ficaram marcados por ofensas e risadas dos “colegas”, principalmente na hora do recreio ou, como se diz hoje, do intervalo. Tudo era motivo para a gozação e para a “tiração de sarro”, como dizíamos à época. Se o sujeito fosse desinibido, muito bem: ele tirava aquilo de letra e bola pra frente. O problema eram os tímidos, aqueles que simplesmente baixavam a cabeça e tornavam-se os sacos de pancada dos mais “engraçadinhos”. Penso que isso sempre existiu e sempre existirá de alguma forma. Depois de adultos, nem sempre a coisa é superada.

Hoje, esse assédio moral – como é chamado – apresenta requintes de crueldade: pode-se (embora não se deva!) cometê-lo via redes sociais, em período integral, digamos. E, como sempre aconteceu, qualquer motivo serve para o tal do “bullying” – ou porque a criança foi a única a tirar nota vermelha numa prova considerada fácil… ou a única a tirar nota azul numa prova considerada difícil; ou porque ela é a única negra da classe, ou porque ela é a única ruiva; ou porque ela é a mais alta, ou porque é a mais baixa… e por aí vai. Tudo isso, como eu escrevi acima, torna-se mais grave quando a vítima é uma criança tímida.

Aprendi, contudo, que uma “exagerada extroversão” também pode não ser um bom sinal. Tínhamos uma amigo de Alagoas que chamávamos de “baiano” (e nunca paramos para pensar se isso o ofendia!). Ele era engraçado, falava alto, fazia perguntas em sala de aula, conversava com todos. Tê-lo no grupo de estudos era diversão garantida… mas parece que, em casa, seu pai era extremamente rígido com ele. Foi grande o nosso choque quando soubemos que havia se suicidado com apenas 13 anos de idade. Talvez sua alegria contagiante fosse um modo de esconder a tristeza que possuía intimamente.

Já adulto, trabalhei com muita gente que, na sala dos professores, era muito tímida, quase não falava, tinha vergonha de expor suas opiniões e considerações. Eram professores retraídos, encabulados, bastante ensimesmados, mas profissionais extremamente competentes quando subiam no tablado e davam aula para 180, 200 alunos em cada sala. O microfone, o avental, o giz e a lousa operavam milagres sobre eles. Impressionante!

Parece que o mesmo fenômeno se repete amiúde com figuras públicas do mundo das artes, dos esportes e da política. Pessoas que, fora do trabalho, recolhem-se e evitam a todo o custo o contato com a “badalação” do mundo moderno. Um amigo meu que conhecia pessoalmente o poeta Carlos Drummond de Andrade dizia o mesmo sobre o escritor mineiro. Dizia que Drummond preservava muito sua privacidade – em parte por timidez, em parte por sabedoria.

OS TAIS VERBOS DO “MÁRIO”
O QUE SÃO “VERBOS IMPESSOAIS”?

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13 Comentários. Deixe novo

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    Monica Paula
    julho 3, 2019 4:02 am

    Belíssimo texto! Fala de uma questão que parece banal, mas que está longe disso!
    Na escola, eu sempre fui mais desinibida, mas sempre procurei olhar para os mais retraídos para justamente integrá-los. E até hoje é assim! No meu trabalho mais recente, tinha uma menina tímida ao extremo. Web designer, era a única negra do pedaço e ficava muito na dela. Aos poucos, fomos a fomos integrando ao grupo e deu muito certo! É papel ‘sine qua non’ dos mais soltos ajudar neste processo, mas sem forçar a barra. Gostei muitíssimo da leitura. Obrigada!

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    Marcelo Ares
    julho 3, 2019 4:39 am

    Da timidez ao brilhantismo
    Exemplos? Clarice e Vitor

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    VERONICA MUCURY
    julho 3, 2019 10:47 am

    As nossas dualidades…..

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  • Adorei! Tanta gente famosa que é tímida. Mas supera e transforma em arte! Muito legal!

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    Alahkin Barros
    julho 3, 2019 1:47 pm

    Belo texto. Toca em assunto delicado com muita leveza.

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  • Sempre um primor e uma leveza.

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    Thamara Chaim
    julho 3, 2019 2:05 pm

    Linda a crônica! Parabéns!
    Muito sensível à causa.
    Me identifiquei e ainda me identifico bastante com ela. Eu nunca fui uma criança solitária, porque eu sempre fui muito carinhosa e acabava fazendo amizades, mas eu sempre tiver pavor de me expor. Era muito difícil pra mim e isso me causava/causa alguns bloqueios.
    Esta passagem “E, na iminência de tudo isso, alguns amigos meus sofriam por antecipação, pois tinham horror a sair de suas cadeiras para dirigirem-se à frente da classe, o lugar que era da professora por excelência. ” eu vivenciei constantemente. É uma crônica bastante reflexiva também, a respeito de como os extremos nunca são bons. Já dizia Frejat, ” E que você descubra que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero.”

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    ANGELO ANTONIO PAVONE
    julho 3, 2019 3:18 pm

    Prof. Vitor
    Muito bom texto, com tema atual e temperado com pitadas de humor.
    Parabéns

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  • Eu aprendi a preservar a minha privacidade por sabedoria e não por timidez! Aliás “ela” não foi e não é presente na minha vida.

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    Shirleyne Grané Diniz
    julho 3, 2019 5:16 pm

    Nossa…. demais… adoro ler suas crônicas principalmente quando remetem à nossa vivência.

    Aguardo a próxima!!! 😉

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    Fernando Andrade
    julho 3, 2019 6:06 pm

    Lendo seu texto até parece que fomos contemporâneos em sala de aula. Obrigado por compartilhar sua experiência e ao mesmo tempo me levar a reflexão.

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    Omar Fadil Bumirgh
    julho 4, 2019 12:41 am

    Belo texto, tratando de maneira leve um tema sério e deixando o recado certeito.Abraço

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    Baltasar Pereira
    julho 4, 2019 12:53 am

    Gostei muito do Texto. Ele vai nos envolvendo e não conseguia parar de ler . Trata de um tema que mexe com todos nós. Desde a Timidez exagerada a Alegria exagerada. Eu passei tanto pela timidez como pela alegria exagerada e como não falar do bullying. Finalizando ,Texto que me agradou muito.

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