DE PRUDÊNCIO A GEORGE FLOYD

 

“Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de ‘menino diabo’; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher de doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, – algumas vezes gemendo, – mas obedecia sem dizer palavra, ou quando muito, um – ‘ai, nhonhô!’ – ao que eu retorquia: – ‘Cala a boca, besta!’”.

O trecho acima faz parte do grande livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de 1881, com o qual nosso escritor maior inovou nossa literatura, introduzindo o Realismo no Brasil, segundo aprendemos na escola.

O termo “crônica”, ensinam os dicionários, faz alusão ao texto que possui uma ligação com o “tempo presente” (do grego “cronos”, tempo) e, assim, normalmente esse gênero aborda temas que estejam em pauta, que sejam motivo de reflexão e discussão por parte de seus leitores. Uma outra característica muito comum na crônica vem a ser a crítica feita de modo claro ou de maneira irônica, nas entrelinhas, provocando aquele que lê e fazendo com que ele pense.

Hoje, dois assuntos poderiam ser abordados neste texto: a pandemia da Covid-19 e a morte do afroamericano George Perry Floyd Jr. Vou falar de Floyd: ele foi assassinado em Minneapolis, no dia 25 de maio de 2020, estrangulado por um policial branco: este  ajoelhou-se no pescoço do homem durante uma abordagem, porque a vítima supostamente usara uma nota falsificada de vinte dólares em um supermercado. O fato gerou protestos no mundo inteiro e incendiou as ruas das principais cidades dos Estados Unidos, levantando um outro debate sobre o eterno problema do racismo que já vitimou milhares e milhares de pessoas aqui, lá e em outras partes do mundo.

Difícil saber o que se passa na cabeça de quem se considera superior ou “melhor” apenas porque a cor da pele do outro é diferente. Difícil entender esse tipo de comportamento que vem de tantos séculos e que parece se perpetuar, geração após geração, como uma herança cultural deixada pelos brancos.

Recebi um vídeo pelo Whatsapp no qual um homem branco chama seu filho de sete ou oito anos e lhe mostra na tela do computador seis pares de crianças. Todos os pares são formados por uma criança branca e uma preta. Ao fim, o pai pergunta ao garotinho o que foi que ele viu e o menino responde: “Crianças se abraçando”. O vídeo, apesar de sua ternura, ilustra o óbvio: preconceito, a gente aprende; ninguém nasce fazendo distinção de cor, gênero, religião etc. O seu filho pequeno terá a visão de mundo que você ensinar a ele. E aqui volto ao texto de Machado de Assis, lá do topo da página.

Entre outras críticas ferozes – mas feitas com bom humor e ironia – no grande livro do Bruxo do Cosme Velho (como Machado era carinhosamente chamado), está o retrato da escravidão e suas crueldades impostas àquelas pessoas que eram tratadas como mercadorias, como objetos que poderiam ser negociados, comprados, vendidos, chicoteados, humilhados e assassinados. Machado mostra, com o menino Brás Cubas, a naturalidade dos maus tratos entre os “senhores brancos” e sua “propriedade”. O garoto é mau, mas, como tem a aprovação dos pais, bate porque pode bater, maltrata porque pode maltratar, manda porque pode mandar. A coisa seria um pouco (bem pouco!) melhor caso isso tivesse ficado no passado… mas a gente sabe que não ficou. A gente sabe que o que matou Floyd e tem matado tantos no Brasil é o sentimento ainda persistente de que o racismo é legítimo e, se sou branco, posso tudo.

Há alguns anos, estive na África do Sul com uma grande amiga. Tudo era festa, pois o terrível “apartheid” havia acabado e já não havia a medonha segregação no país – isso é o que os jornais e livros diziam e dizem! Na prática, a coisa era bem diferente: em restaurantes, praias, lojas, aeroportos, pudemos ver pretos e brancos no mesmo recinto, mas longe de uma convivência. Víamos grupos de negros e grupos de brancos com uma certa distância entre si. Estavam no mesmo lugar, não havia a proibição para os negros, mas não havia interação, não havia qualquer ligação entre as pessoas de cores diferentes. E por quê? Porque racismo não é uma coisa que se elimine somente com um decreto. Racismo só se elimina com a educação dos mais jovens, racismo só se elimina com os mais velhos mudando seus hábitos para que seus filhos adotem o mesmo comportamento.

Quando estudamos a chamada Terceira Fase do Romantismo Brasileiro, encontramos um movimento denominado de “Condoreirismo”, em alusão ao condor e à liberdade que ele sugere com seus altos voos. O maior expoente desse período vem a ser o baiano Castro Alves, com sua magnífica obra, “O Navio Negreiro”, de 1870, no qual o poeta relata os horrores a que eram submetidos os escravos nas viagens da África até aqui. São muitos os estudiosos que afirmam: “O poema efetivamente concorreu para a abolição da escravidão no país, devido à força e ao ímpeto de seus versos”.

Na era da imagem, a cena do policial asfixiando Floyd foi chocante. As últimas palavras do rapaz de quase 43 anos viraram um “slogan” nos protestos pelo mundo: “I can´t breathe” (“Não consigo respirar”), ele dizia. Há alguns séculos, tem lhes sido impossível respirar!

O Brasil foi o último país do mundo a dar fim à escravidão, mas, a exemplo do que ocorre lá na grande nação do norte, os efeitos do tráfico de pessoas (como se fossem animais ou mercadorias) se fazem sentir até hoje – na educação, na economia, no mercado de trabalho, nas relações de amizade, nas relações amorosas etc. Minha mãe contava aos filhos – e isso nunca foi segredo para meu pai – que ela havia sido proibida de, na adolescência, namorar um rapaz da mesma rua, por puro preconceito de ambas as famílias. Tanto meu avô quanto a mãe dele não aprovavam o namoro porque ele era preto e minha mãe, branca. Isso há 60, 65 anos. Vejam que não estou falando da época do Brasil Império!

Bem, as mortes de crianças e de jovens negros nos morros do Rio de Janeiro, vítimas da polícia daquela cidade, fazem com que tenhamos de olhar também, e sobretudo, para o nosso próprio quintal, embora a morte de Floyd tenha sido realmente chocante. (A violência policial no Rio daria um outro texto!)

Voltando ao romance, vale a pena dar uma lida no capítulo 68, “O Vergalho”, aquele em que o narrador, já adulto, reencontrará Prudêncio – agora livre, é ele quem chicoteia seu escravo em praça pública, para espanto de Brás Cubas. Até mesmo o menino Prudêncio?

Nunca foi tão importante ler Machado de Assis e Castro Alves! Vamos a eles!

 

 

 

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