DIREITO À SAÚDE

Escrevo no “Dia Mundial sem Tabaco”, 31 de maio, data de cuja existência eu nem desconfiava, apesar de ter sido instituída em 1987 pelo Organização Mundial da Saúde, segundo me conta um amigo médico. As notícias são boas: consta que, devido à proibição do cigarro em locais fechados, o número de casos de câncer nos chamados “fumantes passivos” diminuiu consideravelmente. Muito, muito bom!

Além disso, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) informa que “medidas restritivas ao cigarro no Brasil evitaram a morte de  15 mil crianças entre 2000 e 2016”, outra notícia a ser comemorada. O mesmo instituto alerta para o fato de que “ainda no útero, a exposição do bebê às substâncias do cigarro pode causar problemas de desenvolvimento, um parto prematuro ou um nascimento com peso abaixo da média, entre outros problemas bastante sérios”.

Sou do tempo em que se podia fumar em locais fechados e me lembro de chegar à minha casa, depois de uma noitada com os amigos, com a roupa impregnada e o cabelo parecendo um verdadeiro maço de cigarro. Um horror! Jamais fumei ou tive vontade disso, mas o povo fumava em restaurantes, bares, boates, aviões etc. Meu alívio foi muito grande quando começou a proibição desse hábito em locais de concentração de pessoas, pois todos nós que não fumávamos éramos os chamados “fumantes passivos”.

No fim dos anos 70 e começo dos anos 80, eram muitas as notícias sobre os males do tabaco e muita gente tomava consciência de que havia sido enganada durante muitos anos pela indústria do cigarro. O glamour que os antigos astros de Hollywood sugeriam quando fumavam em cena – Bette Davis à frente deles – era fatal, e nem mesmo os atores e atrizes sabiam do perigo de tal hábito. A propaganda tabagista era muito forte, e todos deviam ter desconfiado quando o “Homem de Marlboro” morreu exatamente de câncer.

Quando eu dava aula de Redação em cursinho pré-vestibular, levei para os alunos um tema que, na verdade, era mais uma dúvida minha do que outra coisa. Revoltados com as consequências das muitas substâncias presentes nos cigarros, os fumantes e seus parentes iniciaram uma nova empreitada contra a indústria tabagista – muitos procuraram os meios legais para processarem os grandes fabricantes. Isso começou nos Estados Unidos e chegou aqui rapidamente. Lembro que propus aos alunos que escrevessem sobre a seguinte questão: “É justo processar-se uma empresa de cigarros pela morte de um fumante, vítima desse vício?”. A resposta pode parecer óbvia ao leitor, mas não creio que ela seja tão fácil. Lembro-me de ter ouvido e lido boas argumentações, tanto por parte de quem achava justo processar, quanto da parte de quem não concordava com isso, argumentando que a responsabilidade era do fumante se fosse maior de idade.

Uma outra questão diz respeito à proibição da propaganda desse produto. As propagandas são realmente sedutoras e erra quem menospreza seu poder. Aqueles da minha geração certamente vão se lembrar das deliciosas músicas tocadas nas propagandas do “Cigarro Hollywood – O sucesso!”. “Your love” (Outfield), “Did it all for love” (Phenomena II), “Don´t stop believing” (Journey), “Miles away” (Winger) e tantos outros que marcaram minha adolescência. Acho o assunto bem espinhoso do ponto de vista legal. Não sou advogado, nem médico, tampouco administrador de empresas, mas sempre achei estranho que uma indústria que paga impostos, gera empregos, está funcionando de acordo com a lei e não é “clandestina” não possa anunciar seu produto. Não sei se me faço entender: se o produto pode ser vendido, então ele deveria poder ser anunciado. Repito que não fumo, não gosto do cheiro, não gosto do hálito de um fumante, mas tento pensar racionalmente. E, aí, a comparação é inevitável: por que o álcool pode fazer tudo isso que é vedado ao cigarro?

Quando eu era menino, ouvia as pessoas dizerem que a propaganda do cigarro “era enganosa”. Ora, a do álcool não o é? Somos bombardeados por comerciais  – na maioria das vezes, ridículos – que nos querem passar uma mensagem de felicidade, alegria, realização profissional, realização sexual/sentimental, confraternização, companheirismo, juventude, esperteza e outros sensações que só determinada cerveja “pode proporcionar”. Acho o vício do álcool muito mais traiçoeiro que o do tabaco: nossos jovens estão bebendo cada vez mais e cada vez mais cedo. Para muitos deles, qualquer reunião com os amigos seria impensável sem cervejas, caipirinhas e que tais. Algumas pesquisas mostram que a maioria dessa moçada começa a beber dentro de casa, o mesmo acontecendo com o vício do cigarro.

Curiosamente, as pessoas condenam o cigarro (e com razão!), mas não sentem vergonha ao dizerem: “Sou fumante há muito tempo, fumo três maços de cigarro por dia e não consigo parar”. Já ouvi  coisas assim de pessoas de todas as idades. Isso, porém, não acontece quando o assunto é o alcoolismo: ainda que a bebida seja muito bem aceita em nossa sociedade, dificilmente alguém assumirá sua dependência perante os amigos e familiares. Até que um alcoólatra confesse seu estado para si e para os outros, muita coisa ruim já pode ter acontecido.

Não se podem, contudo, fechar os olhos para o poderio econômico da indústria do álcool. Muito, muito dinheiro corre solto em patrocínios e impostos. São muitos empregos gerados e a associação dessa substância ao prazer é muito forte. Certamente, o fato de eu ter perdido para o álcool duas pessoas muitos queridas – meu avô e meu pai – explica a razão de minha aversão a ele e a tudo o que ele represente. Depois do que vi em minha família, não consigo embarcar nas propagandas e associar bebidas alcoólicas ao prazer e à alegria. Triste você testemunhar pessoas importantes para você definhando pouco a pouco sem conseguirem largar o vício. (Obviamente, existem aqueles que apreciam bebidas alcoólicas a vida inteira sem nunca serem viciados e dependentes.)

Escrevi e defendi minha dissertação de Mestrado não na Medicina, mas sobre a Medicina: fiz uma comparação, na área da Semiótica e Linguística, entre os textos de jornalistas e os textos de médicos sobre o câncer, isto é, fui constatar como é que jornalistas e oncologistas escreviam sobre essa doença terrível, procurando estabelecer diferenças e semelhanças do ponto de vista da Análise do Discurso desses profissionais. O título da dissertação foi “Aspectos da construção da significação do discurso científico e do discurso jornalístico sobre ciência” – título pomposo sugerido por minha orientadora e aceito por mim.

Muitos oncologistas com quem conversei alertavam para o problema de se falar apenas em câncer de pulmão quando o assunto são tabaco e bebida alcoólica – pouco se divulga que essas substâncias já começam a fazer estragos no lábio, na mucosa bucal, na língua, na faringe, na laringe e na traqueia. Durante minha pesquisa, vi algumas palestras nas quais os médicos apresentaram imagens assustadoras de cirurgias e mutilações em decorrência de câncer provocado por álcool e tabagismo.

A criatividade dos jovens não tem limites. Certa vez, um aluno foi ao cursinho com uma camiseta que nunca mais me saiu da lembrança. A camiseta trazia “A turma do C”: cigarro, charuto, cachimbo, cachaça, caipirinha, conhaque, cerveja, cinzano, champanhe,  cirrose, câncer, caixão, cemitério.

É pra se pensar…

                    

        

 

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