DAS RELAÇÕES HUMANAS – I

 “Quando terminam os favores, começa a 

 ingratidão” – provérbio português

        Faz alguns dias, eu estava assistindo a uma antiga entrevista da grande atriz Bette Davis para a TV americana pelo Youtube. Em certo momento, o entrevistador perguntou a ela como era a relação com os grandes chefões do cinema. Ela foi direta: “Se você entrar neste ramo esperando gratidão e ‘muito obrigado’, desista… você não ouvirá isso por parte dos estúdios”.

Há um disco da cantora Zizi Possi, de 1980, no qual se pode ouvir uma canção intitulada “Mamãe Merece”. No bonito encarte do LP e do CD, lê-se a seguinte explicação: “Esta versão foi baseada na canção de Billie Holliday e Arthur Herzog Jr. – ‘God bless the child’: a cantora realizou o grande sonho de sua mãe, dando-lhe um restaurante. Na sua primeira crise financeira, Billie recorreu à mãe, pedindo-lhe auxílio, e recebeu como resposta um verso da canção: ‘Você pode se servir, mas não pegue muito!’. Tomada de grande depressão, Billie procurou Herzog e, naquela mesma noite, nasceu o grande sucesso ‘God bless the child’ na voz da própria cantora”.

Certa vez, minha mãe e eu viajamos com um grupo de amigos para fora do país. Era verão e estávamos aproveitando a noite quente e a brisa que vinha do mar, enquanto jantávamos ao ar livre. Na hora da sobremesa, propus a seguinte questão às cinco outras pessoas que estavam à mesa: “Gente, para vocês, qual a pior coisa do ser humano?”. As respostas foram as mais variadas, revelando as feridas de cada um. Minha mãe foi muito objetiva e nunca vou me esquecer de suas palavras: “Olhem, o ser humano é capaz de muita coisa ruim, mas há uma que eu não tolero: a ingratidão. E parece que está na moda”. Minha mãe estava muito magoada com algumas pessoas da família, e eu sabia exatamente por que ela dizia aquilo.

Todos conhecem a “Fábula do Escorpião e da Rã”, texto famoso de Esopo, com o qual o autor grego nos traz vários ensinamentos. Na história, um escorpião pede a uma rã que o leve à outra margem de um lago, pois o “bicho rabudo” não é um animal aquático. A rã, conhecendo a fama do outro, recusa-se (como qualquer ser inteligente faria), mas, diante da insistência do escorpião e da promessa de que não picaria a rã – “Onde já se viu pagar assim a um favor?” -, esta cede e lhe dá uma carona, permitindo que o outro suba em suas costas. No meio do lago, o escorpião lhe dá uma bela ferroada. A rã, já sentindo o efeito letal do veneno, olha para trás e pergunta: “Por que o senhor fez isso? Agora, vamos morrer os dois…”. Ao que o escorpião responde: “Desculpe, dona rã. Essa é minha natureza!”.

Dessa simples fábula, podemos tirar vários ensinamentos: não confie em quem promete o que não pode cumprir; não confie em quem não tem amor à própria vida, pois ele não terá amor à vida alheia; não confie em quem age por instinto e não pela razão etc. A história também fala da ingratidão e como ela é capaz de nos ferir – literal e metaforicamente. Há pessoas que, com a maior desfaçatez, justificam sua ingratidão alegando que são “autênticas”, “sem máscaras” e que “respondem à sua natureza”.

Há algo de sórdido na pessoa ingrata. Primeiro, parece ser um lobo em pele de cordeiro – para ficarmos no campo da fábula e da personificação -, uma vez que não reluta em mostrar-se frágil, dependente da caridade alheia como uma Blanche Dubois de “O bonde Chamado Desejo”, peça de Tennesse Williams. Depois, fala com uma voz açucarada, visando a enganar quem lhe der ouvidos, sempre sondando o que pode sugar do outro, sua vítima em questão. Uma vez obtido o benefício, não pensa duas vezes em pagar com a indiferença ou mesmo com o insulto da arrogância. E, àquele que fez o favor, restam os chamados cinco estágios do sofrimento, segundo os psicólogos: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Não cabe aqui a discussão de cada um deles, mas os mais perigosos vêm a ser a depressão e a aceitação.

A depressão, por tudo aquilo que se sabe sobre este terrível estado da alma; a aceitação, porque abrimos as portas para que outros ingratos se aproximem. O americano Andrew Solomon, em seu ótimo livro “O demônio do meio-dia”, traz uma entre muitas definições desse mal que assola milhões de pessoas pelo mundo: “A depressão é a solidão dentro de nós que se torna manifesta e destrói não apenas a conexão com os outros, mas também a capacidade de estar em paz consigo mesmo”.  Quero voltar ao tema em outra ocasião, em outro texto,  com um pouco mais de profundidade…

A ingratidão é poderosa. Ela mexe com nossa autoestima, faz com que questionemos nosso amor próprio, já que somos usados e “jogados fora” pelo ingrato, sem maiores explicações. Uma vez obtido o favor, somos descartados como lenços sujos, e isso, definitivamente, pode ser um passo muito grande para a tristeza, para a melancolia e para a dor, principalmente quando somos vítimas de pessoas que amamos. Parece lícito dizer que a ingratidão de estranhos pesa muito menos do que a ingratidão de amigos, de parceiros afetivos e de familiares.

Ingratidão é sempre sinônimo de decepção. Uma traz a outra a reboque, puxando pela mão e fazendo-lhe companhia. Causa e efeito, essa dupla pode apresentar outros derivados, como expus acima.

Nem sempre somos conscientes do mal que fazemos a alguém, mas o ingrato age, parece-me, de caso pensado. Ele pede o favor, às vezes humilha-se para obtê-lo, mas sabe que virará as costas a quem lhe fizer o bem.

Certa vez, vi uma entrevista de uma psiquiatra na TV – não vou me lembrar nem do médico, nem do programa – na qual ele explicava: “Na relação de dois sujeitos, o beneficiado parece estar sempre numa condição inferior; o beneficente, acima do outro. Assim, com muita frequência, aquele que obteve o favor sente uma raiva oculta daquele que o beneficiou, pois este estava numa condição melhor. Em suma, muitas vezes o favor gera mais o ódio do que a gratidão”.

Que essas palavras não nos afastem de fazer o bem! Que encontremos almas gentis e gratas pelo nosso caminho, e que sejamos, nós mesmos, seres suficientemente grandes para, com humildade, reconhecermos o bem que nos foi concedido.

Quando a cultura do reconhecimento estiver em prática, ocorrerá uma troca benéfica a todos. E, muitas vezes, ela requer uma atitude simples de um “muito obrigado”, “como posso retribuir?”, “você me ajudou muito”.

OBRAS CITADAS:

ZIZI POSSI – LP Philips, 1980; CD, 2002 –  “Mamãe Merece” , versão de Augusto de Campos e Rogério Duarte (“God bless the child”, Billie Holliday and Arthur Herzog Jr.)

“Um bonde chamado desejo /”Uma rua chamada pecado” (A street car named desire), filme baseado na peça de Tennesse Williams, com Marlon Brando e Vivien Leigh, direção de Elia Kazan, Warner Brothers, 1951.

ESOPO – Fábulas, São Paulo, Editora 34, 2017.

SOLOMON, Andrew – O demônio do meio-dia, São Paulo, Companhia das Letras, 2014, p.15.

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