ALGUMAS DIFERENCIAÇÕES

 

Na língua portuguesa, encontramos várias expressões ou palavras que se confundem quanto ao seu uso e ao seu significado. É muito comum empregarmos determinado termo quando deveríamos, por força do contexto e da significação, utilizar outro bastante semelhante. Vejamos alguns exemplos mais quotidianos.

Uma das principais confusões diz respeito a “em princípio” e “a princípio”. A primeira quer dizer “em tese”, “teoricamente”: “Em princípio, a convocação do jogador foi muito boa para o ataque da seleção; vamos ver ser ele corresponde às expectativas”. Vejam que há um grau de incerteza, o jogador deverá provar que sua convocação foi justa.

“A princípio”, por sua vez, significa “no começo”, “inicialmente”: “A princípio, estudaremos o Barroco no Brasil; depois, passaremos para outras escolas literárias”.

Outra duplinha que confunde bastante a moçada vem a ser “por hora” e “por ora”. Bem, “por hora” significa “durante 60 minutos”: “O professor de violão cobra R$100,00 por hora”. Já “por ora” quer dizer “por enquanto”, “neste momento”: “O governo americano não pretende, por ora, adotar retaliações contra os chineses”.

E o que dizer do “com nós” e do “conosco”? O “com nós” deve ser utilizado quando vier reforçado por termos como “próprio”, “mesmo”, “todo”, “dois” etc. “Os filhos do vizinho ficaram com nós dois no feriado”. O “conosco” deverá ser empregado na ausência dessas palavras de reforço: “Deixe as chaves de casa conosco, pois voltaremos mais cedo”.

Ainda que a TV esteja perdendo o cartaz em tempos de internet, vale a pena lembrar que a expressão mais aceita vem a ser “TV em cores”, pois aquela bem antiga era uma “TV em preto e branco”. Assim, “A TV em cores chegou ao Brasil somente em 1972, substituindo a TV em preto e branco“. Essa é fácil!

Observemos, agora, o emprego de “mais bem” e “mais mal”. A alguns leitores, isso poderá parecer estranho e até feio, mas as expressões existem. Quando utilizarmos verbos no particípio, não devemos empregar “melhor” e “pior”. Vejamos: “Aquela aluna era a mais bem preparada para o exame da OAB”; “Este é o time mais mal adaptado à altitude de La Paz”.

Ainda hoje, encontro muitos alunos que não sabem a diferença entre “mal” e “mau” e acabam empregando um no lugar do outro, principalmente em mensagens de whatsapp e em redações. Lembrando, portanto: “mal” é o contrário de “bem” – pode ser um advérbio de modo: “Ele se alimenta muito mal“; pode ser uma conjunção temporal: “Mal a aula acabou, começou a discussão”; pode ser também um substantivo: “Falta de educação – esse é um mal que acomete muitas pessoas”.

O “mau”, por sua vez, é o antônimo de “bom”. É um adjetivo e possui a forma do plural (“maus”) e as formas do feminino (“má/más”) : “O mau professor logo é notado; o mau aluno vive nas sombras”.

Façamos, agora, a distinção entre “senão” e “se não”… “senão” é o mesmo que “caso contrário”, “a não ser”: “Leia, senão você não estará a par do processo”; “Ele não fazia nada de útil senão reclamar”. “Se não” equivale a “caso não”: “Se não pudermos ser os maiores, que sejamos os melhores!”.

Há uma bonita música de Benito di Paula – “Se não for amor” – na qual o eu lírico declara-se apaixonado diante da pessoa amada. Na possibilidade de não ser correspondido, porém, ele canta:

(…) Se não for nada disso fique perto
Dou um jeito e tudo certo
Não precisa se preocupar
Dê mais um sorriso e vá embora
Por favor volte outra hora
Eu só quero ver você voltar

 

Mas se não for amor
Não diga nada por favor
Não apague esse sonho
Pois meu coração nunca sofreu de amor (…)”

 

A expressão “haja vista” é invariável, não existindo a forma “haja visto”. Assim, “O Brasil precisa melhorar sua economia, haja vista os índices de desemprego dos últimos cinco anos” ou “A cidade de São Paulo poderia ser mais amada por seus moradores, haja vista os prédios pichados e os monumentos destruídos”.

Para finalizar, a diferença entre “afim” e “a fim”, probleminha muito encontrado no nosso dia a dia. Bem, “afim” é um adjetivo e equivale a “igual” e dá a ideia de “afinidade”: “Geografia é muito afim com História, pois se complementam”, ou “Ele e ela são muito afins, já que pensam da mesma forma”. A locução “a fim”, acompanhada pelo “de”, significa “para”, dá a noção de “vontade”, “desejo”, “com a finalidade de”: “Estudei muito a fim de crescer e mudar”.

A bela canção “Ainda bem”, de Marisa Monte e Arnaldo Antunes, é outro bom exemplo do uso dessa expressão:

Ainda bem
Que agora encontrei você
Eu realmente não sei
O que eu fiz pra merecer
Você

Porque ninguém
Dava nada por mim
Quem dava, eu não ‘tava a fim
Até desacreditei
De mim (…)”

 

Afinal de contas, quando estamos “a fim de alguém”, estamos com vontade de ficar com esse alguém, sentimos o desejo de sua presença – seja por tesão, seja por amor… ou, melhor ainda, pelos dois!

SÃO PAULO
UM CURSO DE INGLÊS E A MEMÓRIA

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