AFORISMOS – SÍNTESE E PRECISÃO

O leitor certamente já teve contato com algum aforismo que lhe tenha ficado na mente. Quem tem o hábito de leitura provavelmente guarda alguma frase como um ensinamento. E o aforismo tem exatamente essa finalidade!

Segundo o dicionário, “aforismo é uma máxima ou sentença que, em poucas palavras, explicita regra ou princípio de alcance moral”, sendo um texto “curto e sucinto, porém memorável”. Obviamente que, para ser memorável, o bom aforismo deve ser também afiado e inteligente.

Encontramos aforismos sobre as mais variadas áreas de atuação humana – política, economia, cinema, música, saúde, educação etc. Como estou mais familiarizado com a literatura, vou lembrar um pouco o que escritores declararam sobre sua própria arte e sobre a vida em geral.

Quando mergulhamos no universo desses profissionais, encontramos frases espirituosas, afiadas, inteligentes, irônicas e, claro, venenosas também – dependendo de quem as profere.

Começo com o francês Auguste-René de Chateaubriand, segundo o qual “um escritor original não é aquele que não imita ninguém, mas aquele que ninguém consegue imitar”. É verdade.

O Barão de Itararé, pseudônimo do irreverente humorista e escritor Apparício Torelly, a respeito de livros famosos que não acrescentam muito ao leitor, disse: “O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro”. Imagino o que ele diria hoje!

O grande escritor argentino Jorge Luis Borges certa vez afirmou, num exercício de humildade: “Que outros se orgulhem das páginas que escreveram! Eu me orgulho das que li”.

E é do russo Tchékhov, a recomendação: “Canta tua aldeia que cantarás o mundo”, isto é, os grandes temas humanos são universais, não importa onde estejam o escritor e sua história.

Vamos falar um pouco do irlandês Oscar Wilde. Escritor famoso pela perspicácia e inteligência, é claro que angariou muitos inimigos em sua curta vida. Sua existência foi marcada pelo deboche, pela ironia e também por um triste fim. Foi direto e reto ao afirmar que: “Não existem livros morais ou imorais. Os livros são bem ou mal escritos”.

O também irlandês George Bernard Shaw apontou seu canhão na direção dos biógrafos: “Quando leres uma biografia, lembra-te de que a verdade é impublicável”. A inglesa Virginia Woolf também demonstrou sua aversão a biografias: “Muitas vezes, isso não passa de uma operação plástica feita em um morto”.

O poeta alemão, Heinrich Heine, por sua vez, cunhou um aforismo que jamais deve ser esquecido: “Onde se queimam livros, acaba-se por queimar gente”.

E, elogiando não os livros, mas quem os consome avidamente, o dramaturgo francês André Roussin, afirmou: “Intelectual é alguém que entra numa biblioteca mesmo quando não está chovendo”. E nas poucas livrarias que ainda restam, também, eu diria.

Gore Vidal não perdeu a chance de destilar toda a sua raiva da má literatura de seu país: “Escrever mal e ser idiota é uma combinação irresistível para ser popularíssimo nos Estados Unidos”.

O inglês D. H. Lawrence afirmava que “o verdadeiro coração do mundo é um livro”, enquanto Franz Kafka escreveu que “um livro deve ser o machado para romper o mar congelado dentro de nós”. Gustave Flaubert foi mais sucinto, mas igualmente poético e certeiro: “Leia para viver!”.

A escritora neozelandesa Katherine Mansfield definiu o que seria, em sua opinião, uma perfeita vida a dois: “O prazer de toda leitura é dobrado quando se vive com alguém que compartilha os mesmos livros com a gente”.

A jovem escritora inglesa Zadie Smith faz um alerta para os escritores de sucesso, mas suas palavras servem para todos indistintamente: “Não confunda honrarias com conquistas”. (Em tempos de redes sociais, o conselho é bastante sábio.)

Nosso inesquecível Graciliano Ramos sempre foi um inimigo feroz da prolixidade – seus textos eram (são) enxutos, precisos, objetivos. O escritor alagoano escrevia à mão e, depois, ia riscando, subtraindo, “enxugando” as frases e as orações de modo a deixar apenas o essencial. “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso. A palavra foi feita para dizer”.

Concordava com ele o escritor americano Ezra Pound, segundo o qual “a incompetência do autor ficará evidente no uso de muitas palavras”.

Abordando os múltiplos aspectos da vida, também são muitos os aforismos de escritores nacionais e estrangeiros. Vou destacar alguns e me segurar para não citar muitos.

Qual estudioso de Machado de Assis não se lembra do conselho do grande escritor realista, cuja ironia era notória, quanto à ingratidão? “Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens que de um terceiro andar”. Ainda sobre o mesmo tema, o francês André Gide escreveu: “No fundo de cada decepção, jaz, para quem sabe entendê-lo, um grande benefício”.

Outro, também de Machado, em que ele afirma: “Não é amigo aquele que alardeia a amizade: é traficante; a amizade sente-se, não se diz…”. Mais um do escritor carioca? “O dinheiro não traz felicidade — para quem não sabe o que fazer com ele”. Parece que vejo aqui o riso contido do leitor…

Mais um de Machado, atualíssimo, neste ridículo adiamento de maturidade que assola as novas gerações: “Há criaturas que chegam aos 50 anos sem nunca passarem dos 15”. E vejam: isso foi escrito no século 19!

São muitos os aforismos machadianos. Eu poderia encher páginas e páginas somente com suas palavras sobre a vida. Vejamos outros autores!

Oscar Wilde, outra vez ele, proferiu o seguinte e inesquecível aforismo: “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”. Mais aforismos bem espirituosos do escritor de “O retrato de Dorian Gray: “Posso resistir a tudo, menos à tentação”; “A quantidade de pessoas que nos invejam confirma as nossas capacidades”. E este, com o qual eu acho que ele dinamitou suas (possíveis) boas relações na terra da rainha: “Na Inglaterra, nada é feito para as mulheres. Nem os homens…”.

Um outro, também de Wilde, que eu acho genial: “Todo crime é vulgar, assim como toda vulgaridade é um crime”. Perfeito!

Shakespeare foi outro que, por sua genialidade, deixou vários aforismos, ainda preciosos cinco séculos depois de escritos. Alguns deles: “Só zomba das cicatrizes quem nunca foi ferido”; “O diabo pode citar a Bíblia quando isso lhe convém”; “O mal que os homens praticam sobrevive a eles; o bem quase sempre é sepultado com seus ossos”. (Realmente, esquecemos com facilidade o bem que nos fizeram e temos uma memória de elefante para a mágoa e a dor.)

Aldous Huxley deixou um aforismo sob a forma de uma pergunta perturbadora e não de todo absurda: “E se este mundo for o inferno de outro planeta?”. Caso a resposta seja “sim”, muita coisa fará sentido nesta vida…

Obviamente que não faltam aforismos sobre o Brasil. Em um país onde os absurdos se multiplicam, são numerosos os escritores que, com ironia, mordacidade e inteligência, já criticaram nosso modo de vida, nossa política, nossos costumes e tradições.

O Barão de Itararé, de novo ele, gostava de dizer: “Se há um idiota no poder, é porque os que o elegeram estão bem representados”. Sem comentários…

O escritor Ivan Lessa, por sua vez, resumiu bem o que é o brasileiro com relação à história do país e às figurinhas carimbadas de nossa política que se revezam nas eleições: “De 15 em 15 anos, o Brasil se esquece do que aconteceu nos últimos 15 anos”.

O jornalista, dramaturgo e escritor pernambucano Nelson Rodrigues foi outro que nos deixou um arsenal de aforismos inesquecíveis. O Anjo Pornográfico, como ficou conhecido, soltou coisas como: “O dinheiro compra tudo – até amor verdadeiro”. Ou ainda: “Eu recomendo aos jovens: envelheçam depressa, deixem de ser jovens o mais depressa possível”.

São dele também as seguintes tiradas geniais: “A televisão matou a janela”, “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”. “Por trás de todo paladino da moral, vive um canalha”. (É sempre prudente desconfiar dos moralistas de plantão!)

Quanto ao nosso estado de eterno país do futuro, ele também foi taxativo: ““Subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos”. A gente ri pra não chorar…

Penso, porém, que o aforismo mais atual de Nelson é assustador. Quarente anos após a sua morte, suas palavras descrevem o que vem ocorrendo no Brasil há algum tempo. É pra gente parar e pensar muito: “Quando, por causa da ideologia, os amigos deixam de jantar com os amigos, é porque o país está maduro para a carnificina”.

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