CÃES E GATOS

Nos Estados Unidos – não sei se nos outros países de língua inglesa também -, quando está chovendo muito, diz-se que “it´s raining cats and dogs” (“está chovendo gatos e cachorros”) e, curiosamente, ninguém sabe como surgiu a expressão. Embora não tenhamos essa construção em português, não deixa de ser curioso observar como esses animaizinhos estão presentes também na nossa linguagem coloquial, aquela do dia a dia. Vejamos alguns exemplos…

Havia um jornal em São Paulo chamado “Notícias Populares”, ou simplesmente “NP”, que circulou de 1963 a 2001. Sua “especialidade” eram notícias sobre violência e sexo e suas manchetes nunca passavam despercebidas nas bancas de jornais. Era impossível não ver o que estampavam, e seus leitores se deliciavam com aquele que era conhecido como um “mundo-cão”: o submundo da prostituição, das drogas, dos assassinatos, dos crimes passionais etc. A expressão “mundo-cão” nunca foi utilizada de forma tão perfeita como para qualificar o NP. No rádio, seus equivalentes eram os apresentadores/locutores Gil Gomes e, pouco depois, Afanásio Jazadji. Era “mundo-cão” diariamente pra ninguém botar defeito! Na TV, tivemos e temos alguns programas da mesma estirpe como “O homem do sapato branco”, “O povo na TV” e “Casos de Família”, entre outros. Baixaria e lavação de roupa suja mesmo!

Quando duas pessoas muito poderosas se enfrentam – por qualquer questão, problema, desentendimento ou simplesmente birra -, dizemos que estamos diante de uma “briga de cachorro grande”. E a gente fica imaginando dois dobermans se engalfinhando até a morte. A expressão é usada na política, nas relações internacionais… em suma, é utilizada quando se quer falar de qualquer enfrentamento em que ambas as partes despertem o respeito do público. Nem preciso dizer o quanto cronistas esportivos a utilizam para falar de jogos entre times muito fortes e, teoricamente, candidatos ao título de um campeonato.

As pessoas que gostam de fazer chantagem emocional frequentemente mostram “cara de cachorro abandonado”; dizemos que os desorientados e perdidos na vida estão “mais perdidos que cachorro em dia de mudança”; já os mais politicamente incorretos, quando encontram uma pessoa de cuja aparência não gostam, dizem que “fulano é mais feio que o cão chupando manga” (embora eu nunca tenha visto um cachorro fazendo tal coisa…).

Quando alguém leva uma vida muito difícil, com muitos problemas e tristezas, dizemos que ele “leva uma vida de cão”… porém Eduardo Dusek, no seu “Rock da Cachorra”, recomenda: “Troque eu cachorro por uma criança pobre / Sem parentes / Sem carinho / Sem rango / Sem cobre” e, mais adiante, “Tem muita gente por aí que tá querendo / levar uma vida de cão /  Eu conheço um garotinho que queria ter nascido / pastor alemão”. Mas esse negócio de bicho tratado como gente já é um outro problema…

O rapaz excessivamente ciumento é um “cão de guarda” da namorada; uma pessoa em apuros está “num mato sem cachorro” ou está “matando cachorro a grito”; o ditado popular diz que “é melhor ter um cachorro amigo que um amigo cachorro”.

Há um outro que eu aprendi com meu avô e que guardo para a vida inteira: quando se é alvo de severas críticas, quando todos ao seu redor não acreditam naquilo que você acredita e faz, não se esqueça de que “os cães ladram e a caravana passa”. E por muitas vezes pude atestar a veracidade disso. Há sempre alguém para nos criticar e tentar nos fazer mudar de rumo… devemos seguir em frente e deixar os opositores ladrarem. “Se você der bola para o que dizem, você não faz nada na vida”. Lição de avô mesmo!

Os gatinhos não ficam de fora. São várias as expressões em que esses bichinhos também são utilizados na linguagem popular…

O cidadão que não gosta de tomar banho, que entra no chuveiro e logo sai, é aquele que “toma banho de gato”; o indivíduo experiente, que já sofreu muito e que, por isso mesmo, é bastante cauteloso, faz lembrar o ditado: “Gato escaldado tem medo de água fria” – o equivalente a “cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça”.

Certa vez, eu, ainda menino, estava na padaria com meu pai e um sujeito bem malandro e vagabundo pediu que o dono do lugar lhe desse alguma bebida de graça. O homem, furioso, talvez cansado daquilo, disparou de trás do balcão: “Não sou gato para ter filho de bigode!”. Risos gerais. Nunca mais me esqueci disso.

Quando alguém fez um mau negócio, acabou “trocando gato por lebre”. Se, numa relação, alguém abusa de outra pessoa, está fazendo “gato e sapato dela” – o que é triste! Relações abusivas são sempre lamentáveis, sobretudo quando a gente presencia e não pode interferir…

À pessoa que silencia e não responde a uma pergunta que fazemos, logo perguntamos: “O gato comeu a sua língua?”.

Interessante também como essas expressões nos marcam para sempre. Citei a do meu avô e aquela que ouvi com meu pai na padaria do bairro onde morávamos. Minha mãe também contribuiu para isso. Lembro que eu devia ter uns dez anos, ela teve de sair para pagar alguma conta  – tempos pré-internet – e eu, mais velho, fiquei “cuidando” dos meus irmãos em casa, um com sete e outro com três anos. Sei que inventamos de fazer um bolo, sem prestar atenção ao perigo de acender o forno e botar fogo na casa. Pegamos açúcar, farinha, ovos, fermento, chocolate em pó, leite, e jogamos na tigela. Meu irmão do meio jogava os ingredientes e eu ia mexendo. O caçula brincando no sofá da sala com seu carrinho, mas louco para raspar a tigela, que caiu da minha mão e se espatifou no chão, melecando a cozinha inteira.

Minha mãe chegou na hora, não deu tempo de limpar a bagunça. Com o chinelo já na mão, falou, brava, muito brava: “Quando o gato sai, os ratos fazem a festa, né?”.

Muitos anos depois, ainda ríamos disso, toda vez que ela ia fazer um bolo. Saudade de tanta coisa…

A LÍNGUA E A CRIATIVIDADE POPULAR
O CHAVÃO

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5 Comentários. Deixe novo

  • Reflexão interessante, mas, muito boa.

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    Edilson Cardoso
    agosto 8, 2020 1:18 pm

    Nossa, me lembrei de tanta coisa, “viajei”! Uma que me fez “viajar” foi a do banho, meu avô era mestre no “banho do gato”.

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  • Crônica deliciosa! Realmente, a criatividade popular não tem limites e foi muito bem lembrada aqui!

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  • Avatar
    Angelo Antonio Pavone
    agosto 9, 2020 8:22 pm

    Olá Prof Vitor
    Belo e divertido texto. Todas essas citações estão na nossa memória
    Muito bom
    Parabéns

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  • Na coloquialidade da linguagem, cães e gatos figuram em expressões linguísticas por meio das quais se encontram nossas memórias: as individuais e a coletiva. Lindo texto, Professor. Parabéns!

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