BANCAS, JORNAIS E REVISTAS

Assisti a um documentário na TV fechada que me remeteu imediatamente à minha infância. “Já nas bancas” é uma produção de 2020, cujo tema são os jornaleiros e suas bancas de jornais que também vendem de baterias de celular a camisas de futebol, de chaveiros a cigarros, de livros a apostilas para concursos púbicos, passando por refrigerantes, canetas, lápis, balas, chocolates, DVDs e, claro, jornais e revistas.

De fato, temos em São Paulo bancas que vendem de tudo e são verdadeiras lojas onde se podem comprar as coisas mais inusitadas – como perfumes, por exemplo. Tenho um amigo estrangeiro que me disse certa vez: “Essas bancas que vocês têm aqui são um show! Não temos isso lá nos Estados Unidos!”. E são um show mesmo!

Um dos temas do documentário é a sobrevivência de um negócio tão tradicional durante a pandemia da Covid-19, quando muitas bancas tiveram que baixar suas portas e viram seus clientes sumirem por causa do isolamento social. São entrevistas interessantes – com proprietários de grandes bancas do centro do São Paulo e Rio e com donos de bancas mais modestas de alguns bairros.

Alguns dramas foram relatados – como o rapaz que herdou a banca do pai e o perdeu para o coronavírus. Ele não contém o choro quando diz que, por meio de um empréstimo, conseguiu revitalizar seu estabelecimento, coisa que o pai infelizmente não pôde ver. E outras histórias se seguem, como a do simpático casal da banca na esquina da Ipiranga com a São Luiz, no centro. Compro lá há quase 40 anos!

O documentário é bonito; sensível sem ser piegas; popular sem ser apelativo.

Enquanto eu assistia, muita coisa me passou pela cabeça. Fui aos meus oito anos de idade, minha primeira lembrança de uma ligação muito forte que eu teria com jornaleiros e suas bancas pela vida afora. A então Editora Abril, “a maior da América Latina”, como se sabia à época, publicava a Revista Recreio, uma revista infantil, semanal, que trazia sempre historinhas, testes, piadas, curiosidades e alguma coisa para ser colada e montada. Era uma diversão! Eu tinha um amigo de mesma idade e nós ficávamos contando os dias para a chegada da revista. Nossas mães davam dinheiro e lá íamos felizes pra banca na frente da escola.

Um pouco mais tarde, descobri as revistas da Disney e da Turma da Mônica. Logo em seguida, foram os quadrinhos  de super-heróis – Thor, Capitão América, Homem Aranha, Hulk – que eu comprava com o dinheiro que meus avós me davam. Daí para as publicações mais sérias foi um pulo. Tudo isso na banca de jornal do bairro onde eu morava!

Ela era um paraíso, uma fonte inesgotável de boas publicações! Revistas para o público masculino, outras para o público feminino, outras pra criançada… Acabávamos desenvolvendo uma amizade com o jornaleiro. Eram tempos em que ele encomendava fascículos e revistas para nós diretamente com a editora ou a distribuidora. Sabíamos que sua ajuda era certa para o caso de perdermos algum exemplar e ele ser recolhido.

Lembro de quando, ainda garoto, comecei a gostar de futebol e as revistas esportivas começaram a fazer parte de minhas leituras. Eu lia a Placar e a Manchete Esportiva, duas revistas bem antagônicas quando o assunto era Seleção Brasileira. A primeira era de São Paulo (Editora Abril, sempre ela!) e a segunda era do Rio (Bloch Editores). Eu conversava muito com o jornaleiro sobre essa diferença de posicionamento: os cariocas apoiavam o técnico Cláudio Coutinho; os paulistas criticavam-no sem dó. Até hoje, tenho essas revistas encadernadas aqui em casa – acho que são um símbolo de uma ingenuidade que eu perdi e que nunca mais será recuperada sobre um esporte que definitivamente curvou-se diante do dinheiro.

Quando, já adolescente, comecei a fazer meu curso de inglês, algumas bancas do centro foram de muita ajuda. Elas vendiam revistas americanas e, apesar do alto preço por causa do dólar, eu conseguia comprar algumas com certo sacrifício. De novo, jornaleiros se tornaram amigos e me guardavam revistas que, eles sabiam, podiam me interessar.

Com o advento da internet, as publicações em papel estão com tiragens bem reduzidas, pra falar das que ainda sobrevivem nas bancas. A própria Editora Abril vem passando por sérias dificuldades financeiras, além de outras empresas do ramo. A Bloch, por exemplo, não existe mais.

Para quem cresceu perto – em mais de um sentido – das bancas de jornais e contou com a dedicação e amizade de seus donos, o panorama é triste. Quando andamos pelos bairros mais distantes do centro, vemos bancas permanentemente fechadas, pois seus donos não conseguiram sobreviver à pandemia que se arrasta pelo Brasil e pelo mundo.

Enquanto escrevo, olho ao meu redor. Estou cercado de muitos livros e revistas comprados nas tantas bancas que conheci, frequentei e frequento até hoje. Cada uma delas com um profissional – às vezes, uma família de cinco, seis pessoas que se revezavam no atendimento ao público.

Para mim, a abertura de uma banca de manhãzinha  sempre foi o símbolo do começo de um novo dia, tanto quanto o nascer do sol ou o café que minha mãe preparava pra gente.

Meu muito obrigado aos meus amigos jornaleiros! A ajuda deles e os episódios que tenho pra contar sobre sua dedicação são muito maiores do que posso expressar aqui.

(Deixo o link abaixo e convido o leitor para assistir ao documentário. Ele é bem bonito. Vale a pena!)

https://www.discoverybrasil.com/discovery/janasbancas/video/ja-nas-bancas

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4 Comentários. Deixe novo

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    Edilson Cardoso
    fevereiro 25, 2021 3:50 pm

    O texto uma delícia, me bateu uma saudade imensa! O documentário é sensacional, obrigado por compartilhar. Aqui na minha cidade não temos mais bancas de jornais.
    O único jornal da cidade é vendido em vários comércios, enquanto os mais famosos ( Folha e Estadão) são entregues em pouquíssimos estabelecimentos e residências.

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  • Bela história. As bancas de jornal realmente estão deixando de existir aos poucos.

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    Angelo Antonio Pavone
    fevereiro 25, 2021 7:27 pm

    Olá Prof Vitor
    Belo texto. No decorrer da leitura foi inevitável lembrar das minhas relações com donos de bancas de jornais ao longo da vida
    Hoje restam as lembranças e o hábito de ler diariamente meu Estadão impresso
    Parabéns

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    Baltasar Pereira
    março 4, 2021 11:51 pm

    Viajei no Tempo com está Crônica.
    Eu,quando criança, também comprava revistas na banca da minha rua e que delícia quando comprava um novo gibi ou a revista e adorava conversar com o dono da Banca e uma coisa que fazia, era sentir o cheiro da revista ou gibi. Estranho um pouco isto,enfim,vão se entender certas manias.
    Saudades desta Época em que existiam Bancas em nossas ruas e fazíamos Amizade de verdade com os donos e suas Famílias.

    👏👏👏

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